Maria Benedita Costa dá aos seminaristas «o testemunho de uma leiga que por amor à Igreja dispõe de tudo o que é capaz»
Caparide, Lisboa, 02 set 2011 (Ecclesia) – Dos 103 anos de vida que Maria Benedita Costa assinala hoje, perto de 80 foram dedicados aos seminários da diocese de Lisboa, servindo no trabalho e na oração a maior parte do clero local, incluindo o cardeal-patriarca.
A “dona Benedita”, como é familiarmente tratada, nasceu em Leiria a 2 de setembro de 1908, cedo conhecendo a fundadora da congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima, Luísa Andaluz.
A primeira missão que a religiosa lhe atribuiu foi acompanhar as crianças que agonizavam por causa da epidemia de tuberculose que atingiu Santarém: “Elas abraçavam-se a mim a chorar, pedindo para não as deixar morrer; e eu sem saber o que dizer”, recordou à Agência ECCLESIA.
Em 1935 era inaugurado o Seminário de São Paulo, em Almada, e Maria Benedita fez parte dos colaboradores externos, mas quatro anos depois passou a residir no local, onde permaneceu até 1999, quando a formação inicial de nível superior dos seminaristas de Lisboa foi transferida para Caparide, concelho de Cascais.
“Fiz tudo: desde lavar o chão, fazer batinas, sobrepelizes e paramentos, além de ser responsável pela cozinha”, tarefa que aceitou com relutância devido à inexperiência: “Eram para ser só quinze dias. Acabaram por ser 60 anos”, lembra a dona Benedita, que no cinquentenário do seminário recebeu o reconhecimento da Santa Sé.
Maria Benedita diz que hoje “há muito mais intimidade com os seminaristas” e refere que em Almada o cardeal-patriarca de então, D. Manuel Cerejeira, impôs que as colaboradoras vivessem numa casa à parte do corpo principal do seminário: “Tinha medo”.
“Foi um tempo muito bom, que recordo com saudade. Não foram sempre rosas. Também sofri muito. Mas é preciso”, assinala a dona Benedita, que guarda na memória a passagem de D. José Policarpo pelo seminário: “Sempre foi uma pessoa um bocadinho independente”.
As ordenações constituem os momentos que evoca com mais alegria – “era para isso que se trabalhava e rezava” – mas muitas tristezas surgem depois que os seminaristas se tornam padres: “Quando vejo um mau exemplo tenho pena mas não crítico. E digo: ‘são homens, sujeitos às mesmas coisas de qualquer um’”.
O padre Ricardo Neves, que até fim de agosto foi vice-reitor do seminário de São José de Caparide, conhece Maria Benedita há 24 anos: “É uma mulher muitíssimo determinada, com um sentido do dever muito apurado, com uma enorme capacidade de trabalho e sacrifício, mas também com ‘pelo na venta’”.
“Ela dá ao seminário uma tonalidade feminina e maternal muito importante para uma casa só de homens, o que ajuda a instituição a viver os afetos e as relações humanas de uma maneira mais harmoniosa e completa”, acrescenta.
O novo pároco do Estoril salienta que o exemplo da dona Benedita é “um sinal fortíssimo para os seminaristas”, que veem nela “o testemunho de uma leiga que por amor à Igreja dispõe de tudo o que é capaz”, ao mesmo tempo que revela “confiança e obediência a Deus nesta última fase da vida”.
Maria Benedita desloca-se em cadeira de rodas, precisando de ajuda para todas as tarefas: “Até aos 100 anos ainda fui trabalhando, fazia cíngulos [cordões que apertam as túnicas], cozia à máquina, passajava as calças. Agora até me custa passar as folhas dos livros. Não presto para nada”.
Os futuros sacerdotes discordam por saberem que nela continuam a encontrar uma confidente e intercessora: “Não digo muitas Ave-marias. A minha oração é esta: Mãe do Céu, protege estes seminaristas e guardai-os no vosso coração. Ajudai-os e dai-lhes espírito de fé. Que um dia sejam padres segundo o vosso coração”.
RM
