“Sou uma multidão, porque carrego comigo muitas pessoas que fazem parte de mim”

Testemunho do comboniano P.e Jeremias dos Santos Martins, missionário em Moçambique.

O P. Jeremias dos Santos Martins vive a sua vocação missionária em Moçambique, num bairro da periferia da cidade da Beira, que dá pelo nome de Chota. É missionário comboniano do Coração de Jesus (mccj), natural da Vila do Soito, no concelho do Sabugal, onde nasceu a 28 de Outubro de 1952. Depois de ter feito a sua formação missionária em Portugal e na Espanha e França, foi ordenado sacerdote a 30 de Julho de 1978 e alternou os períodos de missão em Portugal e Moçambique (1984 a 1998), com um período na África do Sul (2005 a 2015) e outro em Roma (de 2015 a 2022 como membro do Conselho Geral e Vigário-Geral do Instituto Comboniano). Regressou a Moçambique em 2023, onde se encontra.

 

Ele recorda assim, os inícios desta já longa caminhada da sua vida missionária…

“Como missionário comboniano, a missão ad gentes faz parte do meu ser. Desde adolescente, quando fui interpelado sobre se queria ser missionário, senti este desejo de sair e partir ao encontro de outros povos para lhes levar a mensagem de Jesus. O caminho não foi fácil, pois foi preciso dar espaço a um processo de crescimento desse desejo, que se foi consolidando em mim. Através das várias peripécias da vida, permaneceu firme e claro em mim que o Senhor me chamava para a missão. Aos 18 anos, quando entrei no noviciado em Espanha, tomei essa decisão firme de permanecer naquele caminho que com a ajuda da minha família, dos formadores, e tantos amigos se ia tornando mais evidente. O continente africano tinha-se tornado para mim um sonho como o tinha sido para Comboni. Por isso, antes da minha ordenação sacerdotal em julho de 1978, eu tinha formulado o meu desejo de partir para esse continente. Como primeira opção eu pensei no Egipto, a porta da áfrica, e no Congo (RDC) onde em 1964 tinham sido assassinados quatro missionários Combonianos, na revolta dos Simba, na qual foi assassinada também a Beata Anuarite, irmã congolesa, em processo de canonização. Não parti imediatamente para a África. Fiquei seis anos em Portugal, no trabalho de formação e animação missionaria. Só em 1984 se concretizou o sonho, mas não me tocou em sorte nenhum desses países que eu mencionei em cima; fui destinado a Moçambique.”

 

O Moçambique de então não era o de hoje, apesar de haver problemas que permanecem…

“Naquele momento Moçambique estava mergulhado numa guerra civil que durou 16 anos, de 1976 a 1992. Moçambique tornou-se pouco a pouco a minha segunda pátria. Aqui, no meio de uma guerra atroz, que dizimou mais de 1.000.000 de pessoas e entres estes muitos missionários, vivi os momentos mais felizes da minha vida, no meio de muito sofrimento. Pode parecer contraditório, mas é mesmo assim. Nos tempos difíceis da vida de um povo, partilhar a sua sorte, fazer causa comum, rezar juntos e lutar pela paz, alimentando esse sonho, vivi essa alegria de fazer causa comum com o povo moçambicano. Essa missão continua hoje, embora em contextos diferentes.”

 

Como caracterizarias o Moçambique de hoje, o país e as suas gentes?

“Quando regressei, em 2023, o país gozava de paz relativa e com grandes possibilidades de crescimento devido aos vários recursos materiais que foram descobertos nestes últimos anos. Moçambique apresenta-se hoje com imensos recursos naturais, além das potencialidades agrícolas que ocupam 80% da população, e fornece meios de subsistência para a maioria da população. Os recursos são gás, petróleo, carvão, rubis, areias pesadas, madeiras preciosas, além de praias paradisíacas, que atraem os turistas dos países vizinhos. Todavia, apesar de tantos recursos e capacidades deste país, à beira do Índico, e da sua população, existem grandes lacunas na saúde e na educação, nas redes viárias e meios de comunicação. Estes são grandes desafios com os quais se depara a população.

A população também cresceu muito nestes últimos 24 anos, de 18 para 36.5 milhões de habitantes em 2026, com uma idade mediana de 16,6 anos e 42,1% da população vivendo em áreas urbana. A maioria da população é jovem pois mais de 60% da população tem menos de 17 anos de idade. O povo de Moçambique é um povo dócil, acolhedor e aberto ao diferente. É também um povo resiliente, que tem passado através de muito sofrimento, mas sempre com a capacidade de regenerar-se e de celebrar a vida com alegria.

Do ponto de vista religioso, além da Igreja católica, prosperam muitas igrejas independentes, igrejas evangélicas, e o muçulmanismo que subtilmente vai ganhando sempre mais terreno, fenómeno bem visível nas muitas mesquitas na cidade espalhadas pela cidade e nas pessoas que aderem à religião muçulmana. Há também um pequeno grupo hindu. Todas estas diferentes denominações religiosas convivem pacificamente e colaboram para o bem comum do povo moçambicano.”

 

Contextos diferentes…também estiveste noutros países? E o contexto de hoje…

“Mais tarde, trabalhei também na África do Sul por 10 anos e voltei de novo a Moçambique em março de 2023. Agora é aqui, no centro do país, na cidade da Beira, onde me é pedido de exercer o meu serviço missionário; de 1984 a 1999, o meu trabalho realizou-se sobretudo no norte do país, na província de Nampula.

A Beira é considerada, presentemente, a terceira cidade do país em população e encontra-se em franco desenvolvimento, estendendo-se sobretudo para o norte, pois estando situada abaixo do nível do mar, está muito sujeita a ciclones e tempestades que a têm posto de joelhos ao longo dos anos. O último grande ciclone destruiu quase completamente a cidade em 2019, o ciclone IDAI, que arrasou a cidade e seus arredores cujos sinais são ainda hoje evidentes.

Aqui me encontro como pároco de uma paróquia jovem na periferia da cidade, Chota. Partilho esta responsabilidade com um outro missionário comboniano, natural do Quénia. S. Mateus evangelista é o padroeiro desta Paróquia. A maioria dos fiéis desta são jovens e muita gente nova, que vem viver para o local onde a paróquia se encontra, junta-se à comunidade, que continua a crescer em quantidade e em qualidade. Crianças, jovens e adultos que se inspiram no estilo das primeiras comunidades cristãs vivem a sua fé com alegria e entusiasmo, partilham o que têm uns com os outros e estão atentos, de um modo particular, aos mais necessitados (10% do dízimo da paróquia é partilhado todos os meses com os mais pobres da paróquia).”

 

A missão em Moçambique vive um momento particular: que aspecto sublinharias no contexto concreto em que a vives?

“A vida da comunidade paroquial decorre normalmente como a de tantas paróquias do mundo e de África. Todavia, há aspectos que são particulares nesta pequena parcela da Igreja que vive na Chota: há um desejo grande de crescer na fé, de viver em comunhão uns com os outros, desejo de comunicar e de se encontrar para celebrar a fé. Há muitas crianças e jovens na paróquia que frequentam a catequese. Temos mais de 900 pessoas inscritas na catequese, onde 80% são crianças e jovens. Estes também se inserem nos vários grupos existentes na comunidade: os acólitos, a infância missionária, os leitores, os catequistas, a comunicação, o coro paroquial, os vários movimentos laicais, Franciscanos, Sagrado Coração de Jesus, Legião de Maria, Leigos Combonianos. Queremos que todos façam parte de algum destes grupos, que se sintam sujeitos de evangelização, participantes activos no crescimento da comunidade. Através dos diferentes ministérios laicais instituídos na paróquia (misericórdia, esperança, justiça e paz e integridade da criação, administração, …) a comunidade procura estar presente na vida das pessoas em momentos de alegria e de esperança, de tristeza e sofrimento, de modo que estas se sintam apoiadas nestes momentos da sua vida.”

 

Como é que a comunidade responde às necessidades das crianças e dos jovens?

“Tendo em conta o grande número de crianças na zona da paróquia, cristãos e não cristãos, e o baixo nível da educação em Moçambique, a paróquia está a construir um espaço para jardim infantil e escola primária. Aqui as crianças e também os jovens poderão encontrar não só um espaço educativo, mas também um lugar onde poderão estudar nos tempos extraescolares, uma espécie de ATL. Este espaço será também de grande utilidade para a paróquia, para o desenvolvimento das diferentes actividades paroquiais, reuniões, catequese, celebrações várias. A paróquia não tem igreja, mas apenas um salão polivalente que responde às várias necessidades da vida da paróquia.”

 

O que consideras ser a força propulsionadora da missão no contexto em que a vives?

“Um aspecto importante da missão e da vida da comunidade cristã é a liturgia. Todos conhecemos como é vivida a liturgia em África. As celebrações litúrgicas, a Eucaristia ou outras celebrações são vividas com grande participação de todos. Ninguém se sente espectador, mas participante activo, cantando, dançando, tocando vários instrumentos. Desde os mais novos aos mais velhos, todos participam na grande festa da família, sobretudo na eucaristia dominical. A comunidade não se cansa de celebrar, de agradecer e louvar a Deus. Mas em tudo isto também a comunidade deve crescer na fé, no compromisso social, na comunhão, na procura do bem comum, no sentido de pertença. Há sempre espaço para melhorar.

Depois, penso que a missão é levada para a frente com a oração pessoal, no encontro personalizado com Jesus, primeiro missionário do Pai, e também com a oração das pessoas com quem trabalho no dia a dia, e ainda as pessoas que desde a retaguarda acompanham e vivem a missão que nos é confiada. Sinto muito presente a minha família, os amigos e a paróquia que me viu nascer e me enviou em missão. O povo do Soito (Sabugal) minha terra natal e o meu pároco têm cultivado ao longo dos anos um forte sentido de missão. As pessoas da minha paróquia, que me acarinharam ao longo dos anos, manifestam constantemente a sua amizade, solidariedade e caridade missionárias. Elas têm sido para mim e para os outros missionários da minha terra um grande suporte missionário.”

 

Para ti pessoalmente, de onde vem a força para ser missionário no meio das inevitáveis dificuldades?

“Para mim, a razão e o motor de tudo é a missão de Deus, a missio Dei, conforme a entende o Vaticano II: “A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na «missão» do Filho e do Espírito Santo” (AG 2ss).

A missão, enraizada no Coração de Jesus, ao estilo de Comboni, foi sempre o centro da minha vida, o foco principal de tudo o que eu sou e fiz até hoje. A partir do tempo de noviciado até ao dia de hoje, sempre foi claro para mim que Deus me queria missionário. É evidente que não faltaram questionamentos, fracassos e desilusões, medos e infidelidades e também algumas dúvidas minhas e dos que me acompanhavam. Mas havia uma certeza de fundo que não desaparecia. Voltava sempre em mim a Palavra de Deus, “basta-te a minha graça”. Ou ainda a palavra dirigida ao profeta Jeremias: antes que fosses formado no seio de tua mãe, eu te consagrei, para fazer de ti profeta das nações (cf. Jer. 1,5). Na simples recordação da minha ordenação sacerdotal eu coloquei a frase com a qual me identifico como missionário: “o Espírito do Senhor está sobre mim, pois me ungiu para proclamar a boa nova aos pobres” (Luc. 4,18). São as palavras de Isaías que Jesus, em Nazaré, aplica a si próprio: “esta Palavra que acabais de ouvir realiza-se Hoje!”.”

 

Que sentimento prevalece em ti ao olhar para trás, ao fazer memória do caminho andado?

“Prevalece o sentimento de recordar para agradecer! Ao olhar para trás, aos mais de 50 anos de vida consagrada à missão, dou-me conta de como é consolador fazer memória dos anos passados, das pessoas, dos povos que encontrei, dos eventos que marcaram o caminho missionário da minha vida e cresce em mim um sentido profundo de gratidão e o desejo de saborear ainda mais em profundidade a bondade e a misericórdia de Deus. Diria como Mons. Óscar Romero: sou uma multidão, porque carrego comigo muitas pessoas, pelas quais estou grato e que fazem parte de mim.”

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