Migrações/Portugal: «Igrejas podem ter um papel muito importante» – pastora Sandra Reis

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos começa hoje, em Portugal, e fica marcada pela apresentação pública da nova versão da Carta Ecuménica, assinada em novembro, pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa e pela Conferência das Igrejas Cristãs Europeias. O documento atualiza os compromissos das Igrejas, 24 anos depois da versão original. Para nos ajudar a perceber estes desafios, conversamos com a presidente da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal e que integra o COPIC (Conselho Português de Igrejas Cristãs)

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

O COPIC e a Conferência Episcopal Portuguesa vão lançar na próxima terça-feira a nova Carta Ecuménica 2025. O documento original era de 2001. O mundo e a Europa mudaram muito nestes anos. Era, de facto, urgente atualizar este compromisso? Que novas dores da Europa, digamos assim, é que esta Carta vem identificar e exigem uma resposta unida das Igrejas?

Ainda que nós vejamos a mudança, a mudança vai muito para além daquilo que nós vemos e daquilo que nós sentimos nas nossas próprias vidas, porque há realidades que negativamente são afetadas por essas mudanças. E, de alguma forma, ainda que a Carta já tenha bastantes anos, os compromissos que fazemos tendem a esmorecer, tendem a ficar dentro da gaveta. E era importante, de novo, olhar para aquilo que nos comprometemos e dar-lhe nova vida, porque o temos de fazer. Um dos versículos de que eu gosto muito é “eis que faço novas todas as coisas”. Nós precisamos desta força da renovação. E só o fazemos quando refletimos sobre as coisas, quando de novo e mais uma vez somos confrontados com circunstâncias que existem e que muitas vezes nos passam ao lado. Nós acabamos por viver no nosso cantinho, com as nossas preocupações diárias, com as nossas rotinas, com as nossas atividades e, depois falta a visão conjunta, a missão conjunta. Às vezes até estamos a trabalhar para a mesma coisa, mas fazemo-lo separadamente, isso não faz sentido de todo.

 

O documento fala no contexto de guerra, deslocações e populismo, e rejeita o uso indevido da religião. Vivemos num contexto de polarização: esta Carta é também uma forma de as Igrejas na Europa dizerem que basta de instrumentalização da fé para justificar, por exemplo, a violência ou a xenofobia?

A minha resposta é sim. Eu sou de uma geração que aprendeu a dizer “não” à xenofobia, aprendi a dizer “não” a respostas fáceis, aprendi a liberdade, cresci em liberdade, mas a cada dia que passa, a vida vai-me mostrando que estou muito longe daquilo que aprendi, daquilo que eu achei que era uma utopia. Eu não sei se estas questões são propriamente novas, porque a migração, ainda que não em massa como agora, sempre existiu, de uma forma diferente, noutros contextos. O que dói é perceber como as pessoas, o ser humano – acho que nenhum de nós se pode excluir -, responde com tanta facilidade e resolve com tanta facilidade os problemas. A questão da imigração, por exemplo: nós somos um povo de imigrantes, desde sempre, na nossa história. Se formos às casas dos nossos crentes, das pessoas que estão mais perto de nós, há poucas famílias, mas muito poucas, que não tenham alguém imigrado. E depois somos capazes de olhar para os outros e dizer, “eles não estão aqui a fazer nada”. E nós, estamos onde? Então, é muita falta de humildade da nossa parte achar que os outros não têm espaço, não conseguirmos conviver com essa realidade. E infelizmente, este sentimento não é só de pessoas que se dizem ateus ou que estão fora da Igreja, dentro das próprias Igrejas nós ouvimos isto e é algo que dói.

 

O texto da carta ecuménica afirma explicitamente a dignidade de cada ser humano, denunciando precisamente a migração forçada e o tráfico humano. Portugal vive uma realidade intensa de acolhimento de imigrantes, como referiu. A defesa das comunidades migrantes tornou-se um imperativo para as Igrejas em Portugal? Como é que, na prática, as comunidades podem passar do papel à ação no acolhimento de quem chega?

Primeiro temos de ser nós a acolher, e, embora haja muito a ideia de que o povo português é muito acolhedor, nós temos muito a aprender sobre a importância de acolher e como acolher o estrangeiro. As Igrejas podem ter um papel muito importante. Normalmente, quando estamos a falar de Igrejas, estamos a falar de comunidades que partilham a vida, que partilham a mesa, que comungam juntos. É preciso abrir espaço para essas pessoas, esse deverá ser o primeiro sinal visível do Reino da unidade: ainda que sejamos diferentes, nós temos espaço para os outros que chegam. As pessoas que vêm de fora muitas vezes não vêm porque querem vir, há algo que as força a sair do seu país, e estas são, na minha perspectiva, as situações muito mais dramáticas. Há pessoas que o fazem, é uma escolha, “é isto que eu quero”, mas outros são obrigados.

Diria que o primeiro passo é abrir a nossa mesa, dar um espaço, dar um lugar para aquele que entra, e dizer, “tu aqui tens lugar”. Depois, com tanta burocracia que é necessário para se tornar legal dentro do país, essa já seria uma parte mais prática também: acolher esses mesmos imigrantes, proteger os seus direitos, porque quando nós protegemos os direitos deles – estrangeiros, refugiados, imigrantes – estamos também a proteger os nossos próprios direitos.

 

Com a chegada de muitos imigrantes que vêm de outras tradições cristãs, do Brasil, da África, da Ásia, o próprio rosto do ecumenismo em Portugal está em mudança? As comunidades que têm uma tradição de diálogo, estão preparadas para esta diversidade dentro da fé cristã, e para a convivência no mesmo território agora de tantas Igrejas novas?

Eu não sei se há propriamente mais Igrejas novas. Eu tenho visto Igrejas a crescer efetivamente com muitos imigrantes, mas eu não tenho essa perceção, ou pelo menos aqui onde eu estou, eu não tenho propriamente essa perceção.

 

Estamos a falar de mais pessoas de outras tradições. Para um país que tem um determinado perfil da vivência cristã, isso também é um desafio para a forma como se vive o ecumenismo…

Em relação à comunidade cristã, há espaço para todos, há tantas Igrejas, há tantos espaços, e há tanta liberdade para o culto, mas a verdade é que eu não sei até que ponto é que alterou a vivência do ecumenismo. Se nós formos olhar para as atividades ecuménicas em Portugal, eu não diria que as mãos dos meus dedos dão para as contar, mas também são relativamente reduzidas. Isto não é uma crítica, porque eu acho que é importante que estejamos juntos, que possamos conversar sobre várias questões que nos unem, não sobre aquilo que nos separa, porque nós sabemos o que nos separa, mas também saber e conhecer o outro, “eu conheço, respeito e aceito a tua forma de estar na Igreja”.

Não sei até que ponto, dentro do cristianismo, isso se altera muito, porque nós estamos a falar de Igrejas mais conservadoras, em que efetivamente a questão do ecumenismo não é aceite no sentido de unidade. Estamos juntos, não fazemos proselitismo, respeitamos a forma de orar, de louvar do outro, e também não estamos ali para discutir a nossa teologia. Estamos ali para comungar naquilo que nos é comum e eventualmente perceber que caminhos é que podemos fazer juntos. Foi algo que já fizemos, e demorou bastantes anos, até assinarmos o reconhecimento comum do Batismo, dentro das comunidades cristãs, e efetivamente, neste momento, não são tantas as Igrejas que aderem dentro das Igrejas evangélicas reformadas, as igrejas que estão ativamente a promover e a viver aquilo que nós chamamos de ecumenismo, a semana de oração, que estão a pensar em fazer caminhos juntos. Na verdade, estamos a falar da Igreja Católica e estamos a falar das Igrejas reformadas, históricas. As outras Igrejas mais dificilmente falam sobre ecumenismo, embora também tenham vindo a fazer a sua caminhada, no sentido de conhecer o outro, de estar com o outro, ainda que pontualmente, como aliás fazemos nós também. Cada Igreja, católica, protestante, evangélica, tem as suas atividades, tem a sua forma de estar e nós não queremos, esse não é o objetivo do ecumenismo, fazer uma amálgama com as confissões existentes, mas sim olhar o outro, respeitar o outro, estar com o outro e viver em conjunto.

 

Acabámos de viver em 2025 um ano especial: comemoraram-se os 1700 anos do Concílio de Niceia. Houve muitos gestos fortes ao longo do ano, que uniram as várias confissões, mas de facto, sente que as Igrejas deram passos reais de aproximação, ou continuamos apenas nos gestos simbólicos sem conseguir resolver, por exemplo, a questão da data comum para celebrar a Páscoa?

No ano passado estive no Conselho Reformado de Igrejas Cristãs. Há algum esforço, e eu vejo efetivamente esforços a nível dos responsáveis das Igrejas, a nível mundial, a nível nacional, a tentar levar as pessoas, a tentar dar mais um passo à frente, mas acho que a nossa vontade de querer construir pontes é muito maior do que aquilo que realmente temos atingido.

Porque depois, estas decisões, estas partilhas, este entendimento, eu não sei se não acaba por ficar muito nas cúpulas, nos hierarcas, e não vem para as comunidades locais. Então falta-nos dar esse passo também, que nas comunidades cristãs isso se torne também uma realidade. O ecumenismo é ao nível das bases, então temos um muito longo caminho por fazer, porque a Igreja não são só os hierarcas, as cúpulas, não são só as pessoas que lideram, a Igreja são as pessoas. Se as pessoas não estão neste movimento… e eu não acho que seja difícil, mas olhando para a vida concreta, a verdade é que muito poucas pessoas em Portugal sabem que nós assinamos o reconhecimento mútuo do Batismo. Muitas vezes acontece perguntarem: “mas de que Igreja é? Não, Batismo não, se não for batizado nesta Igreja, ou não aceitamos, ou tem de ser batizado efetivamente”.

Portanto, há coisas que acontecem e há protocolos que assinamos, sentamo-nos na mesma mesa, comemos na mesma mesa e partilhamos as nossas preocupações, efetivamente definimos algumas orientações, mas depois, como acontece com a Carta Ecuménica, às vezes não se lê, assim como a Bíblia: se não se lê, não ganha vida, se não se fala sobre ela, se não se faz alguma coisa, então é mais um livro, é mais um documento a apanhar pó, infelizmente.

 

Entre 18 e 25 de janeiro celebra-se a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, este ano com o tema “Há um só corpo e um só espírito”. Que convite, que desafio gostaria de deixar a quem nos está a ouvir, para viver esta semana de oração que hoje se inicia?

Se tiverem por perto uma celebração, participem, experimentem. Aqui na zona Centro nós fazemos celebrações todos os dias, de segunda a sexta-feira, e às vezes também ao sábado, e ainda que usemos a mesma liturgia, temos as homílias diferentes, cada dia é único, cada dia é especial, cada celebração traz algo de novo e traz reencontros. Com o passar do tempo nós percebemos que, mesmo passado um ano da última vez, encontramos aquela pessoa que nós conhecemos numa determinada celebração, lembramos o momento em que partilhámos a luz, lembramos o momento em que partilhámos um chá no final e conversámos sobre coisas em comum, O desafio é: se tiverem alguma celebração por perto, participem, experimentem, são experiências únicas, e que marcam a nossa vida, marcam a vida.

Eu tenho várias boas recordações de pessoas que tenho conhecido ao longo destes anos, durante as semanas ecuménicas, e pessoas de quem me tornei próxima. É uma bênção, é uma bênção, porque nós alargamos e o nosso mundo fica maior, mas o mundo fica mais pequeno, porque ficamos mais próximos uns dos outros.

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