Católicos de ocasião

Padre Hugo Gonçalves, Diocese de Beja

Há um fenómeno pastoral que se tem tornado cada vez mais visível nas nossas paróquias: o dos chamados católicos de ocasião. São fiéis que raramente participam na vida da Igreja, mas que recorrem a ela em momentos-chave da vida — o baptismo dos filhos, o casamento, ou as exéquias — não tanto por uma fé vivida, mas por tradição, convenção social ou, não raras vezes, por razões estéticas.

O matrimónio católico é, talvez, o exemplo mais evidente desta realidade. A grande maioria dos noivos que procura casar pela Igreja fá-lo com pouca ou nenhuma formação cristã. Muitos não frequentam a Eucaristia dominical, não conhecem o significado dos sacramentos e nunca tiveram um verdadeiro acompanhamento espiritual. Ainda assim, desejam “casar pela Igreja”. Porquê? As respostas repetem-se: “porque fica bem”, “porque é tradição na família”, “porque a igreja é bonita”, “porque sempre sonhei casar de branco numa igreja”.

Estas motivações, por si só, não são ilegítimas. A tradição tem valor, a beleza evangeliza e os sonhos fazem parte da condição humana. O problema surge quando estas razões se tornam as únicas — ou as principais — e quando o sacramento é reduzido a um cenário ou a uma formalidade social.

Não é raro que o primeiro contacto entre os noivos e o pároco ou diácono comece com uma pergunta reveladora: “A cerimónia demora muito?” A preocupação não é com a celebração do sacramento, mas com o horário do catering, com a animação da festa ou com o fotógrafo. O altar torna-se quase um obstáculo logístico entre a entrada e o copo-de-água.

Depois surgem outros pedidos: leituras que nada têm a ver com a Sagrada Escritura, porque “dizem coisas bonitas sobre o amor”; músicas românticas, escolhidas por serem emotivas ou famosas, mas completamente alheias à liturgia; coreografias, discursos improvisados, aplausos planeados. Tudo é pensado ao pormenor — menos o essencial.

Há ainda quem opte por realizar a preparação para o casamento fora da sua paróquia ou até fora da sua diocese, procurando lugares onde “tudo é permitido”. Espaços onde a criatividade não encontra limites e onde os assistentes espirituais, muitas vezes sem experiência de pastoral paroquial ou com uma visão pouco exigente do sacramento, aceitam quase todas as propostas dos noivos, mesmo quando estas são litúrgica e teologicamente absurdas. Confunde-se acolhimento com permissividade, proximidade com falta de critério.

Mas afinal, o que é o matrimónio católico?

O matrimónio não é um simples contrato, nem uma bênção opcional sobre um amor humano já completo. É um sacramento, isto é, um sinal eficaz da graça de Deus. No matrimónio cristão, um homem e uma mulher baptizados tornam-se sinal vivo do amor de Cristo pela Igreja: um amor total, fiel, indissolúvel e aberto à vida. Não é apenas uma celebração do amor dos noivos; é uma vocação, um caminho de santidade, uma missão na Igreja e no mundo.

Quando dois cristãos se casam pela Igreja, comprometem-se livremente a amar-se “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da sua vida”. Prometem fidelidade, prometem acolher os filhos que Deus lhes confiar e prometem educá-los na fé. Nada disto é simbólico ou decorativo. É sério. É exigente. É para sempre.

A liturgia do matrimónio não é um palco para gostos pessoais, mas uma acção sagrada da Igreja. As leituras bíblicas não são escolhidas por serem “bonitas”, mas porque a Palavra de Deus ilumina e fundamenta a vida conjugal. A música litúrgica não serve para criar ambiente, mas para ajudar a rezar e a participar no mistério celebrado. A celebração não pertence aos noivos; pertence à Igreja.

Isto não significa rigidez fria ou falta de sensibilidade pastoral. Significa, antes, respeito pelo sacramento e honestidade para com os noivos. Amar verdadeiramente alguém é também dizer-lhe a verdade, mesmo quando ela exige conversão, formação e mudança de mentalidade.

Talvez o maior desafio pastoral do matrimónio hoje seja este: ajudar os noivos a passar de uma fé ocasional para uma fé assumida; de um casamento “porque fica bem” para um matrimónio vivido como vocação; de uma cerimónia bonita para um sacramento transformador.

A Igreja não deve fechar portas, mas também não pode esvaziar o conteúdo daquilo que celebra. Caso contrário, corremos o risco de transformar os sacramentos em serviços religiosos personalizados e a fé num acessório social.

O matrimónio católico merece mais. Os noivos merecem mais. E a Igreja é chamada, com caridade e verdade, a recordar que o altar não é apenas um cenário bonito para fotografias, mas o lugar onde Deus entra na história concreta de um homem e de uma mulher para caminhar com eles… todos os dias da sua vida.

Pe. Hugo Gonçalves

Diocese de Beja

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