Ucrânia: Núncio apostólico alerta para aumento das mortes e agradece ao Papa por ser «única voz» da paz

D. Visvaldas Kulbokas fala em cenário de devastação diária

Foto: Lusa/EPA

Kiev, 06 ago 2026 (Ecclesia) – A intensificação dos ataques russos em território ucraniano, num conflito que se arrasta há mais de quatro anos, gerou um cenário de devastação diária que transforma a própria sobrevivência num motivo de celebração, alertou o núncio apostólico em Kiev.

“Na Ucrânia, já há muito tempo, quando nos encontramos com outros embaixadores, sacerdotes ou bispos, a saudação é frequentemente ‘graças a Deus estás vivo’, porque as mortes de civis estão em constante aumento”, partilhou o arcebispo Visvaldas Kulbokas, em entrevista aos meios de comunicação do Vaticano.

O responsável falava depois de as autoridades ucranianas terem confirmado, esta quarta-feira, que pelo menos 15 pessoas morreram e 27 ficaram feridas na sequência de ataques noturnos intensos lançados pela Rússia contra a região de Kiev.

A ofensiva militar de Moscovo registou um recrudescimento significativo nas últimas semanas, com bombardeamentos sucessivos que destroem infraestruturas vitais e obrigam a população a alterar drasticamente as suas rotinas.

“Em Kiev, frequentemente entre 45 e 50 mil pessoas passam a noite nas estações de metro, sem contar com os outros abrigos”, revelou o embaixador da Santa Sé.

O responsável diplomático falou da angústia psicológica e física dos cidadãos, face à ameaça vinda dos céus.

“Quando sinto tantas preocupações com a ecologia, penso que aqui basta abrir a porta de casa: sente-se imediatamente o cheiro do combustível dos mísseis, das explosões e dos edifícios incendiados”, indicou.

Ainda esta quarta-feira, o responsável pela resposta humanitária da ONU na Ucrânia, Mathias Schmale, condenou os ataques russos que tornaram julho no “mês mais mortífero para civis na Ucrânia, desde abril de 2022”, matando pelo menos 377 pessoas.

Neste contexto, D. Visvaldas Kulbokas saudou os apelos de Leão XIV contra o derramamento de sangue, assinalando que estas posições têm eco junto de responsáveis de outras confissões cristãs.

“Eles sublinham com grande sinceridade: ‘temos o Papa Leão que insiste no facto de que nenhuma guerra pode ser justificada’, sendo como que a única voz que se ergue em defesa da paz”, testemunhou o núncio, após um encontro com clérigos ortodoxos.

O responsável diplomático lamentou que alguns líderes religiosos tentem “mistificar, atribuir até um sentido moral à guerra ou inclusive abençoá-la”.

A entrevista abordou ainda a importância das visitas à Ucrânia do cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana, e do arcebispo Paul Richard Gallagher, secretário do Vaticano para as Relações com os Estados.

“Quando um representante ou um enviado especial do Papa vem aqui, o meu coração abre-se, porque vejo fisicamente presente o Papa através do seu enviado”, confidenciou o arcebispo Kulbokas, que permanece na Ucrânia desde o início da invasão em larga escala da Rússia, em fevereiro de 2022.

OC

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