Fátima acolheu encontro nacional das comissões diocesanas

Braga, 09 jan 2026 (Ecclesia) – O coordenador da Pastoral da Saúde na Arquidiocese de Braga alertou hoje, em Fátima, para a “despersonalização dos cuidados” que descreveu como uma das maiores queixas dos utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) com quem contacta.
“Eu acho que cada vez mais nós sentimo-nos números. E isto, às vezes, é mais do que se há ambulância ou não há ambulância. É sentir a despersonalização dos cuidados, eu acho que é talvez o que é mais transversal”, afirmou o padre Jorge Vilaça, em declarações à Agência ECCLESIA.
O responsável foi um dos participantes do encontro nacional das comissões diocesanas da Pastoral da Saúde que reuniu representantes de 16 dioceses portuguesas no Hotel Casa São Nuno.
“Quando nós todos nos tornamos um número, provavelmente estamos a deteriorar o Serviço de Saúde”, reforçou o sacerdote, que rejeita que esta sensação seja sentida apenas pelos utentes.
“Isto vale também para os profissionais de saúde”, referiu, salientando que, no meio da “avalanche” que se encontra o estado do setor em Portugal, “eles próprios estão esgotadíssimos”.
Sobre a Pastoral da Saúde na Arquidiocese de Braga, o padre Jorge Vilaça deu conta que a equipa oscila entre os 10 e os 15 elementos, desde profissionais da área, voluntários, pessoas ligadas a movimentos de espiritualidade cristã ligada ao setor.
Questionado sobre o maior desafio que o departamento enfrenta, o sacerdote apontou a dificuldade em ter “pessoas dispostas” a doarem o seu tempo a tantas outras que querem ser ouvidas.
“Temos muitas pessoas capazes de fazer formação, temos muitas pessoas intelectualmente brilhantes, temos muita poucas pessoas que queiram sentar-se e dar o tempo para a escuta e, se quisermos, também para o acompanhamento espiritual”, relatou.
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De Lisboa, o padre Jorge Sobreiro, diretor do departamento da Pastoral da Saúde desta diocese, também marcou presença na iniciativa e, à Agência ECCLESIA, abordou a realidade do contacto com os utentes em ambiente hospitalar, que partilham as fragilidades do SNS com que se confrontam. “E isso eu escuto muito. A pessoa vai à urgência e depois passa ali horas e já não pode estar na urgência, mas também não pode ir para casa, porque não tem condições para ir para casa. Precisa de internamento, mas já não há espaço”, conta o sacerdote. O coordenador diocesano dos Capelães Hospitalares de Lisboa destaca que o “Serviço Nacional de Saúde é uma graça”, mas que “a grande dificuldade” é entrar, isto é, “o choque das urgências, o tempo de espera, os cuidados, as emergências, as ambulâncias a chegar a horas ou não às pessoas”. “São tudo situações que nos marcam a todos como país. Agora não é da Pastoral da saúde nem nada, é que nos marcam a todos como país, porque vemos que alguma coisa está a falhar”, refere. O padre Jorge Sobreiro é capelão hospitalar da Unidade Local de Saúde de São José, mais concretamente no Hospital dos Capuchos, e destaca a missão de transmitir a mensagem de Jesus Cristo em ambiente hospitalar. “Em todas as dioceses, há sempre este sentido de colocar o doente no centro, seja ele católico, ou não católico, ou de outras religiões, ou mesmo sem religião, é colocar a pessoa no centro. E por isso, o primeiro ponto é aproximarmos, humanizando, no fundo, indo ao encontro da pessoa e depois fazendo um caminho com ela”, explicou. De acordo com o sacerdote, uma das maiores preocupações dos doentes com quem se cruza é a “busca” de um sentido para a vida. “O primeiro embate é muito a esperança na cura, uma esperança muito generalizada. E depois, quando há perspetivas de acontecer, é ir ajudando a pessoa a caminhar. Às vezes, quando já não há essa perspetiva da cura, é ir redimensionando essa esperança, dando uma esperança mais particularizada”, apontou. O padre Jorge Sobreiro destaca a importância de “ter uma atitude compassiva” e “escutar”, estar aberto e “deixar que a pessoa partilhe”. “No fundo é o acompanhar. Esta presença. E depois, muitas outras vezes é só estar ao lado”, mencionou. |
LJ/PR


