Canárias: Sobreviventes e socorristas relatam dramas da rota atlântica

Jovem nigeriana partilho relato sobre sequestro às mãos de «máfias»

Foto: Lusa/EPA

Arguineguín, Espanha, 11 jun 2026 (Ecclesia) – Sobreviventes de tráfico humano e equipas de resgate relataram hoje ao Papa Leão XIV os cenários de morte e exploração nas rotas migratórias do Atlântico.

“Durante estes anos, juntamente com a minha equipa, resgatei mais de vinte mil pessoas do mar, um número que dói e que não se esquece”, testemunhou o oficial Tito Villarmea, capitão de uma embarcação de Salvamento Marítimo

O interveniente partilhou a angústia quotidiana das equipas técnicas perante a incerteza e a escuridão absoluta das operações em alto mar, apelando a uma resposta concertada.

“Oxalá nunca mais tivéssemos de resgatar ninguém. Trabalhemos como sociedade para que este drama diminua e para construir um mundo mais justo”, sublinhou Villarmea.

O primeiro encontro do Papa no arquipélago das Canárias incluiu a leitura do testemunho de uma cidadã nigeriana, que não pôde comparecer pessoalmente no recinto portuário por motivos de segurança.

“Não saí do meu país porque quisesse”, garantiu a jovem Blessing.

A cidadã africana assumiu que a fuga representou a única alternativa à fome, tendo enfrentado o risco da travessia marítima após testemunhar a morte de outros deslocados.

“E quando chegou o momento de cruzar o mar, vi como as pessoas que saíram antes de nós nesse mesmo dia morreram afogadas”, denunciou a sobrevivente.

A jovem relatou a violência extrema exercida pelas “máfias” internacionais.

“Ao chegar a Espanha tiraram-me o meu bebé para me obrigarem a prostituir-me”, relatou a vítima.

O resgate policial da rede de exploração sexual permitiu à mulher recuperar a guarda da criança aos 11 meses de idade.

“Desde então, com a ajuda da Igreja através das assistentes sociais, a vida começou a mudar”, descreveu Blessing.

O impacto social do acolhimento inicial foi enquadrado pelas colaboradoras locais das estruturas assistenciais católicas, que atuam na primeira linha do arquipélago.

“Aprendi que cada pessoa que chega não é um problema a resolver, mas uma história a abraçar e acompanhar”, frisou María Reyes Alemán Cruz, voluntária da Cáritas.

Uma empresária de origem latino-americana radicada na ilha testemunhou o seu percurso de integração económica pessoal após ter enfrentado situações de sem-abrigo no passado.

“Também quero dar esperança a quem está a passar por momentos difíceis, especialmente àqueles que tiveram de deixar o seu país e a sua família. É possível seguir em frente com trabalho, respeito e gratidão para com o lugar que nos abre as portas”, defendeu María Fernanda López Meza, desejando que “os trâmites e procedimentos para quem chega sejam cada vez mais humanos e ágeis”.

O acolhimento institucional e a contextualização pastoral do evento couberam ao bispo diocesano.

“Este cais, ao qual muitos chamaram porto da vergonha, tem sido testemunha da chegada de milhares de pessoas que fogem da fome, da guerra e do desespero”, apontou D. José Mazuelos Pérez.

“A indiferença não pode ser a resposta, nunca”, acrescentou.

O responsável católico destacou a perigosidade da “Rota Atlântica”, uma das mais mortíferas do mundo, com travessias que superam os 1600 quilómetros a partir de países como o Senegal, a Mauritânia, a Gâmbia, o Mali e Marrocos.

O evento decorreu no porto de Arguineguín, um ponto geográfico referenciado pela chegada simultânea de cerca de três mil migrantes numa única semana durante a crise pandémica de 2020.

No final, antes de se dirigir à capela para a bênção de uma cruz feita com a madeira de uma embarcação de migrantes, o Papa depositou uma coroa de flores em memória das vítimas das migrações por mar.

Na sexta-feira, Leão XIV encerra a viagem em Tenerife, visitando um centro para migrantes e reunindo-se com organizações que os acolhem, antes de presidir à Missa no porto de Santa Cruz de Tenerife.

A primeira viagem do Papa à Espanha iniciou-se no último sábado, em Madrid, tendo prosseguido em Barcelona.

OC

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