Vaticano: Papa condena perseguição religiosa e questiona «nova linguagem» que exclui em nome da inclusão

Leão XIV alerta para as derivas autoritárias no Ocidente que ameaçam a objeção de consciência

Foto: Vatican Media

Cidade do Vaticano, 09 jan 2026 (Ecclesia) – O Papa denunciou hoje a perseguição contra milhões de cristãos, em todo o mundo, e alertou para os riscos de uma linguagem ideológica que restringe a liberdade de expressão e de consciência.

“É doloroso constatar que, especialmente no Ocidente, os espaços para a liberdade de expressão estejam cada vez mais a ser reduzidos, enquanto se desenvolve uma nova linguagem, ao estilo de Orwell, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”, disse, na audiência de apresentação de cumprimentos de Ano Novo, que reuniu o Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, no Palácio Apostólico.

“O significado das palavras é cada vez mais fluido e os conceitos que elas representam cada vez mais ambíguos. A linguagem já não é o meio privilegiado da natureza humana para conhecer e encontrar, mas, nas malhas da ambiguidade semântica, torna-se cada vez mais uma arma com a qual se engana ou se atinge e ofende os adversários”, acrescentou.

Leão XIV foi particularmente crítico em relação à situação no mundo ocidental, saindo em defesa da objeção de consciência, que apresentou não como “uma rebelião, mas um ato de fidelidade a si mesmo”.

O Papa lamentou que, neste momento histórico, a liberdade de consciência pareça ser “objeto de um crescente questionamento por parte dos Estados, mesmo daqueles que se declaram fundados na democracia e nos direitos humanos”.

O discurso sublinhou os riscos para a liberdade religiosa a nível global, citando dados recentes que mostram que “64% da população mundial sofre graves violações deste direito”.

Não se pode ignorar que a perseguição aos cristãos continua a ser uma das crises de direitos humanos mais difundidas atualmente, afetando mais de 380 milhões de crentes em todo o mundo, os quais sofrem níveis elevados ou extremos de discriminação, violência e opressão devido à sua fé.”

O Papa evocou as “vítimas da violência jihadista em Cabo Delgado, Moçambique”, deixando ainda uma mensagem para as “numerosas vítimas da violência também marcada por motivos religiosos no Bangladesh, na região do Sahel e na Nigéria”, bem como as do atentado terrorista ocorrido em junho de 2025 na paróquia de Santo Elias, em Damasco

Além da violência física, Leão XIV alertou para uma “forma subtil de discriminação religiosa contra os cristãos” em países onde são maioria, como na Europa ou nas Américas.

Segundo o Papa, nestes contextos, os crentes “às vezes, por razões políticas ou ideológicas, veem-se limitados na possibilidade de anunciar as verdades evangélicas, especialmente quando defendem a dignidade dos mais frágeis, dos nascituros, dos refugiados e dos migrantes, ou promovem a família”.

Leão XIV recorreu à obra ‘A Cidade de Deus’, de Santo Agostinho, para estruturar a sua visão sobre as relações entre a Igreja e o Estado, precisando que “a Cidade de Deus não propõe um programa político”, mas que os cristãos são chamados a viver na cidade terrena “procurando aplicar ao governo civil a ética cristã”.

Mais de 180 Estados, incluindo Portugal, têm atualmente relações diplomáticas plenas com a Santa Sé, a que se somam a União Europeia e a Ordem Soberana e Militar de Malta.

OC

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