Padre Custódio Langane defende que «o acompanhamento espiritual é tão importante a nível da cura como os cuidados médicos»

Lisboa, 11 fev 2026 (Ecclesia) – O padre Custódio Langane, capelão do Instituto Português de Oncologia (IPO), em Lisboa, salientou hoje a importância da presença e de oferecer tempo aos doentes em situação de fragilidade.
“O tempo é sagrado no IPO. Eu aprendi de uma maneira muito profunda, foi com um adolescente que tem 17 anos, que tinha 17 anos nessa altura”, começa por dizer o sacerdote, em entrevista ao Programa ECCLESIA, transmitido hoje na RTP2, no âmbito do Dia Mundial do Doente.
O sacerdote relata o episódio que aconteceu há dois anos, quando se encontrava a estudar e entrou no quarto de um jovem, conversou com ele, dizendo depois disse que precisava de ir embora.
“Ele disse: ‘O padre Custódio já não é o mesmo, já não tem tempo para nós’. E percebi que estava a perder aquilo que é essencial, por ter-me envolvido muito nos estudos estava a perder o tecer tempo para os doentes. E a partir daquele momento voltei para trás e hoje para mim o tempo é sagrado”, sublinhou.
O momento ensinou o capelão do IPO em Lisboa que o mais importante é estar presente, “mesmo sem dizer nada”, só “com um silêncio”.
A minha presença perante o doente é uma presença que diz que pode não ser possível curar, mas é possível cuidar e o acompanhamento espiritual é tão importante a nível da cura como os cuidados médicos, os medicamentos, o estar, o ouvir, entender a dor do outro, tocar a dor do outro”, destacou.
Fruto da experiência em ambiente hospitalar, o padre Custódio Langane dá conta que os próprios doentes chegam a dizer que estão curados, apesar de não fisicamente, e partem “em paz”, porque foram acompanhados.
“Tiveram alguém que foi Jesus, foi uma presença de Deus […], mesmo para aqueles que não são crentes, uma presença amorosa, uma presença que toca, que ouve, que escuta, que entende, que compreende, que dá a mão e que diz estou aqui”, realça.
O padre Custódio Langane enfatiza que “é impossível ser alheio ao sofrimento do outro” e que tal o “ajuda a ser humano”.
“Humaniza-me, ajuda-me a entender e compreender que na vida todos nós, em algum momento, vamos experimentar a fragilidade, a doença vai bater à porta de cada um de nós e a mim me faz tornar-me uma pessoa real”, assinalou.
O sacerdote assume que a sua passagem pelo IPO não é em vão e “deixa marcas”.
“80% dos doentes que entram procuram-me, porque ouviram de quem já saiu de lá: ‘Vai ter com o padre Custódio, que tem uma palavra de Deus, que sempre tem uma palavra amigável, sempre tem uma palavra de esperança’”, relata.
O capelão do IPO em Lisboa descreve que o seu dia a dia nesta unidade hospitalar passa por acompanhar os doentes, familiares, profissionais de saúde e voluntários, fazendo-se presente, escutando e ficando em silêncio.
“Quantas vezes também não puxo a cadeira e sento-me ao pé de uma mãe que tem medo do futuro, tem medo do amanhã, e quantas vezes também não puxo a cadeira e sento-me ao pé de um pai que está com, está sem chão. E muitas das vezes é o ouvir, ouvir os seus medos, a sua dor, o seu sofrimento, a angústia que trazem”, testemunha.
Num tempo em que a saúde enfrenta uma crise, o sacerdote defende que o papel do capelão “é tranquilizar”, “ser esperança”, “iluminar tanto os doentes” como “os profissionais de saúde que muitas vezes estão desgastados porque são tão poucos”.
“A minha missão ali é estar, é ser uma ponte, ajudá-los a não desanimar, a não ficarem desmotivados, os profissionais e aos doentes, é dar-lhes esperança de que os poucos que temos são de boa qualidade e têm muita boa qualidade”, evidencia.
O padre Custódio Langane elogia o serviço no IPO em Lisboa, que se destaca pelo cuidado prestado pelos enfermeiros, médicos e auxiliares.
“Um doente chegou a dizer-me isto: ‘nós aqui podemos ter falta de tudo, ficarmos durante muito tempo à espera de uma consulta, mas são muito humanos. A humanização, a humanidade nunca nos falhou’. É importante ouvir isto”, referiu.
O sacerdote adianta que faz questão de, todas as quartas-feiras de cada mês, na habitual eucaristia com os profissionais de saúde, de lhes dizer as mensagens que recebe dos doentes.
“É importante também dar esta palavra a quem cuida, porque eles cuidam, e cuidam com coração, e cuidam com alma, cuidam como se estivessem a cuidar do próprio familiar”, frisou.
O Dia Mundial do Doente tem este ano o tema “A compaixão do samaritano: amar carregando a dor do outro’”.
Na mensagem divulgada para esta data, o Papa convidou a gestos de “proximidade e presença”, não como “meros gestos de filantropia” mas como “sinais de participação pessoal nos sofrimentos do outro”.
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Morte: «Se amamos até ao fim, a nossa vida tem sentido» – Padre Custódio Langane
