Igreja/Abusos: Vítimas exigem fim de cultura de «secretismo», em relatório estratégico

Documento do projeto «Sobre.Viver» sistematiza reflexões, contributos e propostas apresentadas pelas vítimas e sobreviventes ao longo dos últimos oito meses

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Coimbra, 23 mai 2026 (Ecclesia) – O Grupo VITA apresentou hoje, em Coimbra, um “relatório estratégico” elaborado com o contributo de vítimas de violência sexual, exigindo à Igreja Católica o fim de uma cultura de “secretismo” e alterações estruturais na prevenção de abusos.

“A proteção é entendida como o resultado de regras claras, estruturas verificáveis e ambientes que reduzam oportunidades de secretismo, assegurando que a segurança das crianças, jovens e pessoas vulneráveis não depende de fatores informais ou imprevisíveis”, pode ler-se no documento, enviado à Agência ECCLESIA

O relatório para a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP) propõe uma mudança de paradigma nas dinâmicas de poder e a adoção de políticas de transparência em todos os espaços pastorais.

“Em matéria de prevenção, os participantes defendem uma abordagem sistémica, visível e coerente, que ultrapassa a lógica da boa vontade individual”, pode ler-se.

Os participantes defendem a implementação de critérios rigorosos na seleção dos agentes pastorais.

“A proteção de crianças, jovens e adultos vulneráveis exige transparência, coerência, formação rigorosa, supervisão contínua e práticas verificáveis. Exige também que a Igreja reconheça que a confiança só se reconstrói com gestos concretos, decisões consequentes e compromisso visível com a verdade e com a dignidade humana”, indica o documento.

A estrutura hierárquica “vertical” e o “distanciamento” do clero são identificados no documento como fatores organizacionais que inibem as denúncias e intensificam a vulnerabilidade das vítimas perante eventuais agressores.

“O que emerge é um apelo claro a uma Igreja mais responsável, mais escrutinável e mais alinhada com a dignidade humana e a proteção efetiva das pessoas vulneráveis”, assinala o texto.

O trabalho de reflexão desenvolvido ao longo dos últimos oito meses resultou igualmente na criação de diretrizes práticas para a organização de encontros restaurativos com representantes eclesiais.

“Nenhuma reparação verdadeira será possível sem coragem para olhar a realidade de frente”, sublinha o testemunho de uma vítima incluído na publicação, exigindo o reconhecimento claro do dano provocado.

A apresentação decorreu no Pavilhão Centro de Portugal e englobou a inauguração da exposição ‘A Arte de Sobre.VIVER’, composta por obras artísticas da autoria dos próprios sobreviventes.

O Grupo VITA, que acompanha situações de violência sexual de crianças e adultos vulneráveis na Igreja Católica, lançou em 2025 o projeto “Sobre.VIVER”, com o objetivo de “dar voz às vítimas e sobreviventes” de abusos.

Este organismo foi criado a 22 de maio de 2023 pela CEP, com o objetivo de acolher denúncias de abuso, trabalhar na prevenção e acompanhar vítimas e agressores.

As recomendações estratégicas apresentadas hoje no relatório apontam para um “caminho de consolidação qualitativa”, que passa pela “continuidade do Grupo VITA enquanto estrutura independente; estabilização do Projeto Sobre. VIVER como espaço permanente de participação; implementação efetiva das diretrizes produzidas; reforço da formação e supervisão, e garantia de seguimento uniforme e responsável”.

HM/OC

A exposição inaugurada hoje em Coimbra expõe o sofrimento dos sobreviventes de abusos sexuais, que reclamam uma transformação efetiva e célere das instituições católicas.

Uma das vítimas presentes no evento lamentou a inação estrutural, acusando algumas autoridades eclesiásticas de procurarem apenas salvaguardar a “imagem pública” da Igreja e de limitar a auscultação de quem sofreu abusos.

“Começa a mudar, mas está a mudar muito lentamente. Eu estava mesmo com esperança de que isto mudasse mais rapidamente, que houvesse um reconhecimento de que as coisas têm de mudar mesmo”, considerou o entrevistado, criticando a rejeição de pedidos de compensação.

“São situações em que é difícil arranjar provas”, insistiu.

Já a coordenadora do Grupo VITA assinalou a urgência de uma alteração de procedimentos, advertindo que, mais do que palavras, é necessário “um compromisso que se traduza depois em ações”.

“Há ainda muita falta de transparência, muita falta de prestação de contas, muita opacidade na forma como alguns processos são conduzidos e, naturalmente, é preciso abrir, é preciso esta transparência, esta visibilidade, esta verdade, é uma palavra que as vítimas e sobreviventes falam muito, a verdade, a transparência, a genuinidade e a acessibilidade”, exigiu Rute Agulhas.

Quanto ao futuro do organismo, a coordenadora disse aguardar “com serenidade a decisão da Conferência Episcopal Portuguesa e também dos Institutos Religiosos”.

Foto: Agência ECCLESIA/HM

A mostra criativa funciona como um espaço de “justiça restaurativa”, cruzando a escuridão do trauma com os mecanismos de resiliência individual, incluindo uma amostra do projeto francês “Renasissance” (renascimento).

“Acaba por ser aqui uma forma de transformar a arte num algo simbólico, uma forma de reparação inspirada aqui na justiça restaurativa”, precisou a responsável.

O magistrado judicial Paulo Guerra juntou-se à iniciativa para apelar à superação das falhas do passado através de novas lógicas de proteção.

“É a altura de emendar a mão, é a altura de dizer o nosso ADN não é este”, declarou o especialista em direitos da infância.

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