O mundo da saúde é o maior campo de evangelização

Pe. Feytor Pinto, Coordenador da Comissão Nacional da Pastoral da Saúde Agência ECCLESIA – A mensagem de João Paulo II para o Dia Mundial do Doente fala de “centros de vida e de esperança” como resposta aos problemas do sofrimento e da morte. Há mesmo resposta para esses problemas? Pe. Feytor Pinto – Hoje, uma grande preocupação que nós temos, é ajudar as pessoas na fase terminal da vida. No nosso tempo há a tendência eutanásica, eliminar a pessoa que está a sofrer e continuarmos nós “no cantinho da vida”, sem nos preocuparmos muito. É assim que se eliminam as crianças antes de nascer, que se deixam cair os deficientes, que se abandonam os doentes em fase terminal. Alguns falam mesmo de “eutanásia social”, em que a pessoa é atirada para unidades em que se encontra totalmente sozinha. Contrariando tudo isto, a Pastoral da Saúde tem o dever de criar centros “de vida e de esperança”, que sirvam de apoio aos doentes. AE – Que outros pontos destacaria na mensagem do Papa? FP – É fundamental sublinhar a visão que o Papa tem do mundo em sofrimento. Logo no n.º 2 ele fala de uma sociedade em que dominam os poderosos, marginalizando e eliminando os mais fracos; podemos colocar os problemas “tradicionais” do aborto e da eutanásia, mas podemos colocar o problema da guerra, que é também isto. O Papa fala ainda da pena de morte e, a concluir, defende que a nossa cultura deve ser a da vida e não a da morte, que é brutal no mundo de hoje. João Paulo II fala para o continente americano, não para um país: o espectro de reflexão do Papa ultrapassa largamente os EUA. Perante o sofrimento, a solidão, a angústia, a Igreja tem de ter uma palavra muito especial, pelas capelanias, pelas comissões de ética, pelo pessoal sanitário laical. AE – As comunidades paroquiais são muito responsabilizadas nesta mensagem. Como tem sido entendido esse apelo em Portugal? FP – O que é dito no n.º 5 da mensagem do Papa vem ao encontro da nossa preocupação por ultrapassar a mera perspectiva hospitalar: quando se fala em Pastoral da Saúde pensa-se imediatamente em hospitais, mas as comunidades paroquiais têm muito mais responsabilidades. Como diz o Papa, hoje está-se cada vez menos tempo nos hospitais, os doentes estão em casa e isto implica que as paróquias têm de organizar rapidamente uma estrutura pastoral que apoie os doentes que estão domiciliados. É importante reflectir na nossa actividade, percebendo até que ponto somos capazes de dar apoio a todos os doentes, não apenas aos doentes terminais. A presença junto deles tem de ser muito mais do que a administração dos Sacramentos, que são importantes, não deixando faltar aos doentes a consolação do Senhor. AE – Aos párocos será exigida sensibilidade no campo dessa pastoral? FP – O Papa faz referência à formação do Clero. Há países em que os seminaristas têm cursos especiais na área da saúde, nos últimos anos, mas nós em Portugal ainda estamos no princípio. Eu faço um apelo a todos os responsáveis dos seminários para que introduzam o estudo da pastoral da saúde, porque os hospitais e os espaços onde estão os doentes são as novas catedrais dos nossos tempos. As pessoas já não vão muito à Igreja, mas toda a gente adoece! Importa perceber como é que utilizamos este fenómeno como um espaço de amor, de humanização, de presença que abra a porta a uma evangelização. Por isso, fico contente por termos escolhido, para a reflexão nacional, o tema “Doentes na paróquia, uma prioridade”. Para mim, este é o grande slogan do Dia Mundial do Doente. AE – Que iniciativas tomou a Comissão Nacional da Pastoral da Saúde? FP – Nós lançamos uma catequese para os que trabalham nesta área, damos orientações para as paróquias saberem o que fazer face aos seus doentes e, em relação à prevenção das doenças, o trabalho que é feito na catequese e nas escolas católicas tem de ser um trabalho de prevenção. Repare-se que os comportamentos sexuais no mundo contemporâneo são bárbaros e trazem consequências brutais para a saúde das pessoas: as doenças venéreas são 42, não é apenas a Sida. Além da educação da sexualidade há problemas como o stress, que lembram a necessidade de educar as pessoas para viverem num mundo diferente. Quem me dera que todas as paróquias acordassem para estas realidades! AE – Mesmo fomentando novas formas de presença na pastoral dos doentes, há uma presença tradicional nos hospitais que se traduz nas capelanias. Esta presença tradicional está ameaçada face ao surgimento de gestões privadas nos nossos hospitais? FP – Eu não diria que é uma ameaça, mas é um problema que obriga o Estado a garantir um dos aspectos mais importantes na recuperação dos doentes, que é a parte espiritual. O ser humano é um ser integral, que precisa de um bem-estar que inclui uma dimensão sobrenatural, religiosa, não podemos dispensar a assistência religiosa. As novas gestões podem dizer que não são obrigadas a cumprir o decreto regulamentar 55/80. Já começamos as conversações com o Ministério, em Julho, de modo a assegurar, que o respeito pela liberdade religiosa, seja garantido a todos os doentes, o apoio anímico que vem do apoio espiritual, religioso, indispensável para a cura total. Estou convencido que se vai encontrar uma fórmula jurídica que salvaguarde esse direito dos doentes porque não se trata aqui de um direito da Igreja: é um direito dos doentes que tem de ser garantido mediante uma estrutura legal.

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