Capelanias/Hospitais: «É um trabalho de presença, de escuta, de estar ao lado, chamar-lhe-ia uma porta aberta» – padre Jorge Sobreiro

Na semana em que o Papa Leão XIV apresentou a sua mensagem para o Dia Mundial do Doente, e uma semana depois da primeira volta das presidenciais, em que as questões da saúde dominaram parte do debate eleitoral, é convidado da Renascença e da Agência Ecclesia o capelão do Hospital de Santo António dos Capuchos, coordenador dos Capelães Hospitalares no Patriarcado de Lisboa

Foto: Beatriz Pereira/RR

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Começo pelo trabalho nas Capelinhas Hospitalares. A assistência religiosa e espiritual no contexto hospitalar tem sido alvo de várias regulamentações, ao longo dos últimos anos. Quais as dificuldades que ainda se sentem nesta missão?

O trabalho nas Capelinhas Hospitalares é um trabalho muito de presença, ou seja, é uma assistência espiritual, o facto é que é uma assistência espiritual para todos. E já se fazia antes do Papa Francisco dizer aqui em Lisboa o “todos, todos, todos”, que ficou assim muito marcado na sociedade. Nas Capelanias isso já se fazia. Ou seja, é um trabalho de presença, de escuta, de estar ao lado, chamar-lhe-ia uma porta aberta.

Os assistentes espirituais e religiosos, a que nós chamamos capelães, primam por estar presentes e por ir ao encontro daqueles que estão a sofrer. Porque no hospital há uma vulnerabilidade, percebe-se como a vida é vulnerável, como a vida é frágil. E por isso vemos que as pessoas estão nessa dificuldade e nós vamos ao seu encontro. Eu usava esta imagem da “porta aberta” porque é uma imagem que nos vem dos Capuchos. O Hospital dos Capuchos tem uma particularidade: o serviço da assistência espiritual e religiosa está na antiga Capela do Convento dos Capuchos e isso é uma maravilha, porque aquela Capela impõe-se, quando se entra nos Capuchos só se entra por aquela porta, a única de entrada e de saída, que depois tem uma rampa. E a primeira imagem que nos vem dos Capuchos é logo a Capela. Portanto, é algo que se impõe e é muito bonito: católicos, não católicos, agnósticos, ateus, muçulmanos… o Hospital dos Capuchos está integrado na ULS São José, que serve também todas estas freguesias aqui do centro de Lisboa, onde há muitos migrantes, e por isso, inclusive na capela dos Capuchos há muçulmanos que entram e que estão ali.

 

Este trabalho de proximidade resulta melhor quando é o doente a pedir ajuda, apoio, ou a simples presença continua a ser a melhor solução?

A simples presença continua a ser a melhor solução. É verdade que, muitas vezes, os doentes pedem, mas nós, os assistentes espirituais nos hospitais, vamos passando pelos serviços, vamos entrando e há essa abertura, digamos assim. Isso é muito bonito. Há abertura para podermos entrar nos serviços, ir ao encontro do doente e posso partilhar que umas vezes há abertura do doente, outras vezes não há, fruto da sua história, mas todos reconhecem isso, que somos uma presença que vem escutar, não vem impor.

Claro que há a dimensão religiosa, muitas vezes há oração, há a prática sacramental, mas isso não é com todos. O primeiro encontro é escutar, estar presente, abrir a porta ao diálogo e depois a partir daí vai-se construindo. Acima de tudo, esse é para mim o ponto-chave da assistência espiritual nos hospitais.

 

A assistência espiritual não está imune às dificuldades que as pessoas sentem no acesso à saúde. As longas demoras nas urgências, por exemplo, também são motivo de conversa?

Muitas vezes, muitas vezes. Nós escutamos o doente na sua vulnerabilidade. Quando o doente se sente invisível no meio do sistema, torna-se difícil e claro que isso vem à conversa. Eu posso partilhar aqui uma situação de uma doente que já partiu, que já faleceu, mas que se sentiu mal, foi à urgência e esteve quatro dias entre fazer a triagem, fazer os exames e encontrarmos uma cama disponível. E essa cama disponível apareceu nos Capuchos. E foram quatro ou cinco dias, já não me lembro. Cruzei-me com ela, no quarto onde habitualmente visitava uma outra doente, a quem fazia acompanhamento espiritual, cruzei-me com esta senhora a chorar e começámos a conversar. A relação começou a partir daquelas lágrimas. E aquelas eram também lágrimas de felicidade porque finalmente tinha uma cama, finalmente tinha um espaço onde podia descansar. A minha visão é: o difícil no Serviço Nacional de Saúde é entrar. As esperas, a questão das urgências, do INEM, todas as dificuldades que nós vemos são reais, elas acontecem. Percebemos que o Serviço Nacional de Saúde não está dimensionado para a procura que tem, é um facto. Mas entrando, depois já nós conseguimos um bom tratamento; o doente sente-se acolhido, há um serviço belíssimo, os profissionais são espetaculares no acompanhamento, na ajuda. E nós, qual é a nossa missão como capelães e como assistentes espirituais? É escutarmos, acompanharmos a pessoa com cuidado, com carinho, com ternura, ajudar a pessoa a não se sentir anónima, a não se sentir um número no meio de tudo isto, no meio de toda esta realidade, mas, dentro da sua dificuldade, dentro da sua vulnerabilidade, a sentir-se em paz, acolhida. Isso sim, isso é a nossa missão.

 

Padre Jorge, esses rostos de desespero são anteriores à entrada no hospital?

Sim, eu diria que sim. Claro que vem à conversa, mas todas elas entrando dizem maravilhas. Os Capuchos até é um hospital que não tem urgências, que não tem esta dimensão mais de rapidez, porque é um hospital quase de retaguarda do São José. E, portanto, todas as pessoas que saem de lá, as famílias, sentem-se acolhidas e todas elas dizem, realmente que o Serviço Nacional de Saúde é espetacular, porque encontramos um serviço como não há mais lado nenhum, é um facto. Agora, o entrar é que é difícil. A procura e a capacidade do Serviço Nacional de Saúde não é a mesma, entre a procura e a sua capacidade, e por isso eu marco muito isto, que é um serviço muito bom depois de entrar. O que é que vem mais nas notícias? É aquilo que são as emergências, as urgências, e isso sim é uma luta, mas depois entrando tudo fica mais fácil. Eu, como assistente espiritual, já estou na outra fase, já estou na fase em que a pessoa está dentro. E as dificuldades são naturalmente tema de conversa.

 

E certamente que os capelães hospitalares partilham este tipo de angústia do doente, não é?

Claro, no fundo a nossa missão é escutar, aproximarmo-nos com empatia, termos uma relação empática, sermos autênticos e acolhermos, haver um acolhimento da pessoa, sem julgar. Há histórias difíceis, histórias marcantes, histórias de luta interior, mas nós não somos chamados a julgar, somos chamados a escutar, a acompanhar e a ajudar a reconstruir ou construir dignidade na pessoa, porque a pessoa, mesmo estando doente, mesmo estando ali em fases difíceis, não perde a sua dignidade.

 

Acredito que converse com outros colegas sacerdotes que desempenham esta missão. Pergunto-lhe se há uma perceção de que a situação, especificamente daquilo que estava a falar, da dificuldade de acesso na região da Grande Lisboa, é pior do que no resto do país?

Não diria. Daquilo que vou percebendo, há dificuldades em todo o país, não é? É normal que nas grandes cidades a pressão seja enorme, é um facto, mas eu percebo que há dificuldades em todo o país. Mas independentemente de tudo isso, os nossos profissionais de saúde estão sob uma pressão enorme para responder. E eles respondem.

 

E isso é uma questão que queria fazer também, porque o capelão assiste não apenas os doentes, mas também os profissionais…

Claro que sim. E é também uma dimensão da nossa missão, a centralidade do doente, o doente nunca é uma pessoa só, tem uma família à volta e, portanto, também temos o dever de acompanhar a família e os profissionais. Têm-se feito coisas maravilhosas. Eu tenho feito, com alguns profissionais ali dos Capuchos, peregrinações a Fátima, peregrinações a Santiago Compostela, e isso tem ajudado a ajudar os profissionais.

 

E a aliviar a pressão….

E a aliviar a pressão, porque lá está, uma das dificuldades dos capelães, uma dificuldade também de todos os outros profissionais, é este sofrimento acumulado, é esta pressão de termos de responder. E falta muitas vezes o autocuidado. Acredito que nós, capelães, também temos esta missão, não do autocuidado nosso, mas do cuidado dos profissionais, de dar-lhes também esta possibilidade.

 

Como é que se gera o trabalho da assistência religiosa, espiritual, junto daqueles que permanecem no hospital, por não terem família que os possa acolher? Estou a falar dos internamentos sociais…

Olhe, sendo família, escutá-los. Existem casos destes também nos Capuchos, e nós, no fundo, somos também uma família, e digo somos, falo no plural porque não sou só eu.

 

São muitos casos nos Capuchos?

Não são muitos, não são muitos, mas há um ou outro. Estou a pensar em um ou outro caso que já lá está há muito tempo, que são casos que têm se ser geridos…

 

Quando diz muito tempo, é mais de meio ano, um ano?

Mais de meio ano, mais de meio ano, por aí. Mas nós somos família, e o que é que eu quero dizer com este nós, é que não sou só eu. Tenho voluntários que vão levar a Comunhão, que vão escutar, que vão conversar, que vão dialogar, no fundo somos a família destas pessoas.

E depois como é que se gere este trabalho? Trabalhando em equipa, ou seja, vamos escutando, vamos falando, principalmente com o serviço social, e é verdade que o serviço social também entra aqui, e nós procuramos trabalhar em conjunto, em equipa, e isso é muito bonito, porque vamos dando sugestões e orientações.

Muitas vezes o serviço social pede para eu ir falar com esta ou aquela pessoa, para nós conseguimos entender bem como é que se pode ajudar. Portanto, há assim um trabalho em equipa, e depois com os serviços. Estes casos sociais só se conseguem ir resolvendo em equipa, com o trabalho de equipa, e isso é um bocadinho o que nós vamos fazendo ali.

 

Falemos da mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial do Doente, que acaba de ser divulgada. O Papa usa a figura do Bom Samaritano, que para e dá do seu tempo, como contraponto a uma cultura da pressa. Nós temos ritmos clínicos muito veementes, até pelas necessidades de urgência. Como é que se contraria essa lógica da pressa para se entrar no cuidado?

Isso é uma dificuldade, porque muitas vezes não se consegue fazer uma assistência espiritual e religiosa a todos. Porque não se chega a todo lado, mas o que eu vejo é, sempre que estou com um doente ou um familiar, eu estou. Na semana passada estava lá nos serviços, e recebi uma mensagem de uma enfermeira da equipa intra-hospitalar dos cuidados paliativos, da qual também faz parte na ULS São José, a dizer-me “há uma doente que estava a partir”, estava mesmo na última hora, literalmente na última hora, e ela pediu-me para eu ir lá, não para falar com a doente, porque a doente já não falava, já estava sedada, já tinha havido um trabalho com a equipa dos cuidados paliativos, já tinha havido um trabalho com toda aquela doente, mas uma irmã tinha vindo, estava destruída junto à doente. E eu chego e a irmã diz-me: “oh padre, só o padre para fazer um milagre”. E eu disse, “então o que é que para si o milagre?”. E sentámo-nos. Naquela manhã, eu estive duas horas com esta irmã a conversar, foi um momento importantíssimo, porque a doente acabou por partir, literalmente à nossa frente, e a senhora estava em paz. Foi uma manhã em que eu deixei de visitar doentes, porque estive duas horas com aquela situação, com aquela irmã, com aquela doente. Ou seja, no fundo, o que nós fazemos na Capelania é olhar a pessoa e é só aquela pessoa.

E eu quando chego a uma cama, a primeira coisa que procuro é uma cadeira para me sentar. Mesmo que esteja pouco tempo, mas sentar-se é importante, ou seja, estar lá. Uma vez fui a São José, um quarto que estava com muitas camas, e não via cadeiras, e comecei assim a olhar, e a doente com que eu ia falar disse: “está a procurar uma cadeira, já percebi, está aqui fora, vá ali fora que encontra”.

Há uma pressa, há tudo, mas eu procuro é aquela pessoa e estar ali. A nossa missão é diferente. Na missão dos médicos, dos enfermeiros, dos assistentes operacionais, dos psicólogos, do serviço social, aí sim é uma pressão enorme.

No fundo também procuro que a Capelania seja o contraponto, ou seja, que o doente perceba que nós estamos ali só para eles. E mesmo quando eles partilham comigo, “ah, mas andam sempre a correr…” eu procuro validar, procuro validar o que a pessoa diz: é verdade, andam sempre a correr, e eu procuro combater essa pressa, ajudando também os outros profissionais que esses, tem uma grande luta.

 

No encerramento da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, gostaríamos de saber como é o trabalho, digamos, em rede, com os assistentes religiosos de outras confissões, e mesmo religiões…

Vê-se aqui a unidade, vê-se aqui a unidade dos cristãos no hospital, e vê-se o diálogo inter-religioso. Nós fazemos essa ponte, ou seja, quando os serviços, ou quando o doente pede, ou quando o serviço pede assistência espiritual e religiosa, da sua igreja, ou, da sua religião, nós fazemos essa ponte, e chamamos. Temos os contactos, e vou falando, e vamos chamando, e no fundo é essa também a nossa missão. E, também, para nós, que lá estamos, é acompanhar.

Aquilo que fazemos com os católicos, fazemos com todos, como eu dava o exemplo da Capela dos Capuchos, toda a gente entra lá e sente-se acolhida. E depois, o nosso trabalho privilegia o diálogo inter-religioso e o diálogo ecuménico, que é, conversamos, chamamos, vêm e entram a hora que for. Uma vez, com o xeque David Munir, chamei-o para um doente muçulmano, e ele disse-me que só conseguia ir mais tarde, já depois da hora da visita. Eu disse: “vem à hora que puder, à hora que conseguir, para dar esta assistência espiritual a este doente”. No fundo há um trabalho em rede. Nós temos os contactos, e vamos assim fazendo esta ponte.

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