Recorde os grandes momentos dos “Diálogos sobre a Fé” D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, e Eduardo Prado Coelho vão encontrar-se, frente a frente, para um debate que retoma a dinâmica iniciada com a troca de cartas sobre questões da fé publicadas “Diário de Notícias”. O debate realiza-se a 20 de Fevereiro, na UCP, em Lisboa, integrado na semana cultural promovida pela instituição de 16 a 20 deste mês. O encontro tem como título “Debates contemporâneos” e é aguardado com grande expectativa, após as seis cartas em que os intervenientes deram vida a um notável diálogo cultural. Entre 2 de Novembro e 7 de Dezembro temas como o celibato, a exclusão das mulheres, o sofrimento, o Paraíso e o inferno ou o lugar da Igreja na sociedade estiveram em destaque. Pelas 21h30 do próximo dia 20, com a moderação de Ramos Pinheiro (director de informação da RR), o debate “sem redes protectoras” vai continuar. Nesse mesmo dia será apresentado o livro que reúne as seis cartas no DN. PRIMEIROS DESAFIOS O debate começou com a publicação da carta assinada por Eduardo Prado Coelho. Ex-militante do Partido Comunista Português (PCP), Prado Coelho recorda a relação da sua família com a religião e confessa as suas perplexidades sobre o assunto. Eduardo Prado Coelho termina assim a primeira carta: “continua-se a acreditar em Deus, mas cada vez menos como pessoa e cada vez mais como abstracção. E existe crescentemente uma leitura imanentista da religião, vista como difusa mensagem de esperança e felicidade, onde noções como o diabo ou o inferno não fazem qualquer sentido”. “Tem a Igreja a noção desta evolução? Considera-a um mal e tenta contrariá-la? Considera-a como algo de positivo que se poderá aproveitar para alargar a influência? Tem uma estratégia ofensiva face a ela? Ou vê nesta lenta mas manifesta descristianização uma decadência inexorável? Sente o seu destino associado à crise das grandes narrativas (e nesse caso assistiríamos à vagarosa mas inflexível erosão do comunismo e do catolicismo, do tomismo e do marxismo)?”, pergunta. O CELIBATO NA IGREJA O Cardeal Patriarca de Lisboa saiu em defesa do celibato, na primeira carta que escreveu para os “Diálogos sobre a fé”. Para D. José Policarpo, “está em questão a vida de centenas de milhares de homens e mulheres que, no mundo de hoje, acreditaram na utopia de uma outra vivência da sexualidade e da ternura, e que são na sociedade, sobretudo junto dos mais fracos, os pobres e os doentes, expressão de bondade, de serviço, de gratuidade, de amor”. A carta de resposta a Eduardo Prado Coelho mostrou mesmo um tom crispado quando o Patriarca pede que este “não chame hipócrita a quem não desiste, apesar da sua fragilidade” e que não fale do celibato nesses termos. No escrito fica ainda a promessa de “tratamento mais aprofundado, noutra carta.” A carta do Patriarca dá um grande valor ao diálogo entre todos os homens, “dimensão importante na formação da minha geração de jovens católicos, que vivemos apaixonadamente o Concílio Vaticano II” e assegura que “sempre acreditei que os homens se podem entender”. “Hoje, num momento em que o mundo está à beira de um conflito de civilizações, o diálogo inter-cultural e inter-religioso, continua a aparecer-me como a única saída digna do homem”, realça D. José Policarpo. O Cardeal destaca ainda a capacidade da fé cristã em abrir-se ao outro e lamenta que capacidade de crente gere uma maior abertura ao diálogo do que aquela que D. José diz encontrar nos seus possíveis interlocutores, ateus, descrentes, crentes de outras religiões. Falando sobre a relação entre racionalidade e fé, D. José Policarpo vinca que “Deus, na nossa vida, não é uma conclusão, é um acontecimento, que adquire, frequentemente, a radicalidade do inesperado. Jesus, no Evangelho, compara esse acontecimento surpreendente ao inopinado de um ladrão que assalta a casa”. “Encetar a caminhada da fé é iniciar um caminho de mudança de vida. Mas essa é uma longa caminhada”, acrescenta. PARAÍSO E INFERNO O Cardeal Patriarca de Lisboa considerou que os conceitos de Paraíso, purgatório e inferno são essenciais para entender “o destino eterno do homem e o sentido da existência depois da morte”. D. José Policarpo respondeu assim a Eduardo Prado Coelho, na segunda troca de cartas, em relação ao que este considerava ser “a tralha figurativa da religião”. “Parece-me impossível acreditar em Deus, sem acreditar na vida eterna. E aí a peça mais preciosa desse tesouro de família é a esperança do Paraíso, como plenitude de vida, dada por Deus e partilhada com Deus, em Jesus Cristo. O inferno é apenas a afirmação do Paraíso como escolha livre do homem; o purgatório, como a própria palavra indica, anuncia a longa caminhada de purificação exigida pelo Paraíso, purificação essa que envolve a nossa própria morte”, escreve o Cardeal. Um outro tema em destaque na segunda carta de D. José foi o sentido do sacrifício, que o Patriarca explica na perspectiva cristã, como expressão de um “amor generoso e gratuito”. “O sofrimento e a dor existem e acompanham inevitavelmente o homem no seu peregrinar da vida. Se ele é apenas sofrido, torna-se negativo e, porventura, opressor; se ele for oferecido, tornado expressão de amor, ele torna-se fecundo e libertador”, assegura. A possibilidade de alguém não acreditar em todas estas verdades é abordada por D. José Policarpo como parte do “insondável enigma do homem”. Muitos não reconhecem a presença de Deus, ressalta, por causa “da liberdade, da importância da cultura envolvente em que nascemos e crescemos, das pessoas que encontrámos e com quem convivemos”. POSIÇÃO SOBRE O SACERDÓCIO No último escrito da iniciativa, o Cardeal Patriarca de Lisboa assegurou que a Igreja Católica não alterará a sua posição em matérias mais polémicas ao ritmo da mutação cultural e sociológica. D. José Policarpo falou sobre a exclusão das mulheres do ministério sacerdotal, do celibato dos sacerdotes e da ética sexual da Igreja para vincar que quaisquer mudanças nestas matérias devem nascer “da Igreja toda, conduzida pelo Espírito”. Assumindo o desafio lançado por Eduardo Prado Coelho, D. José diz que em relação à exclusão das mulheres do ministério sacerdotal, o caminho que se está a fazer não é o mais correcto: “a maneira como este problema tem sido colocado, com sabor a reivindicação feminista, não é o bom caminho para o colocar. “O ministério sacerdotal é um dom que ninguém deve reivindicar”, explica. A hipótese de a Igreja vir a chamar mulheres para este ministério teria de brotar, segundo o Patriarca, “de uma maturação da Igreja toda”, assumindo que uma decisão precipitada nesse campo traria à Igreja, como um todo, “tensões tais que seriam causa de divisão.” Em relação ao o celibato obrigatório para os sacerdotes D. José Policarpo vinca que “esta é uma opção que, na sua génese, tem a marca do eterno e definitivo”, pelo que a Igreja procura ajudar a todos os que fizeram essa escolha e permaneceram-lhe fiéis, analisando muito prudentemente as motivações que podem aconselhar uma mudança de rumo. “Esta opção a Igreja poderá mudá-la, quando, conduzida pelo Espírito, o achar necessário e conveniente”, refere. Um último ponto foi a análise a questões concretas que giram à volta “da sexualidade humana e do possível divórcio entre o ensinamento da Igreja e a prática generalizada dos homens e mulheres do nosso tempo.” Nestas passagens o Patriarca dá particular relevo ao conceito de “ternura” e afirma que “a Igreja não é contra a sexualidade, mas sabe que ela não tem sentido sem a ternura e que uma e outra são flores que rapidamente murcham.” D. José Policarpo destaca o ministério de João Paulo II neste campo, resumindo-o na “coragem de ser fiel, a tempo e a contratempo, à exigência do Evangelho.” “Elogiamo-lhe a coragem com que se opôs à Guerra no Iraque ou com que denuncia as injustiças do nosso mundo e esperávamos que fosse tolerante para com a permissividade sexual, que nega a crianças o direito de nascer, que magoa a inocência no crime da pedofilia, que torna milhões de mulheres infelizes, porque violentadas, exploradas e mal amadas, que mata nos corações jovens a beleza e a ternura do primeiro amor?”, critica o Cardeal Patriarca.
