Pe. Marselus Anggo, Missionário do Verbo Divino
A missão da Congregação do Verbo Divino nas paróquias rurais de Santa Bárbara de Mogincual e São Francisco Xavier de Liupo, diocese de Nacala, norte de Moçambique, colocou-nos diante de interrogações profundas, nascidas da convivência diária com o povo e da sua luta pela sobrevivência: Por que razão vivem tantas famílias sempre no limite? Por que regressa a fome, sobretudo no tempo seco?
Estas perguntas surgiram nas aldeias, junto das machambas, durante conversas simples com agricultores que lutam pela sobrevivência. Foi então que percebemos que o Evangelho não pode ser anunciado apenas com palavras; é necessário ouvi-lo e vivê-lo na realidade concreta das pessoas. Como nos recorda a Escritura: “Vi a aflição do meu povo […] ouvi o seu clamor […] e desci para o libertar” (Ex 3, 7-8).
Nesse espírito de escuta, realizámos uma pesquisa pastoral com animadores e responsáveis de cerca de 64 comunidades, refletindo juntos sobre a produção agrícola, as despesas familiares e os fatores que fragilizam a economia doméstica, bem como sobre a saúde, a educação e as cerimónias culturais. O resultado foi claro: muitas famílias gastam mais do que conseguem produzir.
Assim nasceu a Pastoral da Agricultura, integrada no plano pastoral paroquial como um caminho simples, construído com o povo e profundamente enraizado na sua vida. O objetivo não era substituir outras pastorais, mas sim complementar a evangelização, ajudando as famílias a cuidar da terra, a gerir a sua economia e a fortalecer a esperança. Como está escrito, “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).
Esta experiência está em sintonia com os ensinamentos do Papa Francisco, que afirma: “Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Evangelii Gaudium, n.º 176). Tornar o Reino presente significa promover a dignidade, valorizar o trabalho agrícola e fortalecer a autonomia das famílias.
As formações começaram com o despertar da consciência económica, apresentando os dados, muitas vezes nas machambas. No entanto, surgiam perguntas profundas que se transformavam em oportunidades de aprendizagem. Partilhámos técnicas acessíveis, como o cultivo da mandioca em linha, a diversificação das culturas e a plantação de árvores frutíferas, como sinais concretos de esperança.
Com o tempo, tornou-se evidente que cuidar da terra é também um ato de fé. O Papa Francisco recorda que “cultivar e guardar” a terra implica uma relação de responsabilidade e cuidado (Laudato Si’, n.º 67). Trabalhar a criação de forma consciente passou a ser entendido como uma corresponsabilidade cristã, visto que “ao Senhor pertence a terra e o que nela existe” (Sl 24, 1).
Anos mais tarde, ao ouvir os testemunhos, confirmámos que a Pastoral da Agricultura foi vivida como uma pastoral próxima, encarnada e transformadora. Tal como o Papa Paulo VI recorda, “[…] a evangelização não seria completa se não considerasse a interpelação recíproca […] entre o Evangelho e a vida […]” (Evangelii Nuntiandi, n.º 29). O Evangelho fez-se carne no trabalho da terra, na partilha de conhecimentos e na esperança renovada de uma vida mais digna.
Tudo isto foi vivido com humildade, seguindo o ensinamento de Santo Arnaldo Janssen, Fundador dos Missionários do Verbo Divino: “Podeis confiar onde encontrardes humildade” (Vademecum SVD, 364). Uma humildade que reconhece que é Deus quem faz crescer a semente lançada com amor (cf. 1 Cor 3, 6).
Pe. Marselus Anggo
Missionário do Verbo Divino
Em Parceria com a Missão PRESS (mensalmente no dia 24)
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