Itália: Papa condena «alianças criminosas» ligadas a crimes ambientais

Leão XIV encerra visita a Acerra, em região marcada por despejos ilegais e pelos efeitos da poluição

Foto: Vatica Media

Acerra, Itália, 23 mai 2026 (Ecclesia) – O Papa exigiu hoje em Acerra, sul de Itália, o desmantelamento de “alianças criminosas” e a construção de um pacto social capaz de travar a destruição ambiental na região da Campânia.

“Devemos consolidar e expandir o pacto que já dá os primeiros frutos nos planos educativo e social. Não só combaterá e desmantelará alianças criminosas, como também ligará e multiplicará positivamente as melhores forças e grandes ideias já presentes nos corações”, advertiu Leão XIV, na Praça Calipari, perante cerca de 15 mil pessoas, entre as quais os responsáveis autárquicos de um território severamente afetado pelo despejo ilegal de resíduos tóxicos.

O pontífice alertou para “o fatalismo, a queixa e a transferência da culpa para os outros”, considerando que estas atitudes são “terreno fértil para a ilegalidade e o início da desertificação das consciências”.

A intervenção citou Francisco, no 11.º aniversário da encíclica ecologista ‘Laudato Si’, para denunciar o “paradigma tecnocrático” que “a ainda hoje se apresenta como vencedor”.

“Vemos que persiste sempre que aqueles que estão em posições políticas e institucionais se revelam demasiado fracos perante os fortes; encontramos a sua atuação num desenvolvimento tecnológico que visa os lucros vertiginosos de poucos e é cego para as pessoas, o seu trabalho e o seu futuro”, disse o Papa.

Leão XIV recordou que a viagem começou na Catedral de Acerra, onde se encontrou com familiares das vítimas da poluição que, nas últimas décadas, tornaram esta região conhecida como a “Terra dos Fogos”, alertando para a “gravidade da corrupção e da indiferença que permitiram o surgimento de crimes”.

Esta terra pagou um preço elevado, enterrou tantos dos seus filhos, testemunhou o sofrimento de crianças e inocentes. O valor e o peso desta dor exigem que nos esforcemos em conjunto para sermos testemunhas de um novo pacto.”

A intervenção repudiou ainda a estigmatização das populações vulneráveis, evocando o ensinamento de São Francisco de Assis para apelar ao “cuidado do próximo” e à “fraternidade”.

“A marginalização gera sempre insegurança: a luta árdua é combater a marginalização, não os marginalizados; é romper toda a corrente, não apenas atacar o último elo”, explicou o pontífice.

Leão XIV apelou a uma “verdadeira mudança de mentalidade económica, civil e até religiosa”, para transformar a situação na região, rejeitando “as tentações do poder e do enriquecimento ligadas a práticas que poluem a terra, a água, o ar e a convivência”.

“Criaremos, passo a passo, mas rapidamente, uma economia menos individualista, um sistema menos consumista. Quanto desperdício, quanto veneno provém de um modelo de crescimento que nos enfeitiçou, deixando-nos mais doentes e mais pobres”, observou.

O presidente da Câmara Municipal de Acerra, Tito d’Errico, recusou qualquer atitude de resignação perante a crise ecológica.

“Esta é, antes de mais, uma terra de resistência civil, de redenção moral que anseia por mudanças profundas”, assinalou o autarca italiano.

Acerra, situada na ‘Terra dei Fuochi’, uma zona entre Nápoles e Caserta, é conhecida pela eliminação ilegal de resíduos tóxicos e pela queima de plástico e materiais industriais.

O programa oficial termina ao meio-dia local, com o regresso de Leão XIV ao Vaticano de helicóptero.

OC

Itália: Papa denuncia cultura de «arrogância» e criminalidade na crise ambiental

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