Igreja/Cultura: Arquiteta Catarina Valadão falou sobre a fé «íntima, pessoal e intransferível»

Oradora destacou que «antes de ser palavra, foi gesto. Antes de ser crença, foi sensação. Antes de ser escolha, foi herança»

Foto: Pastoral da Cultura da Igreja de São José

Angra do Heroísmo, Açores, 29 jan 2026 (Ecclesia) – Catarina Valadão, arquiteta e poeta, refletiu sobre ‘Fé: em busca do indizível’, e afirmou que “é íntima, pessoal e rigorosamente intransferível”, esta quarta-feira, na 21ª ‘Conversas na Sacristia’ da igreja de São José, em Ponta Delgada, nos Açores.

“A fé não entrou na minha vida como uma resposta clara, mas um espaço silencioso entre o que conheço e o que não consigo compreender”, disse Catarina Valadão, que apresentou um texto dividido em seis momentos, informa o portal online ‘Igreja Açores’, da Diocese de Angra.

A arquiteta, fotógrafa e poeta Catarina Valadão, com o tema ‘Fé: em busca do indizível’, foi a primeira oradora do ciclo ‘Conversas na Sacristia’ 2026, iniciativa promovida pela Pastoral da Cultura da Igreja de São José, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel.

“Antes de ser palavra, foi gesto. Antes de ser crença, foi sensação. Antes de ser escolha, foi herança”, salientou a oradora, que salientou que a fé “é íntima, pessoal e rigorosamente intransferível”: “Ninguém pode acreditar por nós”.

Catarina Valadão recusou uma visão da fé como doutrina rígida ou certeza adquirida e descreveu-a como “um vazio habitável, sem forma definida, mas cheio de presença”, e observou que se revela muitas vezes pela sombra e não pela luz.

“Ela começa no exato momento em que o mundo, tal como o desenhámos, deixa de fazer sentido”, acrescentou a arquiteta açoriana, esta quarta-feira, 28 de janeiro.

A oradora, também poeta e fotógrafa, afirmou que se a fé “não fizer olhar para o sofrimento dos outros, então é apenas egoísmo espiritual”, na sacristia da igreja de São José.

“Todos nós acreditamos em alguma coisa. Todos nós temos esperança em alguma coisa. Se tivesse de a dizer numa só palavra, seria esperança.”

A fé, realçou, deixa de ser abstrata para “torna-se matéria bruta, o último recurso da esperança”, quando confrontada com a fragilidade extrema, uma situação de doença, de perda ou de proximidade da morte.

“Todos nós acreditamos em alguma coisa. Todos nós temos esperança em alguma coisa. Se tivesse de a dizer numa só palavra, seria esperança.”

Cartaz: Foto: Pastoral da Cultura da Igreja de São José

Para Catarina Valadão, acreditar não é possuir certezas, mas “aceitar habitar o mistério”, e referiu que “é na dúvida que a fé se torna imperfeita e, por isso mesmo, tão real e profunda”.

“A fé desperta no reconhecimento de que algumas perguntas não querem respostas”, afirmou, sustentando que “é na dúvida que a fé se torna imperfeita e, por isso mesmo, tão real e profunda”.

A convidada da 21.ª edição das ‘Conversas na Sacristia’ refletiu também sobre a multiplicidade do sagrado, reconhecendo que nem todos o nomeiam da mesma forma, e nenhuma dessas formas é menor ou ilegítima, porque “a fé molda-se ao corpo que a sustém e à história que atravessa”.

“Há quem lhe chame Deus. Outros recusam chamá-lo, temendo que a palavra seja pequena demais para a grandeza do que sentem”, indicou, na sacristia da igreja de São José.

No momento de tertúlia, explicou o significado de ter afirmado que ninguém acredita pelos outros, salientando que “tal como a dor e a felicidade, a fé é algo que cada um sente por si, mesmo quando é partilhada.”

E se Catarina Valadão tivesse uma pergunta para Deus, que “também é humor”, com resposta imediata seria: “Por que é que a vida é tão injusta e tão irónica?”, lê-se no sítio online ‘Igreja Açores’, da Diocese de Angra.

CB/OC

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