Ecumenismo: Nova «carta ecuménica» mostra que «lógica da força, do poder, das armas, não é de todo a lógica cristã» – João Luís Fontes

Professor de História e investigador do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, envolvido no movimento ecuménico desde o final dos anos 90, diz que o «mistério não se fecha em confessionalidades» e que cabe às Igrejas cristãs divulgarem os novos alertas feitos em conjunto dentro das suas comunidades e à sociedade em geral

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 14 jan 2026 (Ecclesia) – João Luís Fontes, católico envolvido no movimento ecuménico desde o final dos anos 90, apontou a Carta Ecuménica, assinada pelas Igrejas cristãs em Portugal, como um sinal dado à sociedade sobre a “necessidade de enveredar por outro caminho”.

“Esta lógica da força, do poder, das armas, não é de todo a lógica cristã, e nem é a lógica das religiões. As religiões devem, podem e devem ter um papel muito importante até para dissuadir extremismos que muitas vezes invocam precisamente motivações religiosas, mas em todos os encontros interreligiosos vamos encontrar a ideia de que a verdadeira religião leva à paz”, aponta à Agência ECCLESIA o professor de História e investigador do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa.

O Conselho das Conferências Episcopais da Europa e a Conferência das Igrejas Europeias, que representam centenas de milhões de cristãos na Europa, assinaram, em Roma, em novembro, uma nova versão da “Charta Oecumenica” (Carta Ecuménica), de 2001, que reflete sobre o “panorama social, espiritual e ecológico em evolução da Europa”; 24 anos depois, o documento, que vai ser apresentado na UCP no dia 20, atualiza tema como a paz e a reconciliação, o acolhimento de migrantes e refugiados, o apelo urgente à salvaguarda da criação e o aprofundamento das relações com as comunidades judaica e muçulmana, por parte dos cristãos.

João Luís Fontes afirma ser necessário, num mundo polarizado, “tornar o discurso cristão credível” de forma a provar “o lugar que Deus tem na vida das pessoas”.

O nosso testemunho torna-se muito mais credível quando ele é feito em conjunto, porque hoje, se quisermos ser verdadeiros, a grande questão não é esta ou aquela expressão do cristianismo, mas se Deus ainda tem lugar na vida das pessoas. O nosso testemunho conjunto é fundamental para ser credível, em primeiro lugar.”

O historiador fala no movimento ecuménico “não como uma vontade de alguns”, mas como “um desejo do próprio Jesus”: “Que sejamos testemunho de fraternidade, de unidade, mesmo respeitando a legítima diversidade das diversas comunidades, mas procurando manter-nos unidos no essencial”.

“É um desafio às Igrejas perceberem como podem alertar e dar a conhecer às suas comuniaddes, e à sociedade no seu conjunto, este posicionamento neste contexto difícil em que vivemos”, indica.

A carta original foi assinada em 2001 e, 24 anos depois, a nova versão da Carta Ecuménica traz um olhar sobre a realidade europeia onde “cerrar fileiras, marcar identidades e a lógica da oposição” se instala.

A carta ecuménica quer relembrar como estes novos discursos de cerrar fileiras, e o emergir de discursos xenófobos ou de radicalização contra os imigrantes, contra os que têm pertenças religiosas diferentes das nossas, como isto não tem nada a ver com o cristianismo.”

“Não podemos utilizar o religioso, seja o cristianismo seja outras expressões religiosas, e por isso a questão tão importante do diálogo interreligioso que aparece no documento e a forma como esse diálogo, não só o diálogo entre as Igrejas, mas das diferentes tradições religiosas, é fundamental para a paz”, acrescenta.

João Luís Fontes diz que o “mistério” não se fecha em “confessionalidades” mas se “insinua na vida de todos”.

“Recordo o irmão Roger, e a experiência da Comunidade Ecuménica de Taizé, quando ele dizia que ‘Cristo não veio propor uma religião mas uma comunhão.’ A comunidade propõe uma experiência concreta do que é ser de Igreja com o essencial: as pessoas, a palavra e com a Eucaristia”, indica.

O despertar para o caminho ecuménico entre Igrejas teve início na paróquia de A-dos-Cunhados, em Torres Vedras, quando João Luís Fontes era adolescente e conheceu o testemunho da pastora Eva Michel, da Igreja Presbiteriana, que cresceu na Alemanha “dividida entre protestantes e católicos, que faziam tudo em conjunto”, separando-se apenas para o culto ao domingo.

A conversa com João Luís Fontes pode ser acompanhada esta noite no programa ECCLESIA, na Antena 1, e no podcast «Alarga a tua tenda».

LS

Portugal: Igrejas Cristãs lançam «Carta Ecuménica 2025»

Partilhar:
Scroll to Top