Celebração até ao Pentecostes é marca forte de identidade cultural e religiosa no arquipélago

Lisboa, 17 abr 2026 (Ecclesia) – D. Armado Esteves Domingues afirmou as Festas do Divino Espírito Santo, nos Açores, como uma manifestação “comunitária dos valores da convivência, de criação de laços e identidade”, mesmo entre pessoas não crentes.
“Mesmo quem não é crente, encontra-se nestes ideais que estão por detrás das Festas do Divino Espírito Santo que são expressão de fé mas também expressão comunitária dos valores da convivência e da necessidade de criar laços e identidade”, explica à Agência ECCLESIA o bispo de Angra, sobre as Festas que se estendem até à celebração do Pentecostes, este ano no dia 24 de maio.
Com raízes sociais, desenvolvidas pela rainha Santa Isabel, para responder “aos pobres e aos doentes”, todas as Festas distribuem carne pelos mais pobres.
“Há agricultores que oferecem vacas. Há impérios que têm sete, oito vacas para matar – come-se o que se comer e o resto é distribuído. Tem aqui um duplo sentido que eu acho muito rico uma vez que reconhece que a Providência divina dá tudo. Há quem, quase todos os anos, dê uma vaca, uma vitela, que hoje já é um preço muito significativo. E há agricultores que dizem, ‘quando me vêm pedir uma vaca, é para o Espírito Santo e eu não sou capaz de dizer que não’”, regista.
O bispo de Angra dá conta da forte partilha que ali acontece nos dias das Festas, que no arquipélago têm início na Vigília Pascal: “À meia-noite, já os impérios da Ilha Terceira todos lançavam foguetes, porque começavam as festas do Espírito Santo”.

Tratando-se da “expressão mais marcante da cultura e da religiosidade no arquipélago e que une todas as ilhas”, o povo açoriano envolvido na celebração das Festas, procura fazer uma “radiografia” da sua freguesia e das necessidades que ela apresenta.
“O que sobra é distribuído para as instituições, para os pobres, e quem dera que nós conseguíssemos prolongar esta solidariedade profundamente enraizada, tão cristã, tão bonita, tão bela, ao longo de todos os dias do ano. Há uma leitura social prévia com uma grande preocupação para mostrar que nós somos todos fraternos, todos iguais na mesma fé, que ali não há nas festas o mais rico e o mais pobre, mas os que são mais pobres, os mais idosos, os mais frágeis, têm que ser contemplados com grandes quantidades. Há instituições que enchem as arcas nessa altura e que lhe dá para uns meses”, indica.
O responsável indica que as ilhas do centro, São José, Pico e Faial, “o triângulo”, apresentam uma “forma mais genuína de celebrar as festas do Espírito Santo”, chegando a ilha do Pico a registar “40 irmandades”.
“É uma coisa fantástica, é impressionante. As pessoas vão de uma ilha à outra, do império ao outro. É uma ilha toda, com 40 irmandades, que no espaço de uma semana faz uma festa.
As domingas, que leva, de domingo a domingo, os símbolos da Festa – a Coroa, a bandeira – a cada lugar, em alguns locais “a casas” onde as famílias têm a “obrigação de animar a oração”, havendo sempre convívio no final.
No final, há sempre convívio, há sempre partilha. Em minha casa foi interessantíssimo, foram grupos diferentes todos os dias, com os membros da Irmandade, que acompanhavam a coroa no momento da oração. Depois, as festas estão muito centradas na partilha muito concreta, com o pão, a carne, as sopas do Divino Espírito Santo, distribuídas por toda a população. Eu costumo dizer que o único que se distingue dessas sopas do Espírito Santo é mesmo o Espírito Santo simbolizado na coroa, que está num ‘altarzinho’, num salão, se calhar, onde há mil pessoas, todos a comerem ao mesmo nível”.
Espalhados pelas ilhas, os impérios, que durante o ano guardam os símbolos do Espírito santo, são “quase” pequenas paróquias paralelas: “Há paróquias ou freguesias onde se encontram cinco, seis ou até mais impérios, quase por bairro”.
O bispo de Angra explica ainda que desde cedo as crianças são chamadas a vivenciar as tradições do Divino Espírito Santo e avança ser preocupação da Diocese aprofundar a religiosidade.
O responsável refere-se aos desafios que a sinodalidade oferece ao culto do Espirito santo, dada a centralidade da “escuta do Espírito”.
“Eu posso ter devoções e práticas com o Espírito Santo no centro, mas não aprender a escutá-lo. Em vários lugares de oração, da recitação do terço das domingas, há uma grande devoção – as pessoas rezam, sentam-se. E de facto, o Espírito Santo dá-nos uma chave nos Açores, com muita facilidade para explicarmos o que é esta sinodalidade. É escutar o Espírito Santo. Só que passar da teoria depois já à prática é sempre o desafio da evangelização”, indica.
A conversa com D. Armando Esteves Domingues vai estar no centro do programa ECCLESIA, emitido sábado na Antena 1, pelas 06h00.
HM/LS
