Cultura: Beleza, silêncio, respiração e diálogo emocional com a orquestra a Inteligência Artificial «ainda não dá» – Joana Carneiro

«Não a vejo como uma ameaça, eu vejo como um aspeto do nosso mundo», destacou a maestrina portuguesa

Foto: Agência ECCLESIA/LS

Fátima, 17 jan 2026 (Ecclesia) – A maestrina Joana Carneiro, que falou hoje sobre ‘direção musical para além do algoritmo’, afirmou que a música “é um bom exemplo de muitas das fronteiras” da inteligência artificial, onde “ainda é muito difícil” fornecer a beleza, silêncio.

“Neste momento, a escuta e a gestão do silêncio e das nuances que a emoção e o pensamento e o intelecto podem trazer à música, acho que é difícil que a Inteligência Artificial (IA) consiga juntá-las com eficácia no tocar de uma orquestra, num todo, de uma forma que tenha grande sucesso, embora existam alguns exemplos com robôs com algum sucesso”, disse a maestrina, em declarações aos jornalistas, na Jornada Nacional da Pastoral da Cultura 2026, em Fátima.

Joana Carneiro não vê a IA “como uma ameaça” para o músico, nem para o maestro, mas “como um aspeto do mundo”, e considera que “bem direcionada, bem regulamentada e segura”, pode ser uma forma de os criadores e recriadores chegarem “mais além, sempre construindo qualquer coisa de bom e de útil para o mundo e para a criação”.

“A grande preocupação é que tem que ser vista com segurança e com regulação para que seja canalizada da melhor forma. Para mim pode ser um instrumento muito interessante do ponto de vista até do conhecimento. Eu que não sou criadora, pode-me dar acesso a informação que desconhecia e de uma forma muito rápida”, desenvolveu.

“Eu creio que é uma fronteira que a inteligência artificial ainda não consegue gerir, muito porque as experiências, me parecem, unidirecionais. Ou seja, há um robô que se relaciona com a orquestra mas não recebe o feedback, e não consegue ainda gerir o feedback de uma forma parecida com a experiência humana dessa linguagem não verbal, e dessa emoção que nós trazemos e que canalizamos depois em articulação, em intensidade, na respiração, nas nuances do tempo para a música”, explicou.

Questionada sobre a fronteira na emoção que um robô pode ou não dar na construção de uma orquestra que o maestro em si exprime, a maestrina afirma que “a questão da emoção é importante”, em primeiro lugar porque a relação do maestro com uma orquestra “é de diálogo, muitas vezes não-verbal, no olhar, na escuta”, e a emoção muitas vezes é transmitida “não só no gesto do compositor”.

A maestrina convidou a refletir sobre a forma de utilização da IA na “criação”, sem substituir o humano mas “ajudando a criar cada vez com mais beleza e com mais possibilidades”.

Joana Carneiro dirigiu a Orquestra e Coro da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, em 2023, e conta que o seu ChatGPT, uma ferramenta conversacional online com inteligência online, diria que “muito dificilmente alguma experiência possa superar a oportunidade que foi juntar essas valências todas”, dimensões que conferem “experiências de comunidade, de beleza e uma dimensão espiritual”.

“A música é um bom exemplo de muitas das fronteiras que a inteligência artificial, porque tem a ver com esta experiência humana de cidadania e de convivência das nossas emoções, e de como nós tornamos prioritário aquilo que nos é importante.”

O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), realizou este sábado, dia 17, a sua 19.ª jornada nacional, este ano com o tema ‘Para além do algoritmo’, na Domus Carmeli, em Fátima.

LS/CB

Foto: Archidiócesis de Toledo; catedral de Toledo

A delegada da Arquidiocese de Toledo (Espanha) para a Fé e Cultura, diocese com 350 comunidades paroquiais, apresentou nestas jornadas ‘A beleza da fé: um novo diálogo através de exposições de arte sacra contemporânea’, e destacou à Agência ECCLESIA que organizam, há alguns anos, exposições de arte e convidam artistas atuais para “criar obras de arte religiosa para falar ao homem de hoje”.

“Os temas são religiosos, Cristo, a virgem, São José, mas com a estética contemporânea, não só reunimos obras de arte, mas as obras dialogam entre si. A exposição é outra obra de arte. Para comover, sacudir, chamar muito a atenção do homem de hoje que está sem capacidade de contemplação, está stressado, ferido, hipermotivado”, explicou Pilar Gordillo.

A Pastoral da Fé e Cultura da Arquidiocese de Toledo cria um ambiente com música, “com cheiros, com muita beleza estética”, e fazem dialogar as obras de arte – pintura, escultura, vídeos, instalações – para que o visitante “seja interpelado”, e se possam curar as feridas “com a linguagem da beleza, com o conteúdo da dignidade que dá a arte cristã e o Evangelho que não conhece”.

“Trabalhamos para as paróquias, mas, sobretudo, trabalhamos para o turista que passa por Toledo, que é uma cidade de turismo massivo, com 2 milhões de turistas ao ano, e muitas pessoas que não entrariam nas igrejas, entram para ver uma exposição, porque é gratuita, porque está no seu caminho, porque me vou sentar e descansar, e, graças a isso, podemos estabelecer esse diálogo com os afastados, e, ao mesmo tempo, impulsar o arte contemporâneo para a Igreja”, desenvolveu Pilar Gordillo.

Para a delegada pelo setor da Cultura da Arquidiocese espanhola de Toledo a “Igreja tem de perder o medo da arte contemporânea”, e sair para ir buscar os artistas e propor que façam obras de arte para as igreja contemporâneas, que têm “uma arquitetura atual, mas a pintura e a escultura dá medo”, porque recorre-se “ao barroco, aos estilos antigos”.

“O homem de hoje necessita da linguem de hoje, São José tem de ser um pai terno, que pode levar o filho aos seus ombros, porque são assim os pais de hoje. Há muitas temáticas que não estão na iconografia tradicional da arte cristã, e tem de representá-las, porque o homem hoje tem outra sensibilidade, tem outros problemas, precisa de novos criadores, e os artistas têm de receber esse encargo da Igreja”, acrescentou Pilar Gordillo, destacando também a importância de existirem pessoas nas igrejas – um teólogo, o pároco, um paroquiano, uma pessoa de fé -, que acompanham esses mesmos criadores, porque muitos “não são religiosos, não têm vida espiritual”.

 

 

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