Sínodo: Episcopado africano exclui qualquer forma de reconhecimento da poligamia na Igreja

Relatório de comissão especial defende pastoral de proximidade, focada na dignidade da mulher

Foto: Agência ECCLESIA/OC

Cidade do Vaticano, 24 mar 2026 (Ecclesia) – O relatório da comissão do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SCEAM) sobre a poligamia rejeitou a administração do Batismo a pessoas nesta situação.

“Recomenda-se que os polígamos que desejam identificar-se com Cristo através da graça batismal estejam cuidadosamente preparados, se libertem de certas restrições culturais, aceitem a mensagem do Evangelho, adiram ao ideal cristão e se comprometam com o casamento monogâmico antes de receberem o batismo. Portanto, a Igreja não batizará um polígamo com base numa promessa”, refere o documento do grupo de trabalho, criado no contexto da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos (2023-2024).

No plano pastoral, o SCEAM exclui qualquer forma de reconhecimento da poligamia, propondo uma “pastoral de proximidade, escuta e acompanhamento” das pessoas.

Será fácil compreender que alguns membros da família reúnem as condições para a plena integração na comunidade cristã através da receção dos sacramentos (a primeira esposa e os filhos que são membros dessa família), enquanto o homem polígamo e as restantes mulheres serão convidados a viver a sua fé de forma penitente e na esperança de uma plena integração na comunidade dos discípulos de Jesus.”

O documento do episcopado africano faz uma radiografia antropológica e teológica a um regime conjugal que ainda é legalmente permitido em cerca de 30 Estados do continente.

“Batizar um polígamo que continuará a permanecer assim daria toda a aparência de legitimar esta irregularidade e poderia distorcer ou mesmo desvalorizar o batismo na sua substância como primeiro sacramento da iniciação cristã”, adverte o relatório, divulgado em português.

Os bispos reconhecem o peso da tradição, mas recordam que “na família cristã não há lugar para a poligamia, que é incompatível com a unidade do matrimónio”.

O documento evoca práticas pastorais, como a que propõe conferir o estatuto de “catecúmeno permanente”, sem acesso aos sacramentos.

“Neste sentido, é aceite na comunidade e mantém-se catecúmeno, dada a impossibilidade de romper os laços conjugais da poligamia e as obrigações para com os filhos e as esposas que esses laços implicam”, precisa a comissão do SCEAM.

A atenção dos responsáveis católicos centra-se, de forma particular, nas mulheres que se encontram nestas relações, frequentemente sujeitas a uma “espécie de infantilização” ou reificação ditada por pressões socioeconómicas e tradições como a do levirato (herdar a viúva do irmão).

“A poligamia opõe-se radicalmente a esta comunhão: nega diretamente o desígnio de Deus, tal como nos foi revelado no princípio, é contrária à igual dignidade pessoal da mulher e do homem”, sustentam.

O texto encoraja as viúvas e mulheres em situação vulnerável a envolverem-se na vida da Igreja, libertando-se das exigências culturais discriminatórias.

Os grupos de estudo foram instituídos por mandato do Papa Francisco, no início de 2024, no período que mediou as duas sessões da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema da sinodalidade.

A decisão confiou a peritos de todos os continentes uma série de questões com implicações teológicas, pastorais e jurídicas complexas, para um maior aprofundamento.

Leão XIV determinou que estes relatórios finais sejam tornados públicos de forma progressiva, numa iniciativa que se iniciou a 3 de março.

OC

 

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