Sete anos depois da assinatura do «Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum», xeque David Munir e o padre Adelino Ascenso pedem que carta assinada em 2019 inspire «tempo confuso» e «escuro» que mundo atravessa

Lisboa, 02 fev 2026 (Ecclesia) – O xeque David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, assinalou a necessidade de formar as “novas gerações” para o “respeito e encontro” entre diferentes culturas e religiões, como caminho para um olhar sobre “o ser humano”.
“Temos apostar muito na nova geração, na educação, na formação, para um maior respeito às outras culturas, às outras crenças, às outras tradições; aprendê-las, ensiná-las, tendo esta mente mais aberta, para aceitar outros não como membros de uma crença ou cultura, mas como seres humanos”, propôs em entrevista à Agência ECCLESIA.
O responsável Conselheiro Religioso da Comunidade Islâmica de Lisboa deu conta de “mais racismo, há mais islamofobia, há mais antissemitismo, há mais ódio pelas religiões em geral” em Portugal e falou do “medo” crescente que cidadãos muçulmanos portugueses têm perante ameaças “e bocas”.
“O discurso ou o ódio conduz a uma menor tolerância. Estes discursos indicam uma superioridade, ou pela cor, ou pela religião, ou pela identidade, ou pela sua posição cultural. Portanto, isto tudo faz com que as pessoas ficam ainda mais confusas e quando nós desconhecemos temos o medo”, constata.

O padre Adelino Ascenso, diretor da subcomissão para o Diálogo Inter-religioso, da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e missionário da Sociedade da Boa Nova, pede que as pessoas “não sejam colocadas em gavetas” e apela ao diálogo “pré-religioso” que faça sublinhe “um substrato antropológico-identitário e no diálogo”.
“Se escavarmos encontraremos algo bom em todas as pessoas. Por vezes encontramos pessoas que se consideram agnósticas ou ateias, mais cristãs do que muitos cristãos; e talvez haja muçulmanos que são mais muçulmanos que muitos que se identificam como sendo cheios de fé. Eu acredito muito no diálogo que eu denomino o diálogo pré-religioso, que vai aos fundamentos”, vaticina.
No dia 4 de fevereiro de 2019, o Papa Francisco e o grande imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, assinaram nos Emirados Árabes Unidos o «Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum», que condena o terrorismo e a intolerância religiosa.
O Xeque David Munir reconhece que a declaração foi “um marco, não só no mundo islâmico, mas também no ocidente”.
Para o padre Adelino Ascenso “não foram sete anos perdidos”, apesar de “muitos aspetos” do documento assinado em Abu Dhabi “terem ficado na gaveta” apesar da sua importância e atualidade.
“Estamos a ver, a sentir e a ouvir uma barbárie. Tudo acabou por agudizar-se. Além das guerras, das dificuldades no que diz respeito à aceitação do outro, do racismo, da xenofobia, da islamofobia, surgiu um outro elemento que é a lei do mais forte. É terrível e a carta poderá ajudar a que nos tornemos mais irmãos, que nos reconheçamos como irmãos”, convida.
O xeque David Munir indica que crescente islamofobia “não mudou de um dia para o outro, foi-se agravando” e lamenta que “um discurso negativo” esteja a tomar conta do “medo das pessoas” multiplicando a intolerância.
“Há religiosos moderados, há religiosos radicais; há políticos moderados e há políticos radicais”, constata.
“Alguns líderes religiosos, infelizmente, não respeitam o seu próximo, mas há muitos que o fazem. E no mundo político também é assim: nós temos líderes políticos, ou políticos que são mesmo extremistas, mas também temos políticos a quem nós possamos confiar, podemos ver que são pessoas que querem o diálogo, são pessoas que veem o outro como um irmão. É que eu veja o outro como o meu irmão”, acrescenta.
Num tempo de confusão – “as pessoas estão confusas” – o imã da Mesquita Central de Lisboa convida a “abrir as portas das mesquitas e igrejas” para que a identidade religiosa de cada um seja conhecida, integrada e respeitada, de forma a “combater o radicalismo e a ignorância”.
O padre Adelino frisa que “atitudes de xenofobia ou de discriminação” não podem ser admitidas, lembra que “nenhum português é ‘clinicamente puro’” e convida a assumir um “patamar antropológico comum para uma verdadeira fraternidade universal”. ~
“O documento dirige-se as pessoas de boa vontade, sejam muçulmanos, sejam cristãos, sejam de outra religião, ou sejam agnósticos ou ateus. Estamos numa época em que nos apercebemos das nuvens negras e é precisamente no meio destas nuvens negras que nós necessitamos de lançar uma luz. Este documento poderá ser uma luz nesta escuridão que nós vamos sentindo”, indica.
O encontro entre o Xeque David Munir e o padre Adelino Ascenso foi transmitido no programa ECCLESIA na Antena 1, com emissão sábado pelas 6h.
LS
