Coordenadora do organismo diz que falta «maturidade plena» no processo que tem decorrido nos últimos anos
Lisboa, 26 jan 2026 (Ecclesia) – O Grupo VITA, que acompanha situações de violência sexual de crianças e adultos vulneráveis na Igreja Católica em Portugal, manifestou a necessidade de continuar funções, após os três anos de funcionamento previstos, que se assinalam em maio.
“Foi definido este primeiro triénio exatamente com um conjunto de objetivos. O nosso entendimento neste momento é que a Igreja, falando de uma maneira generalizada, não atingiu ainda a maturidade plena que lhe permita funcionar de forma perfeitamente autónoma”, afirmou Rute Agulhas, em entrevista à Agência ECCLESIA, transmitida hoje na RTP2.
A responsável entende que este grupo continua “a ser ainda muito a porta de entrada para as vítimas e sobreviventes” de abusos sexuais na Igreja Católica e que, na eventualidade de continuar em funções, terá de ter “outros objetivos”.
“Haverá aqui alguma reformulação, porque, de facto, os objetivos hoje em 2026 não são aqueles que se colocaram em 2023 e portanto sentimos que é necessário também fazer esta reflexão em conjunto”, referiu.
A apresentação do quarto relatório de atividades do Grupo VITA e de dois recursos preventivos, que se realiza esta terça-feira (15h00), no Seminário Nossa Senhora de Fátima, vai servir este fim, isto é, haverá uma “proposta pensada em termos de continuidade” deste organismo, além de serem abordadas as “principais dificuldades e desafios” ao longo dos anos de funcionamento.
Este grupo foi criado pela Conferência Episcopal Portuguesa, assumindo-se como “temporário”, com um horizonte de pelo menos três anos, e apresentando-se como organismo “isento e autónomo”.
Dois anos e meio depois de o Grupo VITA iniciar funções, está em curso a definição das compensações financeiras paras as vítimas de abuso sexual no contexto da Igreja Católica.
“Esta fase é apenas uma fase de um processo que é muito mais amplo e muito mais abrangente, portanto todas as vítimas que nos procuraram até o momento, que são cerca de 154, nem todas pediram esta compensação, portanto temos 95 pedidos, como é sabido”, assinala Rute Agulhas.
A responsável indica que para muitas delas, o mais importante não é serem indemnizadas, mas serem “escutadas” e o facto de terem, “pela primeira vez, oportunidade de não só contar a sua situação, mas também poderem beneficiar de um processo de acompanhamento psicológico regular, cujos custos são suportados pela Igreja”.
“Com o facto de dizer que nem todas as pessoas querem uma compensação financeira, não estou de forma alguma a minimizar a importância desta compensação, pelo contrário, acho que é aqui um sinal muito importante que é dado por parte da Igreja de responsabilidade moral, este dever de compensar”, sublinhou.
A psicóloga destaca que “compensar não significa reparar, não significa substituir ou anular aquilo que foi vivido”, mas é uma tentativa de a Igreja,” a par também do que está a acontecer noutros países do mundo”, ter “um gesto simbólico de reparação”.
Rute Agulhas realça que as pessoas que pediram compensação financeira foram ouvidas por uma comissão de instrução numa entrevista, que decorreu sempre com um representante do Grupo VITA e de um membro da equipa de coordenação nacional.
As pessoas que já tinham antes relatado esta situação previamente, ou junto do Grupo VITA ou junto da Igreja, não tiveram de repetir esse relato, é importante repetir isto várias vezes, porque acho que é uma ideia que às vezes é um pouco distorcida.”
Ainda sobre este processo, a responsável relata que houve “11 pessoas que pediram a compensação financeira e que não foram escutadas”, por “várias razões”, incluindo casos de relatos de violência sexual, mas que não aconteceram dentro da Igreja Católica.
“Fomos também contactados por pessoas que nos apresentaram situações que não configuravam violência de natureza sexual, ainda que ocorrida no contexto da Igreja, mas estamos a falar, por exemplo, negligência, maus-tratos físicos”, revela.
Rute Agulhas assegura que houve “tentativa de encaminhar” estes casos “para serviços da sociedade civil”, ou seja, “as entidades competentes nessa matéria”.
Além disso, muitas pessoas “afirmaram e alegaram desistir deste processo, por razões pessoais, razões familiares”, contou.

Mesmo nas situações em que foi considerado não ter enquadramento no tema dos abusos sexuais, houve disponibilidade demostrada pelas comissões diocesanas em acompanhar as alegadas vítimas e encaminhá-las para outro tipo de acompanhamento que se torne necessário.
“Nunca, em situação alguma, pretendemos abandonar e ignorar a pessoa só porque não se enquadra num abuso sexual”, assinalou Carla Rodrigues, presidente da Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas de Proteção de Menores.
A conferência de imprensa desta terça-feira vai contar com a apresentação de um Guia de Apoio e Escuta para familiares e amigos de vítimas e sobreviventes e as Diretrizes “A Igreja que Escuta”, orientadas para encontros entre vítimas e sobreviventes e representantes da Igreja.
Os recursos foram elaborados com o contributo de vítimas e sobreviventes que integram o “Projeto Sobre.VIVER”.
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