Igreja/Sociedade: «O mundo em que vivemos desafia-nos», afirmou bispo sadino, lamentando as «guerras a destruir vidas»

«Não podemos comungar o Corpo de Cristo e viver na lógica da divisão, da agressividade, da indiferença» – D. Américo Aguiar

Foto: Ricardo Perna/Diocese de Setúbal

Setúbal, 02 abr 2026 (Ecclesia) – O bispo de Setúbal afirmou que não se pode “ignorar que há guerras a destruir vidas, famílias, povos inteiros”, na homilia da Missa do Senhor, e destacou o “gesto absolutamente desconcertante” de Jesus de lavar os pés aos discípulos.

“O mundo em que vivemos desafia-nos. Não podemos ignorar que, nesta mesma hora, há guerras a destruir vidas, famílias, povos inteiros. Em Jerusalém, lugar santo, não é possível viver plenamente estas celebrações em comunidade. A violência continua, a máquina da guerra não pára, e os mais frágeis continuam a sofrer”, disse D. Américo Aguiar, na Sé de Setúbal.

Na homilia da Missa Vespertina da Ceia do Senhor, que assinala o início da celebração do Tríduo Pascal, o bispo de Setúbal salientou que se torna “inevitável” a pergunta como é que olham “para estas guerras”, e quais as guerras que cada um tem dentro de si, que conflitos alimentam “nas relações, nas palavras, nas escolhas”, porque esta Eucaristia chama-os “à coerência”.

“Não podemos comungar o Corpo de Cristo e viver na lógica da divisão, da agressividade, da indiferença. E, por fim, não podemos ignorar a figura de Judas. Também ele estava à mesa. Também ele foi escolhido. Também ele escutou, viu, caminhou com Jesus. E, no entanto, traiu”, desenvolveu.

D. Américo Aguiar realçou que “talvez a pergunta mais exigente” desta noite, que “termina no amor”, seja se “em algum momento da vida” foram também Judas, e traíram “Jesus nas pequenas escolhas, nas omissões, nas incoerências”, e os outros, “ferindo, julgando, afastando, usando a agressividade como linguagem”.

“A Eucaristia não pode deixar-nos indiferentes. Ela coloca-nos perguntas exigentes: Como vivemos cada Eucaristia? Que lugar tem, na nossa vida, o sacramento da Reconciliação? Com que verdade nos aproximamos da comunhão? Sabemos que existem critérios, fundamentos na doutrina da Igreja. Mas, no mais profundo de nós, não corremos o risco de nos colocarmos do lado “certo”, separando o trigo do joio? Somos trigo? Somos joio?…”, desenvolveu.

A Missa da Ceia do Senhor faz memória da instituição da Eucaristia, segundo D. Américo Aguiar, “a Última Ceia terá sido, muito provavelmente, um dos últimos momentos de paz na vida de Jesus e dos seus discípulos”, e a liturgia ajuda-os “a entrar nesse mistério”.

O bispo de Setúbal explicou que a primeira leitura, do Livro do Êxodo, recorda “a Páscoa do povo de Israel”, na segunda leitura, São Paulo, transmite aquilo que também recebeu – “Isto é o meu Corpo… Este cálice é a nova aliança no meu Sangue” -, enquanto o Evangelho de São João leva “ainda mais fundo”, e revela que Jesus mostrou o seu amor “ajoelhando-Se, curvando-Se, lavando os pés aos discípulos”.

“Este gesto, irmãos e irmãs, é absolutamente desconcertante. Repetir os gestos de Jesus tem sido o oxigénio da vida da Igreja; e a graça dos Sacramentos é como o sangue que nos corre nas veias”, assinalou. D. Américo Aguiar, que lavou os pés a escuteiros.

“O lava-pés recorda-nos que não há Eucaristia verdadeira sem serviço concreto. Ajoelhar-se diante do outro, cuidar, servir, tornar-se pequeno para que o outro cresça — esta é a lógica de Deus”, acrescentou o cardeal sadino, explicando que foi uma “humildade que não é humilhação, mas amor em ação”.

CB

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