Embaixador António de Almeida-Ribeiro lamenta o «aumento do discurso de ódio, das divisões, das tensões», nas religiões e nas sociedades

Lisboa, 03 fev 2026 (Ecclesia) – O secretário-geral interino do Centro Internacional de Diálogo – KAICIID, com sede em Lisboa, afirmou que a Declaração de Abu Dhabi, sobre a Fraternidade Humana, “tem ainda mais atualidade do que teve quando foi assinada”, há sete anos.
“Nestes últimos anos, temos vindo a verificar, lamentavelmente, um aumento do discurso de ódio, das divisões, das tensões entre confissões religiosas, entre sociedades. E é justamente contra isso que esta declaração defende o entendimento, promove o diálogo, promove o respeito, e a tolerância pelo outro”, disse o embaixador António de Almeida-Ribeiro, em declarações à Agência ECCLESIA.
A 4 de fevereiro de 2019, o Papa Francisco e o grande imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, assinaram o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, que condena o terrorismo e a intolerância religiosa, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.
O secretário-geral interino do Centro Internacional de Diálogo – KAICIID afirmou que, hoje em dia, “é cada vez mais fundamental” recordar esta declaração “tão significativa, e tão importante”, e acrescenta que, “ao fim de sete anos, tem ainda mais atualidade do que teve quando foi assinada”.
António de Almeida-Ribeiro observa que o documento foi assinado por “dois grande líderes religiosos”, um católico e outro muçulmano sunita, respetivamente o Papa Francisco e do grande imã Ahmad Al-Tayyeb, mas “representa um apelo dirigido a todos”, como dizia o pontífice, a “todos, todos, todos”, porque existem outras religiões “muito representativas também de grandes percentagens da população mundial”.
“Esta declaração dirige-se a todos, porque o respeito e a tolerância é para todos, não apenas para alguns. E esta é uma comemoração que realmente vale a pena fazer, porque nunca como hoje, como a referi, nunca como hoje foi tão necessário promover o diálogo e a tolerância e o respeito pelo outro”, sublinhou.
O diplomata português de carreira salienta que é, cada vez mais, importante “recuperar o diálogo e a diplomacia” para a resolução dos conflitos, porque o contrário é o agravamento de tensões, “o agravamento do ódio, as guerras”, e falar e dialogar são “a melhor solução para que todos possam viver em harmonia, em respeito e em paz”.
“Nunca é demais insistir pela importância do diálogo e do encontro. Esse foi o princípio desta declaração, mas já vem de trás. Eu recordo, por exemplo, a ‘Nostra Aetate’ do Papa Paulo VI, que é também um grande documento que apela ao respeito e à relação entre o cristianismo e as religiões não cristãs”, explicou.
A declaração ‘Nostra Aetate’, sobre a Igreja Católica e as religiões não-cristãs, um documento do Concílio Vaticano II, foi publicada há 60 anos, a 28 de outubro de 1965.
Para o embaixador António de Almeida-Ribeiro, a Declaração sobre a Fraternidade Humana “é uma sequência” da declaração conciliar, e realça que, “mais do que nunca, é importante” falar para os outros de igual para igual, “e respeitar” aqueles que são diferentes, pensam de forma diferente, “ou têm um credo diferente”.
O Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum é genérico, mas tem muitos pontos concretos, “princípios que deveriam ser respeitados por todos”.
“Pontos muito específicos de defesa, por exemplo, dos direitos das mulheres, a paz, a rejeição da violência, do combate ao discurso de ódio, a defesa da família. E esta declaração tem esse valor acrescentado, que é recordar a todos o que são os princípios basilares de uma sociedade justa, fraterna e em paz”, identificou o entrevistado.
A Igreja Católica em Portugal assinala hoje o 7º aniversário da assinatura da Declaração sobre a Fraternidade Humana com um encontro de reflexão, a partir das 15h00, no Convento de São Francisco, em Coimbra, promovido pela Subcomissão para o Diálogo Inter-Religioso da Comissão Episcopal Missão e Nova Evangelização, da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).
Na sequência deste documento, conhecido também como a Declaração de Abu Dhabi, a Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU) proclamou o Dia Internacional da Fraternidade Humana, assinalado a 4 de fevereiro.
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