Leiria: «Temos de ir ter com as pessoas, a periferia ainda está muito isolada» – Ana Isabel Mota

Ainda com dúvidas sobre a real dimensão da tragédia e numa altura em que se continuam a sentir os efeitos do mau tempo, é convidada da Renascença e da Agência Ecclesia, Ana Isabel Mota, presidente da Caritas Diocesana de Leiria, a região do país mais afetada pela depressão Kristin

Foto: Diocese de Leiria-Fátima/Paulo Adriano

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

A Caritas de Leiria, que tem uma rede de proximidade, já consegue ter uma fotografia real da dimensão da devastação na região ou ainda se estão a descobrir novos dramas?

Todos os dias temos equipas na rua, portanto todos os dias estamos a descobrir novas realidades e muito difíceis. Nós temos cinco equipas diárias, com vários técnicos, desde psicólogos, assistentes sociais, inclusivamente enfermeiras, que vão ao local e todos os dias trazem situações muito, muito difíceis. Já arrancou uma equipa para cobrir as necessidades que são assinaladas com a equipa de proximidade.

 

Fala de dificuldades acrescidas, pode dar alguns exemplos?

Principalmente comunicação, as pessoas estão isoladas, deslocam-se 10, 15 quilómetros para comunicar com familiares, muitas vezes até connosco, mandam-nos emails com urgência, “venham a ajudar porque eu não tenho comida, não tenho agasalhos”, porque as casas estão muito desprotegidas. Temos tido muitos pedidos espontâneos das dificuldades que as pessoas estão a sentir, porque desde as casas não têm telhados – não tem cobertura, pode ter telhado e ter cobertura. Fazemos também visitas, deparamo-nos com situações que não têm absolutamente proteção nenhuma, não têm eletricidade, não têm água, não têm comunicação.

Nós temos de ir junto dessas pessoas, andamos com as nossas equipas, com as carrinhas cheias de lonas de alimentos, não só da nossa equipa técnica, porque temos de ir ter com as pessoas, a periferia ainda está muito isolada.

 

A equipa está no terreno desde a primeira hora…

Desde a primeira hora.

 

E continuando a chegar a estes pedidos, quais são os mais urgentes?

Lonas, as pessoas pedem-nos cada vez mais lonas, lonas, lanternas…

 

Até porque a chuva não tem parado, não é?

Pedem-nos muito rádios portáteis. Para que se perceba, dizem-nos “olha, só ontem é que vi televisão”. Onde eu vivo também ainda não temos luz, portanto, as pessoas estão mesmo isoladas, não há forma de chegar a elas, é muito, muito difícil. Temos mesmo de ir lá ao local, perceber, fazer levantamentos e depois vamos no outro dia levar o que as pessoas precisam, quando não é no mesmo dia, temos equipas à noite. Nós temos seis colaboradores, aqui a Cáritas de Leiria, que eu aproveito para dar o maior elogio, estou muito orgulhosa da nossa equipa da Cáritas de Leiria, que tem sido incansável, não há horas, não há dias, andamos aqui nove dias consecutivos, e são incansáveis.

Se é preciso ir à noite vão, às sete da manhã já aqui está a equipa, reunimos todos a ver as dificuldades, a nossa equipa está muito, muito empenhada porque as pessoas realmente precisam. Na Cáritas, a nossa essência é a proximidade, trabalhar com as pessoas mais vulneráveis, e são elas que estão agora a precisar de nós.

 

Têm surgido críticas à forma como as autoridades responderam à tragédia, ouvimos autarcas a dizer que se sentem abandonados, populares que se queixam de ainda não terem sido contactados, aliás ainda agora nos dizia que de facto há as populações isoladas. Quem está no terreno e contacta com as mais diversas situações, encontra razões para estas críticas?

Encontra, sim, sim.

 

Há um sentimento de abandono nas populações?

Eu não queria ser tão drástica, nós também estamos em articulação com os grupos sociocaritativos, com as paróquias e também com as Juntas de Freguesia. Nós procuramos muitos as Juntas de Freguesia pela proximidade, as pessoas são visitadas, mas não é suficiente, o apoio que se está a dar não é suficiente. Eu não vou ser muito drástica e dizer, “olhem, estão abandonadas”, que estão deslocadas e desprotegidas e tristes estão, isso é verdade.

 

Já ouvimos relatos dramáticos de pessoas idosas dizer que ainda ninguém as contactou, não é?

E depois temos outra dificuldade… nós temos a nossa equipa de rua, inclusivamente estamos aqui a receber reforços Setúbal, Lisboa, Viseu, que acompanha também as nossas equipas e depois a grande dificuldade é que, principalmente os idosos, têm medo de nos abrir a porta. Temos as carrinhas cheias de alimentos, lonas, mas o clima de desconfiança é muito grande e também temos com alguma dificuldade a entrar por essa questão.

 

Esse é um dos problemas, como é que se chega a quem não pede socorro?

Essa é que é a nossa preocupação, nós temos aqui filas e filas à nossa porta, inclusive já tivemos de solicitar as Forças de Segurança para também ordenar um bocado aqui a nossa procura, mas essas é que nos preocupam, por isso é que nós estamos na rua a procurar.

 

Infelizmente, Leiria tem a memória trágica dos incêndios de 2017. A experiência que a Caritas ganhou nessa altura é agora um recurso para enfrentar esta nova tragédia?

Uma parte da equipa estava cá, outra não, inclusive esta direção é diferente de quando houve essa tragédia. Nós somos muito resilientes, a equipa é excelente e adapta-se bem às situações. Era preciso, desde o primeiro dia foi preciso ir para o terreno e fomos para o terreno, vamos à procura das pessoas.

 

E o vosso papel pode estender-se à fase de reconstrução das habitações?

Sim, sim. Aliás, nós inclusivamente temos um fundo, um fundo de emergência da tempestade, pronto para fazer face a isso, porque o momento de crise é agora, mas é necessário fazer a recuperação e as dificuldades vão permanecer. Agora estamos em crise, todas as pessoas ajudam, mas depois, e o quê? Quando é que vamos chegar realmente às pessoas terem uma habitação digna? Olhe, elas já só querem um telhado, para se poderem proteger. Acabámos por ter também de pensar um bocadinho no futuro, porque as dificuldades vão permanecer.

 

Os holofotes mediáticos estão todos muito concentrados agora, em Leiria, mas nós todos sabemos, pela nossa experiência, que se vão desligar. E pode não demorar muito… há o risco destas pessoas ficarem esquecidas em breve outra vez?

O que a Cáritas puder fazer, a Cáritas faz. Uma das mensagens que nós deixamos sempre é a esperança, nós estamos a cuidar das pessoas e estamos a trabalhar. Já estamos a reunir a comissão que vai trabalhar com este fundo, para começarmos a fazer a aplicação do montante, aliás nós somos auditados, porque queremos a máxima transparência: não vai sair daqui um euro que não seja devidamente fundamentado, a Cáritas quer estar ao nível de uma Cáritas de referência.

 

E esse fundo tem vindo a crescer nos últimos dias, não é? Porque a solidariedade tem sido grande.

Sim, já estamos a aproximadamente um milhão de euros, e queremos a máxima transparência, por isso fizemos questão de ser auditados.

 

Falamos de dificuldades, mas também há sinais de esperança: a campanha da Cáritas teve este acolhimento positivo, não é?

Sim, já ultrapassou um milhão de euros.

 

Como é que olha para esta onda de solidariedade? Os portugueses, e quem vive cá, continuam a saber dar as mãos nesta hora da aflição?

Sem dúvida, sem dúvida. Os portugueses são muito solidários. Nós estamos a receber não só das pessoas, dos particulares, das empresas, grandes empresas, aliás, está uma equipa agora, também com uma instituição que nos quer apoiar, todas as empresas… uma coisa eu louvo, sem a menor dúvida, não houve um pedido que a Cáritas de Leiria fizesse que tenha sido negado, seja em que forma. Toda a ajuda, todo o apoio que nós pedimos, isto é de referenciar. E isso também nos deixa com muita esperança para continuar, dá-nos muita força.

 

E como é que está a ser a articulação da Cáritas com as outras instituições que estão no terreno, em particular com os organismos públicos?

Desde a primeira hora: nós fazemos parte da Proteção Civil, e na primeira reunião apercebemo-nos da dimensão e fomos logo, logo ao terreno. Nós, desde a primeira hora, estamos em articulação com o Município.

 

Queria fazer-lhe uma pergunta sobre essa expressão que temos usado tantas vezes nesta entrevista, que é a “primeira hora”. Pode recordar qual foi o primeiro impacto que teve daquela manhã, depois de tudo o que aconteceu? Qual foi o primeiro impacto naquele dia?

Eu recebi um telefonema às sete da manhã a dizer que não se podia entrar na Cáritas, porque nós também sofremos danos, não só aqui como numa casa que temos, uma casa social, também temos danos.

É onde temos crianças, jovens, idosos, também temos grupos. Essa não é a nossa preocupação, a casa agora não é necessária, depois com o tempo pensaremos nela. Agora é as pessoas, pessoas, pessoas, a nossa prioridade são as pessoas, pronto.

Naquele primeiro dia não pudemos entrar na Cáritas, a primeira coisa foi desbloquear, foi chegar aqui e vamos erguer, pronto, vamos ver o que é que é preciso.

Depois dessa reunião da Proteção Civil a realidade apresentou-se muito difícil e fomos para o terreno, reuniu-se a equipa e desde sempre houve muita força. Há horas em que o cansaço… mas isso não nos preocupa, o cansaço fica ali a aparecer, mas sempre com muita coragem.

Eu não posso enaltecer mais a nossa equipa, somos seis pessoas, temos feito muito, muito, muito, desde o diretor de serviços à administrativa, à assistente social, à psicóloga, educadora social, todas elas estão muito, muito orgulhosas da equipa que temos. Somos poucos, mas fazemos muito.

 

E desde essa primeira hora até ao momento já foi muita solidariedade prestada pela Cáritas, não é?

Muito.

 

Falemos de números.

Eu já não sei falar em quilos normalmente, falávamos em quilos, já tivemos de reforçar as nossas balanças, assim como também os nossos transportes que tivemos de arranjar. Aqui na nossa sede, com voluntários, neste momento por exemplo temos aí 20 escuteiros, mas há voluntários de todo o país, distribuímos 35 toneladas, eu estou a falar na nossa sede, porque essas conseguimos contabilizar, 264 famílias de cabazes na nossa instituição. Agora, temos alimentos no seminário, nas nossas instalações, entretanto estão aqui, estavam a fazer, precisamos ir ali para o regimento, para o quartel levar também, porque a partir de hoje já temos de levar para lá alguns alimentos.

Há muitas carrinhas que vieram, 14, 15, de todo o país, muitas eram já diretamente para as Juntas de Freguesia, para os grupos sociocaritativos, há muitas que foram diretamente. Ou seja, já não descarregavam aqui, a emergência aí era, seja em Ourém, seja na Vieira, seja na Marinha Grande, pronto, nós estamos a abrir, porque nós somos uma Cáritas Diocesana, estamos a abranger a diocese toda. Foi sempre a nossa primeira opção: não é Leiria, que até tem bastante apoio, é as periferias e é toda a diocese, estamos a cobrir toda a diocese.

 

Falou ainda há pouco do cansaço, natural, que se vai acumulando nesta grande luta. O facto de o Papa Leão XIV ter querido recordar, mais do que uma vez, as pessoas que foram afetadas pela tempestade, foi importante? Também ajuda a levar esperança, por exemplo, a quem perdeu o telhado da sua casa?

Ajuda, sim. O nosso Papa é a nossa referência e este reconhecimento também, que felizmente temos tido, também pelo nosso bispo, que desde a primeira hora esteve sempre ao nosso lado, sempre a apoiar-nos também, eu acho que esta parte institucional é muito importante, para nós tem sido bom, não só pelo apoio, mas também pelo reconhecimento.

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