LUSOFONIAS – A forja dos futuros missionários

Tony Neves, em Ngoya, Obout e Mbalmayo

Sou um bom pagador de promessas, prometi e cumpro! A viagem de Bertoua para Yaoundé foi digna de início de crónica. Os primeiros 108 kms, de Bertoua até Abong Mbang decorreram sem grandes percalços, viajando dentro de uma Toyota pensada para nove lugares. A condução pareceu-me responsável e em duas horas chegamos, depois de passar por Doumé, sede da Diocese fundada pelos Espiritanos.

Mas, de Abong Mbang a Yoaundé tive direito a 223 longos kms, com muitos camiões em sentido contrário, ora carregados de troncos, ora com enormes contentores. Aí o chauffeur quis mostrar toda a sua classe e fez ultrapassagens e mais ultrapassagens, daquelas que não passam em nenhum exame de código. Eu ia no lugar da frente e só imaginava aqueles grandes camiões a entrar pela nossa carrinha adentro. Várias vezes perdi a respiração, mas voltei a ganha-la quando olhava para o lado e via o motorista feliz a consultar o seu telemóvel.

Devo confessar que, apesar de tudo, estas viagens enchem-me as medidas pela alegria que noto nas pessoas que percorrem a pé as estradas, pelas crianças que brincam nas aldeias, pelos mercados de rua que correspondem, mais ou menos, ao número de casas, pela beleza das paisagens que ganham novo colorido quando se aproxima o pôr do sol.

Há na estrada muitos camiões, carros, motas e pessoas a pé. Vê-se muita mandioca a secar junto à rua ou à venda. O mesmo se diga de carvão, inhames, lenha. Há muita banana, sendo a maioria para cozinhar. A aproximação das aldeias é anunciada pelas mangueiras enormes, infelizmente sem fruto nesta época. Os palmeirais e milheirais são frequentes, assim como os campos de mandioca e as plantações de cacau. Há muitas árvores, na maioria, altas e esguias, dando elegância à paisagem que pinta o céu de verde ondulante… O verde é, sem concorrência possível, a cor predominante da paisagem por onde quer que andemos. Nas estradas de terra batida há que destacar também o laranja da terra que está no chão ou voa sob a refinada forma de poeira. É igualmente simpático ver o povo sentado à sombra da soleira da porta e debaixo de enormes mangueiras em alegre cavaqueira.

Mas também há dados mais estranhos. Como quase não há cemitérios públicos, cada família enterra os seus mortos onde quer e muitas decidiram sepultar os familiares em frente à porta principal da casa, junto à estrada nacional. E é curioso ver faixas a atravessar a estrada com os seguintes dizeres: ‘Bienvenue aux obsèques de mr. Joseph’, convidando para os velórios…

Cheguei são e salvo a Yaoundé e comecei uma etapa desafiante: a visita às Casas de Formação dos Espiritanos de toda a África Central.

Comecei na belíssima e arborizada colina de Ngoya onde 30 jovens ultimam a sua preparação para serem missionários. Vão às aulas de Teologia na Faculdade, em Yaoundé e vivem o seu dia a dia num espaço de sonho, com vistas belas sobre outras colinas que se situam em frente. Há jovens camaroneses, centro-africanos, gaboneses, congoleses (de Kinshasa e de Brazzaville) e de Madagáscar. Foi fascinante encontra-los, escuta-los e só faltou coragem para enfrentar o calor e ir jogar futebol com eles…

Dali fui até Obout, onde funciona a primeira etapa da formação de futuros missionários, num antigo Mosteiro Trapista, no meio da floresta tropical. Ali estão seis jovens camaroneses, numa etapa que se deve ainda fazer a nível nacional.

Finalmente rumei a Mbalmayo, uma diocese satélite da capital. Lá funciona o chamado ‘Ano de Noviciado’, uma espécie de rito de iniciação à Vida Religiosa e Missionária. O ambiente é muito acolhedor, a animação desta etapa formativa é muito rigorosa, o que permite um sábio discernimento e uma correta decisão no fim do ano. Esta tripla visita a Casas de Formação permitiu-me ver, escutar e partilhar experiências sobre o quão importante e difícil é formar novas gerações de missionários.

A próxima dose de visitas é bem mais transpirante: sigo para norte onde, a partir de Maroua, visitarei as missões Espiritanas nesta parte norte e tórrida dos Camarões, lá onde os muçulmanos são maioria mais que absoluta. Quando regressar a Yaoundé, após mais um banho, direi como foi rica esta ida ao norte.

Tony Neves, em Ngoya, Obout e Mbalmayo

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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