Espanha: Instituições católicas denunciam uso político de migrantes

Cáritas pede respostas humanitárias para a crise em Ceuta

Foto: Lusa/EPA

Madrid, 05 ago 2026 (Ecclesia) – A entrada massiva de cerca de 72 mil migrantes em Ceuta no espaço de 24 horas e a morte de dezenas de pessoas no mar desencadearam críticas e apelos urgentes por parte das instituições católicas espanholas e europeias.

“Passado o choque da chegada massiva de pessoas a Ceuta, continua a ser profundamente preocupante a situação derivada desta tragédia humanitária”, alertou hoje o diretor do Departamento de Migrações da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), Fernando Redondo Pavón.

Os dados oficiais apontam para pelo menos 75 vítimas mortais na tentativa de contornar a fronteira a nado, embora a estrutura episcopal estime que o número real se aproxime das duas centenas de vidas perdidas nas águas do estreito de Gibraltar.

Fernando Redondo Pavón apelou à intervenção “urgente” das autoridades perante a necessidade de acolher e proteger mais de mil menores não acompanhados, bem como centenas de cidadãos subsaarianos elegíveis para asilo internacional.

A Cáritas Espanhola juntou a sua voz aos apelos da CEE para denunciar a instrumentalização das pessoas migrantes como ferramenta ao serviço de interesses políticos ou estratégicos neste enclave do norte de África.

“Nenhum ser humano deve ser utilizado como meio de pressão ou confrontação”, defendeu a organização católica, num comunicado centrado na defesa intransigente da dignidade da pessoa.

A instituição recordou as recentes palavras de Leão XIV em território espanhol, nas quais o Papa avisou que os migrantes “não são números nem dossiês, mas pessoas com uma dignidade que ninguém tem o direito de desprezar”.

A dimensão política do fluxo migratório mereceu também críticas da Cáritas Europa, que lamentou a ausência desta tragédia humana das primeiras páginas dos jornais em detrimento de narrativas focadas no medo de uma invasão.

“A resposta da União Europeia a esta crise diplomática e política desvia ainda mais o debate para uma abordagem cada vez mais restritiva em matéria de migração”, lamentou a instituição.

A organização europeia rejeitou a estratégia comunitária de externalização dos processos de asilo para nações exteriores ao bloco sob o conceito de país terceiro seguro, classificando esta política como uma perigosa ignorância das dinâmicas geopolíticas.

Face a este cenário de pressão extrema, as entidades eclesiásticas reconheceram a extraordinária capacidade de solidariedade demonstrada pelos 80 mil habitantes de Ceuta, que viram a sua vida quotidiana radicalmente alterada pela chegada abrupta de milhares de estrangeiros.

As organizações católicas exigem a criação de vias legais e seguras para a mobilidade humana, contrariando o ciclo de indiferença e sofrimento que marcou a travessia das cerca de 70 mil pessoas que entretanto já regressaram a território marroquino.

OC

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