LUSOFONIAS – Muçulmanos e Cristãos em Diálogo

Tony Neves, em Bogo, Doualaré e Maroua

‘Em Bogo, não fazemos diálogo inter-religioso! Aqui, vivemo-lo no dia a dia, pois todos os vizinhos são muçulmanos’! – assim me provocou o P. Luc  Takaye, nascido e crescido neste extremo norte dos Camarões. Com ele e com o P. Stéphane, pude visitar a cidade (a 47 kms de Maroua), o Hospital das Irmãs Missionárias de Cristo, a nova Escola dos Espiritanos, bem como a antiga Missão, situada fora da cidade de Bogo e que teve de ser abandonada por ameaças de ataques e raptos, no período crítico da guerra civil do Chade e das investidas dos  Boko Haran. Agora, a equipa missionária vive no centro desta cidade 70% muçulmana.

Em Doualaré, ladeada de montanhas, povoação a 10 kms de Maroua, com mesquitas a ladear a missão católica, reuni com todos os Espiritanos que trabalham neste Extremo Norte dos Camarões, catalogado como ’zona vermelha’, pelo alto risco de ataques dos extremistas islâmicos.

Momento alto foi a visita à Antena Regional da ACADIR do Extremo Norte. Esta Associação Camaronesa para o Diálogo Inter-religioso foi reconhecida pelo Governo em 2006. Tem, em Maroua, uma figura católica respeitada pela competência e entrega: o P. Juan Antonio, Espiritano espanhol, que está nesta região há quatro décadas e fala na perfeição o fulfuldê (língua dos Fulbê) e leciona Islamologia no Seminário Maior. Retirado em 2017 de uma Missão interior, por causa dos ataques dos Boko Haram, vive na Casa Libermann, nas periferias de Maroua, não desistindo do seu radical compromisso pelo diálogo. Nessa perspetiva, viveu durante 7 anos  com uma família muçulmana, com quem passava 3 dias por semana!

Atravessei de moto toda a cidade de Maroua, para um dos momentos mais intensos desta minha passagem: o P. Juan Antonio fez-me uma visita guiada à Casa do Encontro. Aberta em 2015, recebe muçulmanos e cristãos, de 2ªa a sábado, para conferências, debates e leitura na sua vasta biblioteca (1308 livros catalogados!). Contou-me que Maroua era uma cidade cosmopolita e toda a região habitada e visitada por muita gente, vinda do mundo inteiro. Mas, os Boko Haran, a partir da vizinha Nigéria, iniciaram os ataques brutais em 2013, atingindo o seu máximo de terror em 2015. Atacaram a Missão de Tchere , a 18 kms de Maroua, em 2014, tendo raptado 2 padres italianos e 1 canadiano. Foram libertados na Nigéria dois meses depois, após intensa diplomacia. O resultado foi a retirada de todos os estrangeiros, ficando apenas, por opção, o P. Juan António. Em 2015, foram obrigados a partir 27 Padres e 46 Irmãs…e o turismo, que era florescente, acabou…

O Bispo Católico de Maroua – Mokolo reuniu então com o grande Imame muçulmano que, em declarações difundidas pelos media, etiquetou estes grupos armados de ‘bandidos’. Assim, muçulmanos e cristãos uniram-se em defesa das populações. Até agora, são organizadas quatro ou cinco conferências por ano. Foram cartografados todos os centros de culto de Maroua: 83 mesquitas de sexta feira, 505 mesquitas secundárias, 106 templos protestantes e 12 paróquias católicas! São ainda realizados, ao longo do ano, muitos ateliês de formação em toda a região do extremo norte: ‘Muçulmanos e Cristãos, juntos pela Paz e pelo Desenvolvimento’   –  eis o lema em grande cartaz na Casa do Encontro, que diz ainda: ‘não à violência, sim à paz!’. Nas paredes, há diversas citações da Bíblia e do Alcorão.

Depois de 2015, o diálogo avançou imenso e a capacidade de escuta é enorme – diz o P. Juan Antonio: ‘denunciam-se exageros das lideranças, podem-se criticar abertamente as tendências mais radicais e há respeito por esta partilha de opiniões. Começam-se a respeitar as diferenças, sem as esconder. Há grupos de reflexão que têm imames, padres, pastores, professores universitários onde são aprofundados temas relacionados com o Diálogo Inter-religioso’. Em 2025 e 2026, está a ser trabalhado o tema da fraternidade humana, a partir do texto da Declaração de Abu Dhabi.

Termino com a viagem de moto-táxi do Paço Episcopal à Casa do Encontro. Foi uma ida e volta que me fez me atravessar duas vezes toda a cidade, sem capacete! As muitas rotundas, cheias de motos e carros, em caos total, provocam o pânico e preparam-te para um choque ou uma queda, sempre iminentes. O jovem taxista dizia-me que estava muito frio, mas eu confesso que transpirei toda a viagem!

Deixei este extremo Norte e regressei a Yaoundé num voo que me devia gastar uma hora e meia e durou quase um dia inteiro! Será assunto para a próxima crónica!

Tony Neves, em Bogo, Doualaré e Maroua

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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