D. Andrés Carrascosa Coso apresenta esta segunda-feira, dia 9 de fevereiro, as Cartas Credenciais ao presidente da República como embaixador da Santa Sé, em Lisboa, e quer visitar o país, a começar pelos locais mais atingidos pelas tempestades
Entrevista conduzida por Paulo Rocha
Iniciou o seu trabalho como núncio apostólico em Portugal na última semana, num percurso diplomático que o levou aos vários continentes. Quais as primeiras impressões para esta missão diplomática?
Eu não posso dizer que conheço Portugal. Estive aqui somente três vezes, alguns dias. Porém, posso dizer que tenho um grandíssimo respeito e uma grande admiração pelo país. Fiquei muito feliz quando o Papa me pediu para o representar em Portugal.
A primeira impressão é que fui acolhido de uma maneira incrível, com muito calor humano, como é característica dos portugueses. Tive a oportunidade de ser recebido no aeroporto pelo protocolo de Estado, como embaixador, e depois na Nunciatura, com representantes de todas as vocações, bispos, padres, religiosos, religiosas, leigos, leigas. Estou a começar um caminho de conhecer o país.
E gravamos esta entrevista na Nunciatura apostólica. Perguntava-lhe quando é que terá o prazer de receber aqui o Papa em Leão XIV?
Isso não sei, porque as viagens do Papa respondem a tantas coisas… Ele falou-me, há duas semanas, que vai vir, vai vir. Quando, não sei. Vai depender de tantas outras coisas.
Os 110 anos das Aparições de Fátima poderiam ser uma ocasião?
Poderia ser… Ótima, sim.

A canonização da irmã Lúcia também?
Mas isso já vai além das minhas possibilidades. E vai depender de tantas coisas da agenda papal, que não é fácil.
Mas o Papa em Leão XIV tem Portugal entre os seus destinos?
Óbvio, sim! Ele já pronunciou a palavra Fátima. Depois, ele mesmo falou ‘não sei quando vamos poder fazer’. Mas que está interessado em visitar Fátima, é óbvio.
Há não muitos dias também Marcelo Rebelo de Sousa esteve com o Papa e reafirmou essa vontade de o receber, já não como Presidente da República, mas a falar em nome de tantos portugueses…
Segunda-feira, vou apresentar as Cartas Credenciais ao Senhor Presidente da República. Vamos ter ocasião de conversar sobre tudo isso. A minha conversa com o Papa é a conversa dele.
Eleições presidenciais
Mesmo estando a iniciar a sua presença em Portugal, perguntava-lhe: que apelo interessa fazer para as eleições presidenciais deste domingo?
Eu quis chegar antes das eleições, ao menos desta segunda volta.. Sempre é bom presenciar um processo de eleições. Porque é uma festa democrática. Perceber isso, tocar com a mão, acho importante. Foi a experiência em tantos outros países, nestes 40 anos de dar voltas pelo mundo.
Quis chegar antes do dia 8, mesmo ainda sem conhecer tantas realidades. Porém, tenho a intenção de me aproximar de tantos setores, também dos media nacionais. Para quê? Para lhes pedir que me ajudem a conhecer e a compreender o seu país.
É a segunda volta, com a abstenção a aumentar, com o mau tempo, infelizmente, a provocar vítimas. A abstenção crescente pode ser uma fragilidade da democracia?
Sim. Neste mundo sempre mais polarizado, o risco é grande. Porém, acho que é um momento de responsabilidade do povo.
Infelizmente, acontece todo este problema de ventos, de chuvas… Chegando pelo avião via tanta superfície sob água.
Já falei com o bispo de Leiria-Fátima e, no dia seguinte à apresentação das Cartas Credenciais, quero chegar lá, aos lugares mais atingidos por esta situação, para tornar presente o carinho e a oração do Papa.
Já expressou essa proximidade…
Mas eu não posso fazer antes de apresentar as Cartas Credenciais. Então, segunda-feira vou apresentar, terça-feira eu conto estar em Leiria. Após a visitar Leiria, ir a Fátima para rezar missa.
Para expressar também essa proximidade e solidariedade a quem sofreu por causa da tempestade.
O Papa já enviou uma mensagem e depois voltou a falar no ângelus, no domingo. Isto está no coração dele.

Conhecer Portugal
D. Andrés Carracosa, que a radiografia faz da Igreja Católica em Portugal?
Não me podem pedir isso, porque ainda não conheço suficientemente.
Conhecer um país, conhecer uma Igreja, não é fácil. Seria irresponsável, pela minha parte. Conheço alguns bispos, outros não conheço. Ontem conheci pessoalmente vários deles.
Na sessão de boas-vindas?
Na sessão de boas-vindas, alguns no aeroporto e depois aqui na Nunciatura. Preciso ter um tempo para entrar mais a fundo, para poder conversar, para poder conhecer, para poder visitar. Eu não quero impor a minha presença para nada. Mas, se um bispo pede para visitar a Diocese, eu nunca vou dizer não.
Redes sociais
Acompanhando a sua presença nas redes sociais, percebe-se essa proximidade grande com todas as pessoas…
Isso é um tema que me faz rir…
Eu era o núncio no Panamá, em 2009, 2010, não me lembro, e a mensagem para o Dia das Comunicações Sociais, do Papa Bento, foi “As redes sociais, nova fronteira da evangelização”.
Eu não acreditava muito… Mas um grupo de padres, novinhos, e alguns jovens pediram-me para rezar uma missa com eles, e pediram-me para, na homilia, apresentar o conteúdo da mensagem, o que eu fiz, tentando ser muito fiel àquilo que o Papa falava. Mas eu não estava muito convencido. No final falei aos padres: se perderem menos tempo nestas coisas meio “estúpidas”, se dedicarem mais tempo à proximidade, à atenção das pessoas, vamos chegar mais longe.
Depois, tive como que um escrúpulo, voltando a casa, dizendo: mas porquê você vai fazer uma coisa diferente daquilo que o Papa está a pedir? Então entrei, twitter.com fiz uma conta, Facebook fiz uma conta, Instagram fiz uma conta. Mas não toquei… Passaram três meses, por aí… E eu fiz uma conta! Vou ver se me lembro ainda da senha. Entro em Twitter: mensagens, zero; seguindo, zero; seguidores, 300. Falei ao meu secretário: o que é que é isso? Se o senhor escrever alguma coisa, 300 pessoas vão ver. Vão ver? Estou fazendo a pregação numa missa quotidiana para 4 ou 5 pessoas, então vou colocar. Comecei a colocar coisas, as pessoas começaram a responder: aquilo que o senhor escreveu era para mim… Vou partilhando coisas da minha vida, das minhas reflexões, da minha oração… E tento fazer não apenas frases para pessoas que têm experiência de fé, mas também frases que têm um humanismo profundo. Até a pessoa que não tem experiência de fé pode sentir que isso ajuda.
Uma forma de criar proximidade?
Claro, obviamente.
Com pessoas conhecidas e desconhecidas…
No fundo, a evangelização começa por uma proximidade…
E o perigo das notícias falsas, das fake news?
Eu já sofri isso também.! Uma vez, fui enganado… Agora sou muito mais cauto. Aprendi!
Acreditou à primeira, sem verificar…
Certo! Estava no Panamá. Alguém escreveu como se fosse o cardeal secretário de Estado que o Papa Bento faleceu. Então, eu “retuitei” e depois não era verdade. Uma experiência dura.

O Papa Leão XIV, num encontro com os colaboradores diplomáticos nas Nunciaturas, apelou precisamente a essa proximidade à inculturação. De que forma pensa levar por diante este desafio do conhecimento, de criar proximidade com a cultura portuguesa?
Acho que é preciso entrar com uma atitude de humildade. Não pode chegar a um país e pretender que já pode conhecer e falar.
Proximidade significa essa humildade de se colocar à escutar das pessoas, das situações, das culturas. Porque as culturas são tão diferentes: eu morei em tantos continentes, em tantos países, e compreende-se que este é um tema muito sério e que precisa levar a sério.
A minha atitude é aquela de escutar, de tentar compreender, conhecer, para depois poder interagir, caminhar junto com esta Igreja, com este país.
Consulta alargada para novos bispos
A nomeação de bispos é um dos trabalhos do núncio e o processo sinodal apelou a maior participação, a maior escuta, envolvendo mais pessoas. É possível, no atual quadro em que se desenvolve esse processo de nomeações episcopais, alargar essa consulta, é possível envolver mais pessoas?
Com certeza!
Uma vez falei ao Papa Francisco: Padre Santo, entre os meus muitos defeitos está também aquele de ser um núncio que consulta mais do dobro do núncio que mais consulta. Levo nas minhas costas mais trabalho.
Membros do clero ou também leigos?
Não, não, não… Alguns bispos, alguns padres, alguns religiosos, algumas religiosas, alguns leigos, algumas leigas. Obviamente! Povo de Deus são todos. Obviamente que não se pode consultar toda a diocese, mas um bom número sim. E, além disso, sempre vou visitar a diocese, vou ter um encontro com os padres, vou ter um encontro com a Vida Consagrada, vou ter um encontro com os leigos, vou explicar como acontece o processo, porque se não explicamos como acontece o processo, cada um imagina que estou como a política: vou-me aproximar de um deputado para ver se ele vai me propor para ser presidente da autarquia.
Então, nesse aspeto, eu acho que, para mim, não é uma coisa nova. Para mim, são 22 anos a fazer assim.
Processo sinodal, tudo bem! Para mim foi reafirmar uma coisa que já estava sendo feita. Cada um tem o seu estilo, cada um tem o seu carácter. Para mim é essa abertura de consultar muitas pessoas. E também pessoas que pensam diferente umas das outras. Porque é inútil somente consultar pessoas que pensam de um jeito, porque você não chega a conhecer a realidade. Por isso, quando a consulta é ampla, as nomeações são muito mais… você percebe que “caem” como devem ser.

E faz com que a escolha de determinado bispo para uma diocese seja fruto também das opiniões dessa própria diocese?
Claro. Dessa diocese, mas também… Por exemplo: há pessoas que conhecem todo o país, a nível da igreja, algum trabalho que fazem, etc. Então são pontos de vista diferentes que integram uma visão global. Porém, o núncio escuta tudo isso, diz a sua opinião, apresenta uma terra. Isso chega a Roma e, no Dicastério paras os bispos, há 30 pessoas, cardeais, bispos, e o Papa Francisco colocou três mulheres. Cada um tem de dar a sua opinião sobre cada um dos candidatos. Tudo isso é transcrito e o Papa tem tudo nas mãos. No final, pode ser que o que o núncio achava que era melhor, o número um, e depois na conversa dos cardeais, o Papa pode dizer que o bispo é o número dois, por exemplo. Nada contra ninguém. Cada um tem de agir segundo a própria consciência diante de Deus.
Acha que é necessária alguma mudança, nomeadamente no Direito Canónico, para que a nomeação dos bispos seja mais… Não digo uma escolha democrática, que não é, mas que seja fruto do sentir da diocese?
O Direito Canónico fala em alguns bispos, alguns padres, depois depende de mim, quantos. Não é tanto de colocar na lei, mas uma práxis de maior escuta, que, volto a dizer, para mim não é nova. É uma coisa que estou fazendo e que pretendo continuar a fazer.
Papel das conferências episcopais
O documento final da Assembleia dos Bispos fala também das conferências episcopais, do seu estatuto e apela a uma reflexão em torno da sua competência doutrinal e disciplinar. Percebemos, no Papa Francisco, uma determinação em dar mais relevância, dar mais importância às conferências episcopais. Acredita que é esse o caminho que interessa promover, também em Portugal? Acredito que participe na próxima Assembleia Plenária em Abril, que será a eletiva…
Sim. Há muitas opiniões, mesmo nos diversos países, porque há algumas conferências episcopais que são mínimas. Trabalhei em conferências episcopais de três, quatro bispos. Então, eles mesmos sentem a incapacidade. Não é a mesma coisa: eu trabalhei no Brasil.
Naquela altura eram 268 dioceses, 430 bispos. Agora são muitos mais. Então, há visões diferentes.
Enquanto doutrina, é difícil mudar, mas como olhar a partir da própria experiência, é aí que as conferências episcopais têm tudo a dizer.
Nova ordem mundial
Passou pela Dinamarca, pelo Panamá, pelo Equador. Países que experimentaram a pressão externa e a prepotência outros. Um tema que, nos dias de hoje, está muito a verificar-se. Acha que o multilateralismo está em risco e pode fazer com que o nacionalismo, com que potências dominadoras possam emergir de uma forma que ameace até a própria democracia e a subsistência de outros povos?

O risco existe. Está aos olhos de todo o mundo. Porém, acho que é um momento de caminhar com muita prudência, mas também com muita clareza.
Eu estou admirando o Papa Leão, que não fica calado, que diz as coisas com um enorme respeito, sem faltar à caridade, mas também sem faltar a verdade. Colocar na frente de cada pessoa a responsabilidade que temos, porque a democracia não é simples. No fim de contas, tem lugares onde… Ah, é melhor ter uma pessoa dura que diz, depois nós vamos fazer. É uma irresponsabilidade enorme…
É verdade que este mundo está mudando enormemente. Eu já trabalhei nas Nações Unidas, na Secretaria de Estado, muito perto do Papa João Paulo II. Fui responsável de toda a multilateral, que agora é um vice-ministério. Obviamente, o mundo não é o mesmo. Estamos correndo riscos.
É a lei da força que está cada vez mais presente?
Claro. Porém, depois vamos ver como a população de cada um desses países vai reagir, até democraticamente, porque esse é um princípio que é preciso salvar.
E também há muitos sinais de que há população que não está de acordo com essa maneira de agir. Vamos ver, é um momento muito intenso.
É um novo desafio para a diplomacia, também a diplomacia do Vaticano?
Óbvio, óbvio! Porque é dificílimo. Conversando com algumas pessoas que têm uma enorme experiência internacional, falavam-me que o mundo no qual eu trabalhei 50 anos, que têm sido até ministro dos negócios estrangeiros, com lugares altos nas Nações Unidas, etc.
Hoje, não é mais o mundo no qual eu trabalhei. Volto a dizer: é uma circunstância que apela a uma grande responsabilidade de parte das pessoas que têm um poder, transitório como em toda a democracia, mas também acho que temos de lidar com responsabilidade com todos os cidadãos.
Obviamente, os meus colegas da diplomacia da Santa Sé, estão trabalhando muito seriamente…
“Respeitar a democracia na Europa é um risco”
Na década de 90, publicou um livro sobre segurança e cooperação na União Europeia. É um projeto que pode estar ameaçado, na atualidade?

Eu escrevi a tese de doutoramento em Direito Internacional sobre a conferência de Helsínquia, Conferência de Segurança e Cooperação na União Europeia. Era a primeira vez que a Santa Sé era membro de pleno direito, em 35 estados naquela altura (existia ainda União Soviética, etc.)
De lá para cá, muita coisa mudou. Porém, a Conferência de Segurança e Cooperação na União Europeia deu origem à Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que existe, com sede em Viena. É um projeto no qual todos estes países falam e têm que tomar decisões por consenso. Isso é um desafio enorme! Porém, o processo existe.
Eu acho importante que existam estas estruturas, porque são estruturas nas quais se pode dialogar. Quando se quebra a lógica do diálogo, entramos num problema. É preciso inventar o diálogo. Se a estrutura do diálogo existe, é melhor salvar, na medida do possível.
O continente europeu está a ficar cada vez mais fragilizado com a emergência de potências internacionais, como Estados Unidos, China ou União Soviética?
Sim. Inegável.
Está a enfraquecer o projeto europeu?
Porquê? Porque decidiu respeitar a democracia interna. Mas, isso é um risco porque outros atores não têm democracia.
A nível mundial, o que queremos? Respeitar a democracia é um risco. É um peso. É preciso escutar cada um. O grande e o pequeno. Isso, numa visão de força, é absurdo. Mas, no fundo, qual a humanidade que queremos?
Percurso na diplomacia
E pedia-lhe que recordasse o seu longo percurso diplomático, que tem, agora, este ponto muito significativo, aqui em Portugal. Mas desde a África, Europa, Brasil, Panamá, Equador, vem do Equador para cá. Porquê o escolher a carreira diplomática e que contributo dá à missão da Igreja Católica na atualidade?
Na diplomacia pontifícia, temos uma caraterística: não escolhemos entrar. Somos chamados!
Eu queria ser pároco, rural, estar em contacto com as pessoas. O meu bispo enviou-me a estudar Bíblia. Já estudar não queria, menos ainda Bíblia, porque precisava de estudar grego e hebraico. Tive que ir para o Instituto Bíblico, na Gregoriana, e estudar muitas horas essas línguas difíceis.
Quando eu achava que o meu futuro era ensinar, no Seminário da minha diocese, o bispo escreveu-me: recebi uma carta da Secretaria de Estado a dizer que você foi escolhido para entrar ao serviço do Papa, na diplomacia pontifícia. Eu respondi dizendo que somente não gosto, como é uma coisa que é contra a minha natureza.
Nessa altura, eu tinha 24 anos, semanas antes da minha ordenação sacerdotal, estava com uma viola, grupos de jovens, etc. Depois, o bispo disse-me uma coisa muito sábia: aquele que quer servir não escolhe o lugar do serviço. Isso mudou a minha vida, até hoje. Eu nunca achei que era a pessoa para esse tipo de serviço, porém, são 41 anos.

Comecei na Libéria, eram quatro países: Serra Leoa, o mais pobre do planeta, Guiné-Conacri e Gâmbia. E depois Copenhaga, com Dinamarca, Suécia, Noruega, Islândia e Finlândia. Dali, na Secretaria de Estado da Santa Sé, muito perto do Papa João Paulo II, porque era o chefe de gabinete do ministro das Nações Exteriores, tinha que levar papéis para o Papa assinar… Isso fez-me ter um contato fora do olhar público muito forte. Ter um santo tão perto foi uma experiência enorme. De lá, fui para as Nações Unidas, Genebra, Suíça. De lá, para o Brasil, quatro anos e meio, e de lá para o Canadá.
Estando no Canadá, o Papa João Paulo II nomeou-me arcebispo e núncio apostólicos na República do Congo e no Gabão, os dois países. Cinco anos. Depois passei no Panamá, oito anos e meio; no Equador, oito anos e meio. E eis-me aqui em Lisboa, feliz de estar aqui, contente por estar ao serviço deste povo e desta Igreja.
E é essa a sua determinação? Servir este povo e esta Igreja?
Sim, acho que é isso. O que é que eu devo fazer aqui? Servir! Servir esta Igreja, servir este país, na medida das minhas possibilidades, o que vou fazer com toda a minha alma.

