Um outro olhar

António Salvado Morgado, Diocese da Guarda

Pretende ser mesmo um outro olhar. Simples olhar e simples texto, embora. Um outro entre muitos outros para além do olhar mais comum ou mesmo do mais vulgar. Aquele que os média nos vão trazendo com imagens ou sem elas, com os textos noticiosos ou de opinião e comentadores de serviço ou de ocasião. É o olhar dos dramas de muitos e das insuficiências e deficiências dos governantes. É o olhar para os males de um povo como se tratasse de qualquer maleita que acompanha muitas fases da sua história e que explode com feridas visíveis em momentos de maior corte com a tranquilidade da paz social. E até se vão buscar dizeres de antigos mestres da nossa literatura para se confirmarem as maleitas da «arte de ser português».

Muitas vezes olhamos e não vemos. Noutras não olhamos para não vermos. Ainda noutras não olhamos nem vemos. Andamos distraídos e deixamo-nos cegar por uma normalidade de que nem sempre temos consciência. Vivemos nela e dela, dessa normalidade construída, e quando ela parece tremer, acordamos, em sobressalto, do sono tranquilo para a realidade da nossa contingência.

É verdade: para além de mortes e destruições que muito se lamentam e que importa superar com urgência e dignidade, as catástrofes revelam muito do que somos, nós humanos, sozinhos ou acompanhados neste universo astral em que nos encontramos.

Ainda respiramos o ar das depressões quando as águas vão abrandando nas margens e leitos dos rios, das ribeiras e dos riachos. O olhar para as lacunas infra-estruturais, deficiências administrativas e legais continua na ordem do dia. E faz-se história olhando para a história. De outras catástrofes do nosso viver. Recentes ou antigas. Um olhar de pobres. Pobres e pouco agradecidos.

Sugiro outro olhar. Um olhar de optimismo, que, mesmo assim, não deixará de ser realista. Um olhar de regozijo e de agradecimento. De regozijo por vivermos numa comunidade estruturada. De agradecimento porque esta organização social que se estrutura em múltiplas instituições, públicas ou privadas, nos são diariamente oferecidas com os seus serviços. Não fomos nós que as inventámos nem fomos nós que imaginámos os sistemas que lhes dão vida: o sistema político, o sistema de saúde, o sistema educativo, o sistema jurídico, o sistema de segurança e defesa, e outros sistemas, simples ou mais complexos, de que vivemos confortavelmente. Ocasionalmente poderá ter havido algum pequeno contributo da parte de cada um, mas a grande verdade é que tudo nos foi oferecido. Muito temos que agradecer.

Vivemos a usufruir dos bens que estes sistemas nos oferecem. É a normalidade. A nossa, que não era a de quantos nos antecederam há duzentos e muitos mais anos. Mas muito devemos aos nossos antepassados que, pouco a pouco, foram engendrando recursos de vida que, sistematicamente melhorados, constituem a normalidade dos nossos dias. Normalidade que respiramos como se fosse o ar de uma natureza dada. Só quando uma catástrofe inesperada nos vem atormentar é que sentimos a falta dos muitos benefícios de que vamos usufruindo. Sentimos, então, o que nos falta. E mais: sentimos profundamente a nossa fragilidade.

Tudo nos foi dado. Os bens da criação e os bens da sua transformação.

Não foi cada um de nós que inventou ou construiu a engrenagem dos reservatórios e condutas de água de que diariamente nos servimos esquecendo os quantos, por esse mundo fora, não possuem esses benefícios. Não agradecemos esses serviços, mas sabemos protestar à menor falha no abastecimento.

Não foi cada um de nós que descobriu a corrente de electricidade nem que inventou o sistema eléctrico que fornece energia a nossas casas propiciando uma infinidade de funcionalidades domésticas. Não agradecemos os seus benefícios, mas ficamos perdidos quando uma falha aparece sem aviso a perturbar o nosso viver.

Não foi cada um de nós que construiu o sistema de comunicação que nos permite a mobilidade e a informação. Não agradecemos o bem que tal sistema nos proporciona, mas ficamos ansiosos quando somos impedidos de estabelecer os contactos habituais e nos sentimos isolados do mundo, mesmo do mundo virtual.

Não foi cada um de nós que criou o mundo das ciências materializadas na complexa tecnologia sem a qual não sabemos viver. Mas não nos lembramos de agradecer a quantos, tantos desde o início dos tempos, dedicaram a vida a desvendar os mistérios e encantos da natureza.

Muito temos que agradecer quando, perante catástrofes, os vários sistemas de vida colectiva – e são tantos – se harmonizam para responderem às necessidades emergentes. Somos humanos de muita sorte nos tempos em que vivemos em que a comunidade humana se encontra de tal modo organizada que a solidariedade não é uma palavra vã. Solidariedade institucional e solidariedade espontânea e pessoal. Solidariedade nacional e solidariedade internacional.

Muito temos de agradecer. Ao presente e ao passado.

As calamidades têm também a virtualidade de convocar consciências, de mobilizar altruísmos e solidificar a solidariedade e dar visibilidade ao voluntariado altruísta, escondido nas sombras da indiferença mediática. Também por tal importa agradecer.

Já se tem dito que a solidariedade ocasional emergente nas catástrofes contrasta com a indiferença quotidiana dos cidadãos. Contraste será. Mas não sei se será assim tão grande como é vulgar julgar-se. Um sem número de instituições vivem com a alma de muitos voluntários que ali dão muito do seu tempo com humildade e silêncio. O bem não tem história, mas é ele que supera as tragédias da história humana. Muito há para agradecer.

Cresci a aprender a agradecer. Cresci a agradecer. Cresci a ouvir falar das várias formas de oração. Lá estava a forma de agradecimento. Era a oração de Acção de Graças. Não sei se tenho andado distraído, mas a expressão «Acção de Graças» não é muito de uso corrente.

Perante a catástrofe que se abateu sobre Portugal, seja a oração de petição para que os males sejam superados conjugada com a oração de Acção de Graças dos bens recebidos.

 (Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

Partilhar:
Scroll to Top