Tony Neves, em Roma

Leão XIV herdou o nome do ‘pai oficial’ da Doutrina Social da Igreja. Por isso, a publicação da sua primeira carta encíclica é uma homenagem agradecida a Leão XIII que, naquele longínquo 1891, analisou o contexto social da Europa e propôs compromissos à luz do Evangelho. ‘Rerum Novarum’ fala da situação dos trabalhadores na sequência da revolução industrial. ‘Magnifica Humanitas’, 135 anos depois, assume-se como um documento social e aborda o delicado e atual tema da ‘proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial’.
Uma primeira leitura deste documento papal mostra que se trata de ‘saber acumulado’ na luta contra o desumano ‘saber acumular’. Foi inspiradora a sessão de apresentação deste documento, aqui em Roma. O Cardeal Parolini, Secretário de Estado do Vaticano, deu o tom, ao dizer que este documento ‘se insere na tradição viva da Doutrina Social da Igreja’, integrando o ‘património sapiencial da Igreja’, apelando à urgência de ‘vigiar as novas formas de desumanização’.
O papa Leão, na sua breve intervenção, deixou algumas interpelações: ‘Em momentos-chave da história, a Igreja é chamada a decifrar as ‘coisas novas’ à luz do Evangelho e da dignidade do ser humano. Há 135 anos, o meu venerável predecessor Leão XIII observou a situação dos operários fabris, das suas famílias desenraizadas e das novas formas de pobreza geradas pela rápida transformação industrial. Compreendeu que a Igreja não podia permanecer distante. Num momento de viragem histórica que ameaçava a dignidade humana, a encíclica ‘Rerum Novarum’ proferiu a sua palavra evangélica e social sobre as «coisas novas» em curso’.
Confessou que ‘’Magnifica Humanitas’ nasceu da escuta, tal como fez Leão XIII’.
Desta escuta ‘amadureceu uma convicção perturbadora expressa em ‘Magnifica Humanitas’: a inteligência artificial precisa de ser desarmada. A palavra é forte, eu sei, mas foi escolhida deliberadamente porque este momento precisa de palavras capazes de atrair a atenção, despertar as consciências e indicar caminhos a seguir para a humanidade’.
Outra ideia forte é esta: ‘o desarmamento nuclear continua a ser um serviço à paz e à dignidade da família humana’. Por isso, ‘a inteligência artificial exige agora ser ‘desarmada’, libertada de lógicas que a transformam num instrumento de dominação, exclusão e morte. Tal como a energia nuclear, deve estar ao serviço de todos e do bem comum (…). A paz, não apenas a ausência de guerra, é a justiça em ação. Mas quando a tecnologia enfraquece o nosso sentido crítico, a própria paz fica em risco’.
Há que ir sempre mais longe e mais fundo: ‘o desarmamento, porém, não basta. Temos de construir’. E reconstruir. No Peru, em tempos críticos, o Papa percebeu que reconstruir ‘significa reparar laços, restaurar a confiança e despertar novamente a esperança no futuro. Além disso, ninguém reconstrói sozinho’.
Há ainda que reconhecer o lado positivo destes novos tempos: ‘não temamos a inteligência artificial, mas mantenhamos constantemente em jogo a questão do humano. Não podemos ser descuidados com os nossos instrumentos técnicos mais poderosos’.
Adiante Leão XIV defende: ‘só com uma visão tão integral é que a inteligência artificial pode ser orientada para o bem comum’. Por isso, parece claro o que o Papa propõe: ‘a Igreja deseja, com humildade e franqueza, participar no diálogo sobre a inteligência artificial. Não possuímos respostas técnicas, nem pretendemos substituir aqueles que têm conhecimentos especializados. Mas trazemos uma sabedoria sobre o ser humano de que o nosso tempo atual necessita desesperadamente: cada pessoa é única e insubstituível, um sujeito livre e inteligente dotado de consciência, capaz de procurar Deus, de servir os outros e de cuidar da nossa casa comum’.
Há objetivos grandes a atingir: ‘aprendamos a ouvir-nos uns aos outros, a enfrentar com coragem os desafios atuais e a cooperar na construção de uma sociedade mais humana e fraterna’.
É urgente e necessário que todos leiam a encíclica e tentem pôr em prática as orientações que ali estão bem gravadas: ‘a partir deste lançamento de ‘Magnifica Humanitas’, levem convosco o compromisso de permanecerem vigilantes e, como ‘artesãos da esperança’, de continuarem a construir o canteiro de obras do nosso tempo. Que o Espírito do Senhor Jesus Ressuscitado sustente o nosso trabalho conjunto’.
Tony Neves, em Roma
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