«Magnifica Humanitas»: Especialista alerta para o perigo da delegação do pensamento na IA

Bernardo Caldas elogia encíclica de Leão XIV, que exige escrutínio para travar dependência tecnológica

Lisboa, 05 set 2026 (Ecclesia) –Bernardo Caldas, especialista em inteligência artificial (IA), elogiou a publicação da encíclica ‘Magnifica Humanitas’, destacando que Leão XIV recusa o catastrofismo e exige o escrutínio dos algoritmos para proteger a humanidade.

“A nossa interação com a inteligência artificial sem nós nos apercebermos pode se tornar numa delegação completa do pensamento e do espírito crítico mesmo quando não queremos”, advertiu o especialista, em entrevista à Agência ECCLESIA.

O especialista assinalou que o pontífice demonstra um profundo conhecimento técnico na sua primeira encíclica, ao reconhecer que a IA é “mais cultivada do que criada”.

Esta característica estrutural das plataformas impede que sejam estritamente “programadas”, justificou, clarificando as dificuldades enfrentadas pelos próprios engenheiros na correção de falhas e na mitigação da desinformação.

Bernardo Caldas rejeitou uma postura reativa perante o progresso, sublinhando que a visão católica encara o labor científico e a técnica como uma forma autêntica de “colaborar” com a criação.

O especialista admite que o desenvolvimento da IA vai criar disrupção nos modelos económicos e desaparecimento de empregos, mas aponta à necessidade de valorizar outras áreas, como a dos cuidadores informais.

“Não vejo nenhum cenário em que não exista abundância desta necessidade para cuidar das pessoas que estão à nossa volta”, perspetivou.

Segundo o entrevistado, o perigo da “simulação de empatia” constitui uma das ameaças mais severas do universo digital, citando estudos onde utilizadores classificaram médicos virtuais como mais atenciosos do que os profissionais humanos.

Bernardo Caldas denunciou o extremar desta ilusão junto das faixas etárias mais novas, lembrando que as máquinas oferecem interações de facilidade absoluta, enquanto “as nossas relações mais fortes passam por períodos de tensão”.

A base de treino destes sistemas esconde uma “ditadura da maioria”, evidenciou o orador ao explicar que as respostas reproduzem visões estatisticamente dominantes ou embutem critérios morais ocultos impostos pelos seus programadores.

A transferência do discernimento íntimo para o ambiente digital atinge inclusivamente a dimensão religiosa, com relatos crescentes de fiéis que substituem o acompanhamento espiritual pelo aconselhamento dos algoritmos.

“Não dá para ser um cristão com os pés assentes na terra, que esteja no mundo mas não seja do mundo, que não compreenda a realidade em que opera”, exortou o convidado, perante a urgência de promover a literacia tecnológica nas paróquias.

A entrevista vai ser emitida este domingo no Programa ECCLESIA, pelas 06h00 na RTP Antena 1, encerrando um ciclo de cinco conversas sobre a primeira encíclica de Leão XIV.

OC

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