Igreja: Padre Amaro Gonçalo alerta para «vícios de ruído» que travam escuta de Deus e do outro

Segunda conversa sobre «Quaresma com sentido(s)» aborda desafios colocados ao ouvido na sociedade contemporânea

Porto, 28 fev fev 2026 (Ecclesia) – O padre Amaro Gonçalo recomendou um “jejum de ruído”, ao longo desta Quaresma, sublinhando que a capacidade de escutar o silêncio é fundamental para acolher o outro e escutar a voz de Deus.

“Hoje há muitos vícios de ruído que estão à nossa volta e que são nossos inimigos para a concentração. Parece que se estivermos offline é como se tivéssemos desligado a nossa máquina da ficha”, referiu à Agência ECCLESIA o secretário para a Coordenação Pastoral da Diocese do Porto, confessando que a exigência deste jejum tecnológico e sonoro é muitas vezes “violenta” para as próprias pessoas.

Na segunda conversa sobre a proposta “Quaresma com Sentido(s)”, o sacerdote alerta para as consequências do “ruído constante” na vida familiar e espiritual, propondo que se desliguem televisões e telemóveis durante as refeições e momentos de recolhimento.

O padre Amaro Gonçalo estabeleceu uma distinção clara entre “ouvir” – o processo fisiológico e mecânico de captação de som – e “escutar”, que implica uma predisposição interior para acolher a novidade que o outro traz.

“Não ouvir é excluir, e por isso as pessoas quando se queixam dos poderes políticos, da Igreja, não somos ouvidos, ninguém nos ouviu. O ouvido é a abertura. Escutar a pessoa é de facto acolher a pessoa e a pessoa sentir que tem lugar em nós, que alguém lhe concedeu um espaço, um tempo, uma atenção”, sustentou.

Na vida conjugal e familiar, a falta desta escuta profunda gera distanciamento.

O pároco na Diocese do Porto ilustrou esta realidade com a queixa frequente entre os casais – “tu não me ouves” – explicando que, muitas vezes, nos debates e conversas do dia-a-dia, as pessoas não escutam genuinamente, porque estão apenas a “preparar a resposta”.

A reflexão abordou também a dimensão eclesial da escuta, recordando as palavras do Papa Francisco sobre a necessidade de silêncio nas Assembleias Sinodais para assimilar o que foi partilhado.

O padre Amaro Gonçalo defendeu que a sinodalidade nas paróquias exige que os Conselhos Pastorais funcionem como verdadeiros “espaços de escuta e de diálogo” e não como “grupos de pressão”.

“Cada um vai pedir ao Senhor, até, a graça de que a sua vontade não impere. Vamos ouvir-nos para ver o que realmente seja melhor”, apelou, sublinhando que a Igreja precisa de “ouvir as pessoas de fora”, incluindo os “não praticantes, do mundo da cultura”, para não cair num “círculo autorreferencial”.

O sacerdote lembrou ainda que a atual crise climática, visível no “efeito das tempestades” que fustigaram recentemente Portugal, deve ser um motivo para “ouvir a natureza”, que está “cheia de palavras de amor” que muitas vezes se perdem na “distração ansiosa” do ser humano.

“Precisamos de educar um bocadinho também para esta escuta. Escutar as pessoas, escutá-las até ao fim, escutá-las sem interromper”, concluiu o entrevistado, sublinhando que este é o esforço essencial para que a comunicação, na família e na Igreja, “não seja um duelo”, mas um autêntico “voltar-se para o outro”.

A caminhada ‘Quaresma com Sentido(s)’, proposta pela Diocese do Porto, está em destaque nas emissões dominicais do Programa ECCLESIA, na Antena 1 da rádio pública (06h00).

OC

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