A denuncia do O Pe. Basileu Pires, dos Marianos da Imaculada Conceição, de que na Igreja em Portugal vivemos uma “carência de espiritualidade” serve para percebermos que o desafio maior com que o catolicismo hoje se debate é, mais do que na acção externa da Igreja, a crise da linguagem religiosa: que palavras, formas, gestos podem hoje dizer Deus de um modo plausível? Jean-Marie Tillard, teólogo católico, defende que a presente geração é a última testemunha de um certo modo de ser cristão. “Doravante, a Fé não mais se transmitirá pelas veias da assimilação a um determinado contexto sócio-cultural, mas pela humilde proclamação da diferença evangélica”, assegura. Sob o título “Chrétiens, tournez la page”, a editora Bayard publicou o resultado de cinco entrevistas a alguns especialistas e observadores do fenómeno religioso. Cada um traça, segundo a sua perspectiva, o “estado da nação cristã”. Questionado sobre se a actual situação corresponde a uma descristianização, René Remond, autor de “Le christianisme en accusation”, responde: “penso que as evoluções actuais não correspondem, necessariamente, a uma descristianização”. Hoje em dia, dizem os especialistas, o facto de as pessoas não “praticarem” de forma regular não significa que tenham abandonado a fé cristã. Isso ficou claro, em Portugal, após o apuramento dos resultados do Recenseamento da Prática Dominical de 2001, e da sua comparação com os recenseamentos similares de 1977 e 1991, respeitantes ao conjunto do país. O número de praticantes tem vindo a diminuir desde 1977: no intervalo de 14 anos entre 1977 e 1991, registou-se uma diminuição de cerca de 197.000 praticantes, correspondente a -8%; entre 1991 e 2001, houve uma diminuição de cerca de 310.000 praticantes, ou seja, -14%. Isto é, entre 1977 e 2001, observa-se uma quebra de cerca de 507.000 praticantes dominicais (-21%). Há um círculo de pessoas, mais ou menos praticantes, mais numeroso do que os fiéis regulares e que se considera como “bons católicos”. Notícias relacionadas • Os caminhos do cristianismo
