Nota Pastoral de D. Teodoro de Faria 1 – Desde 1983 que a 11 de Fevereiro reunimos na Catedral do Funchal alguns doentes e idosos da Diocese que as organizações paroquiais ou casas de saúde caridosamente transportam e acompanham para celebrar o Dia Mundial do Doente. Apesar da dificuldade de movimentos e debilidade física de alguns idosos, é um momento solene e emocionante pois eles têm a possibilidade de orar na Igreja mãe da diocese, no dia que lhes é consagrado na Igreja Universal, quebrando a solidão e afastamento da comunidade na Eucaristia dominical. Todos os anos o Santo Padre envia uma mensagem neste Dia Mundial dos Doentes e escolhe um Cardeal, como seu delegado, para celebrar a Eucaristia num santuário Mariano significativo, que neste ano é o de Lourdes, na França. Há 150 anos, o Papa Pio IX proclamou o dogma da Imaculada Conceição, afirmando que a «doutrina que defende que a Bem-aventurada Virgem Maria foi preservada de qualquer mancha do pecado original desde o primeiro instante da sua concepção» é revelação de Deus. Quatro anos depois, a 11 de Fevereiro de 1858, Nossa Senhora aparecendo à pastorinha Bernardete, respondeu-lhe em dialecto local, à pergunta, quem é a «Senhora»: «Eu sou a Imaculada Conceição». Com Maria teve início a obra da redenção de toda a humanidade que se realizou plenamente no Calvário com o sacrifício de Jesus, o Filho de Deus. Lourdes, tornou-se ao longo dos anos, um dos santuários mais queridos e visitados pelos doentes. Maria continua a operar inúmeras curas espirituais e até corporais, junto à gruta onde apareceu a Bernardete. «O sofrimento humano, escreve o Papa, pertence à vicissitude histórica do homem». Na morte e ressurreição de Jesus a dor humana encontra o seu significado e o seu valor sobrenatural de salvação. Junto à Cruz, Maria é constituída Mãe da humanidade e participa nos sofrimentos de Seu Filho. Alguns Padres e doutores da Igreja chamam-na Corredentora. Santo Ireneu, no século II, escreveu: «Maria… foi causa de salvação para ela e para todo o género humano». 2 – O Dia Mundial do Doente leva-nos a reflectir sobre o sofrimento, a doença, a velhice. A qualidade de vida, e até de longa vida, é uma preocupação da ciência e dos Estados. A vida deve ser tutelada desde o seio materno até ao seu ocaso natural. A vida que nasce como a que morre precisa de cuidados e do calor humano. Os objectivos que se procuram conseguir no campo da saúde referem-se ao bem estar do corpo e deixam pouco ou nenhum espaço ao acompanhamento espiritual dos doentes. Para quem sempre gozou de boa saúde, é difícil entrar no mundo da doença e da velhice. Mas o nosso corpo, com as suas debilidades e doenças, é um bom pedagogo, mostra-nos que somos peregrinos na terra e devemos tomar consciência do nosso destino humano. A Igreja sempre procurou acompanhar os seus filhos no ocaso da vida. Cristo deixou o sacramento da Unção dos Enfermos, sinal da presença de Deus e solidariedade da comunidade cristã. É cruel e desumano ser deixado sozinho e na solidão nas últimas horas de vida. Humanizar a hora da morte, não a esconder dos familiares entre tubos num quarto do hospital, é uma forma de cristianizar um momento único que não se repete e devemos vivê-lo bem. Quando se procura a qualidade de vida não se pode esquecer a qualidade da morte corporal. 3 – A Pastoral da Saúde sensibiliza todos os que trabalham com os doentes e idosos a se colocarem ao serviço da vida. A Mensagem do Papa refere-se aos que se dedicam ao estudo e experimentação de novos fármacos, dizendo que merecem o maior respeito e reconhecimento pelos progressos que a ciência tem conseguido no campo da saúde. A mesma Mensagem, alerta os médicos e paramédicos, assim como os que produzem remédios, a ter em conta os que têm menos recursos e não podem ser afastados dos cuidados e remédios quando a sua saúde o requerer. O Dia Mundial proporciona às famílias dos doentes e às instituições humanas e cristãs um momento oportuno para reflectir sobre o dom inestimável da vida, e ocasião para levar uma mensagem de esperança e bondade a todos os que sofrem. A doença e a morte continuam a acompanhar a existência humana, mas Cristo ressuscitado faz-nos participantes da sua ressurreição gloriosa. O nosso sofrimento, desde que unido ao de Cristo redentor, não é inútil. Só através da morte corporal atingimos a vida eterna. A luz da fé ilumina o ocaso da nossa vida. Acreditamos que a nossa plena realização não é terrena, a verdadeira felicidade é a vida eterna, fruto da ressurreição de Jesus Cristo. Aos doentes e idosos, aos quais Deus concedeu a riqueza da fé, recordo as palavras de São Paulo: «Agora alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja» (Col. 1, 24). Funchal, 10 de Fevereiro de 2004 +Teodoro de Faria, Bispo do Funchal
