Semana Santa: Procissões são «sermões silenciosos» e uma «Bíblia sem palavras» – Cónego José Paulo Abreu

Procissão da ‘Entrada Triunfal’ de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos, marca início de  manifestações que recriam relato da Paixão de Jesus

Braga, 27 mar 2026 (Ecclesia) – O cónego José Paulo Abreu disse hoje que a arte apresentada nas procissões realizadas durante a Quaresma e a Semana Santa em Braga, são “sermões silenciosos”.

“São João Damasceno dizia que a arte são sermões silenciosos, são uma Bíblia sem palavras. E há coisas que não precisam de palavras. Está tudo dito na simbólica, na iconografia, nas vestes, no silêncio”, explica o responsável pelo Cabido da Sé de Braga à Agência ECCLESIA.

Professor da Faculdade de Teologia convida a participar nas procissões que enchem as ruas da cidade de Braga, em especial durante a Semana Santa que tem início na segunda-feira, dia 30, e a descobrir “o ambiente contagioso que ali se vive”.

“É necessário vivê-las para se perceber que não é normal haver-se tanto milhares de pessoas sem abrir a boca, num ambiente contagioso e que se vai criando”, relata.

Desde a procissão que recorda a ‘entrada triunfal’ de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos, a procissão da Burrinha na quarta-feira, dia 1, a procissão Ecce Homo na Quinta-feira santa, a procissão do enterro na Sexta-feira santa, que recriam todo o relato da Paixão de Jesus, “recriam o caminho feito por Jesus”.

“A procissão do enterro, organizada pelo Cabido da Sé, acontece num silêncio absoluto entre milhares de pessoas. É espantoso. O silêncio, a luz contida, a concentração e o ar pungido das pessoas, é algo chocante”, recorda.

O programa ECCLESIA, com emissão ao sábado na Antena 1, está, ao longo da Quaresma, a conhecer as tradições que a Arquidiocese de Braga organiza, num caminho feito com o cónego José Paulo Abreu.

O responsável dá conta que o Rito Bracarense marca algumas celebrações neste tempo – por exemplo na procissão da ‘Entrada triunfal’ em Jerusalém, no Domingo de Ramos:

“Na chegada à Catedral, o arcebispo bate com o bastão três vezes na porta, e ouve-se: ‘Quem é que está aí a bater à porta?’, ‘É o Rei da Glória?, ‘Mas quem é esse Rei da Glória?’, e repete-se essa coreografia, enquanto se atiram folhas dos ramos de oliveira, e há toda uma coreografia das crianças”, indica.

Também a cerimónia do Lava-pés, na Quinta-feira santa, convida “pessoas de instituições” locais, tornando o ato “muito simbólico”, e o rito Bracarense manifesta-se ainda na Sexta-feira Santa com a Adoração da Cruz.

“Nesta cerimónia, depois da Adoração da Cruz, temos a uma chamada Procissão Teofórica: dentro de uma urna são metidas a Eucaristia e uma Bíblia, e a urna é levada, desde o altar principal, para uma capela ao lateral, que é a capela da Senhora do Sameiro, indicando que Eucaristia está lá, a Bíblia está lá, mas há como que algum encobrimento, para despontar radioso, no Domingo de Páscoa”, conta.

O cónego José Paulo Abreu regista outro momento, usual na tradição em Braga, de se visitarem “sete igrejas” após a celebração do Lava-pés e da Missa da Ceia do Senhor.

“Tem uma raiz histórica no que se fazia nas igrejas de Roma, quando as pessoas eram convidadas a frequentar sete igrejas para passarem pelas Portas Santas. Isto traduziu-se na visita às igrejas, que se faz em Braga. Tem início na Sé e passa pela igreja da Misericórdia, depois Santa Cruz, a igreja dos Terceiros – uma igreja franciscana que fica aqui ao pé da Arcada – depois a igreja do Salvador, a igreja do Pópulo e a igreja da Conceição”, apresenta.

O responsável destaca ainda a procissão da Burrinha, que acontece na quarta-feira Santa, que ajuda de forma “catequética” a traduzir o Antigo Testamento.

“É uma forma inteligente de repropor de forma muito interessante e pedagógica o Antigo Testamento, e entendermos toda a história do povo de Israel, a aliança entre Deus e o seu povo, como é que Deus foi conduzindo o seu povo, quem é que foi enviando. A burrinha é a que Nossa Senhora montou antes de nascer Jesus, e trata-se de um momento catequético muito interessante”, indica.

A conversa com o cónego José Paulo Abreu vai ser emitida no programa ECCLESIA, na Antena 1, no sábado, às 06h00.

LS

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