A organização internacional “Médicos Sem Fronteiras” (MSF) uniu-se às críticas lançadas pela Santa Sé à indústria farmacêutica, na semana passada, pedindo que esta baixe os preços dos medicamentos destinados ao tratamento da Sida, em países do Terceiro Mundo. Durante a apresentação da mensagem para a Quaresma de 2004, de João Paulo II, representantes do Vaticano exigiram que a comunidade internacional pressione as indústrias farmacêuticas, de modo a obter uma baixa significativa no preço dos medicamentos. “A cada dia, pelo menos 400 pessoas morrem no Quénia, por causa da Sida. Esta é uma acção genocida do cartel das empresas farmacêuticas, que recusam tornar acessíveis os medicamentos, ao mesmo tempo que declaram lucros de 517 mil milhões de dólares em 2002”, referiu o Pe. Angelo D’Agostino, fundador de um centro dedicado a crianças infectadas pelo HIV (dois milhões e meio, em todo o mundo) , o “Nyumbani”, no Quénia. Chiara Bannelli, porta-voz da secção italiana dos MSF, considera que a situação actual é, de facto, “um genocídio”. “Nos países ricos – declarou -, a Sida transformou-se numa doença crónica, pois há fármacos eficazes de controle do vírus. Infelizmente, estes fármacos não chegam aos países em vias de desenvolvimento, sobretudo à África, pela firme oposição das empresas farmacêuticas”, constata. Na passada quinta-feira, aquando do lançamento da mensagem do Papa, o presidente do Conselho Pontifício “Cor Unum”, organismo do Vaticano que é o “braço operativo” do Papa para a solidariedade, anunciou a criação de um fundo especial, destinado a ajudar as crianças doentes de Sida. “Estas crianças morrem porque não têm medicamentos, é preciso exercer uma pressão pública que convença as indústrias farmacêuticas a baixar o preço dos medicamentos necessários para tratar as vítimas da Sida”, disse o arcebispo Josef Cordes, presidente do Cor Unum. A responsável dos MSF explica que esta situação deve-se ao facto de as empresas farmacêuticas deterem a patente sobre estes fármacos e não autorizarem a produção de genéricos. “São fármacos novos e ainda estão protegidos pela patente. Portanto, as empresas farmacêuticas multinacionais, que têm sobretudo sua sede nos Estados Unidos e na Europa, podem fixar o preço, são monopolistas. “Este preço é altíssimo, é impossível de ser alcançado por países em vias de desenvolvimento”, denunciou Banelli. As congregações missionárias em África têm chamado a atenção para a problemática dos “direitos de propriedade intelectual”, que se concretiza, sobretudo, no acesso aos medicamentos.
