Portugal: Nova «Carta Ecuménica» desafia Igrejas a rejeitar «instrumentalização» da fé e a «abrir a mesa» aos imigrantes – Sandra Reis

Presidente da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal alerta para divórcio entre «cúpulas» e comunidades, pedindo que documentos não fiquem «a apanhar pó»

Lisboa, 18 jan 2026 (Ecclesia) – A presidente da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal (IEPP) afirmou que a nova Carta Ecuménica, que vai ser lançada esta terça-feira em Lisboa, exige a recusa da xenofobia e da “instrumentalização da fé”, num contexto europeu de polarização.

“Eu sou de uma geração que aprendeu a dizer ‘não’ à xenofobia, aprendi a dizer ‘não’ a respostas fáceis (…), mas a cada dia que passa, a vida vai-me mostrando que estou muito longe daquilo que aprendi”, lamentou Sandra Reis, criticando a falta de humildade de quem rejeita quem chega.

A convidada da entrevista semanal conjunta ECCLESIA/Renascença fala no arranque da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que se assinala de 18 a 25 de janeiro.

A responsável, que integra a direção do Conselho Português de Igrejas Cristãs (COPIC), sublinha a urgência de atualizar os compromissos assumidos em 2001, para que não fiquem “dentro da gaveta”.

Questionada sobre o contexto de polarização na sociedade europeia, a pastora admitiu que a Carta Ecuménica é uma forma de rejeitar a “instrumentalização da fé” para justificar a violência ou a xenofobia.

Para Sandra Reis, o acolhimento de imigrantes e refugiados é um teste à credibilidade cristã, num país que é, historicamente, um “povo de imigrantes”.

“É preciso abrir espaço para essas pessoas, esse deverá ser o primeiro sinal visível do Reino da unidade: ainda que sejamos diferentes, nós temos espaço para os outros que chegam”, sustentou, acrescentando que proteger os direitos dos estrangeiros é “proteger os próprios direitos”.

A nova versão da Carta Ecuménica, assinada pela Conferência das Igrejas Europeias (CEC) e pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), procura responder aos novos desafios do continente, mas a pastora presbiteriana alerta para a dificuldade de fazer chegar estes documentos às bases.

“A nossa vontade de querer construir pontes é muito maior do que aquilo que realmente temos atingido”, admitiu, referindo que muitas vezes o entendimento ecuménico fica “nas cúpulas, nos hierarcas, e não vem para as comunidades locais”.

A entrevistada deu como exemplo o reconhecimento comum do Batismo, assinado há vários anos em Portugal, mas que continua a ser desconhecido por muitos fiéis, levando a exigências de rebatismo indevidas.

“Se não se lê, não ganha vida, se não se fala sobre ela, se não se faz alguma coisa, então é mais um livro, é mais um documento a apanhar pó, infelizmente”, alertou, a respeito da receção da nova Carta Ecuménica.

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos celebra-se este ano com o tema “Há um só corpo e um só espírito” e Sandra Reis deixa o convite à participação nas celebrações locais, descritas como momentos de “bênção” que tornam o mundo “mais pequeno, porque ficamos mais próximos uns dos outros”.

A apresentação pública da Carta Ecuménica em Portugal decorre na próxima terça-feira, numa iniciativa conjunta do COPIC e da Conferência Episcopal Portuguesa.

OC

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