Moçambique: Cheias deixam feridas que «demoram a curar»

Carlos Almeida, coordenador da HELPO, alerta para o rasto de destruição numa área equivalente a «dois Algarves»

Foto: Carlos Almeida/HelpoLisboa, 01 fev 2026 (Ecclesia) – As cheias em Moçambique vão ter um forte impacto nas condições de vida das populações, alerta o coordenador da Helpo no país, que fala em “feridas” com consequências para o futuro.

“É preciso reconstruir as casas, é preciso rezar para que o terreno volte a ser fértil, mas dentro do coração das pessoas fica também muita ferida que demora a curar”, disse Carlos Almeida, em entrevista à Renascença e Agência ECCLESIA, publicada e emitida este domingo.

O responsável aborda o impacto devastador das inundações que fustigam as províncias de Maputo, Sofala e Gaza.

“O arranque do ano letivo, que estava previsto para o dia 30 de janeiro, foi adiado para o final do mês de fevereiro, ou seja, para 27 de fevereiro, em todo o país e não apenas nas províncias afetadas”, afirma.

Carlos Almeida alerta para a dimensão geográfica da catástrofe, comparando a extensão das áreas submersas com a realidade portuguesa.

“A área que está inundada em Moçambique são 10 mil quilómetros quadrados e para nós termos um bocadinho noção do que isto é, significa duas vezes a área total do Algarve”, descreve.

É na verdade o futuro próximo que está hipotecado porque as suas terras, que permitem a sua sobrevivência, estão debaixo de água e vamos ter problemas muito grandes.”

Foto: Carlos Almeida/Helpo

A destruição de infraestruturas, incluindo mais de mil quilómetros de estradas, tem isolado populações e dificultado a assistência, com prejuízos oficiais estimados em 644 milhões de dólares.

Perante o cenário de emergência, a organização não-governamental HELPO focou a sua intervenção imediata na cidade de Maputo, priorizando a segurança das famílias.

“Nestas situações, aquilo que nós já sabemos, quando há situações de cheias, a grande prioridade e a grande necessidade são as questões de segurança alimentar”, sublinha o coordenador.

Para além da fome, a educação é a principal preocupação da organização, que antecipa dificuldades económicas para o regresso dos jovens às escolas.

“O facto de terem que comprar novo material escolar, novo uniforme escolar, pode ser um entrave para a continuidade destas crianças e destes jovens na escola”, assinala.

Paralelamente à crise climática no sul, o norte de Moçambique continua a enfrentar a instabilidade provocada pelo terrorismo na província de Cabo Delgado, a norte.

“As suas deslocações, os seus ataques a aldeias, continuam de forma recorrente e, realmente, é um problema”, confirma o coordenador nacional da HELPO.

A situação humanitária foi recordada pelo Papa Leão XVI na última audiência geral, onde o pontífice expressou a sua solidariedade para com as vítimas das inundações.

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

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