Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor
Se não precisares mais de pensar por bastar comprar uns dias de um serviço de Inteligência Artificial para o fazer por ti, o que acontecerá à tua inteligência? Pensar connosco é diferente de pensar por nós. Pensa bem, pensa melhor, mas continua a pensar.
Num vídeo; de opinião, a física Sabine Hossenfelder afirmou que — «Um número crescente de matemáticos e físicos utiliza actualmente de forma activa modelos de linguagem de grande escala para provas, brainstorming, referências e cálculos. Alguns matemáticos, incluindo o vencedor da Medalha Fields Terrence Tao, adoptaram plenamente esta prática, recorrendo à inteligência artificial para encontrar provas novas e melhores.» — Eu próprio tenho a experiência de acelerar o desenvolvimento de ideias novas quando interajo com a IA, como forma moderna e actual que substituiu a pesquisa no Google que gradualmente fica fora de moda.
A diferença entre uso e abuso é que no uso mantemo-nos humanos, enquanto que no abuso da máquina para substituir o uso das faculdades humanas, gradualmente também, perderemos o génio humano. A artificialização do pensamento humano é um dos maiores perigos da IA que nos deve manter em alerta máximo. Pois, a seguir à dominação da nossa forma de pensar prevejo que se siga a nossa forma de rezar.
Ao oferecer realismo multimédia ao nosso ouvir e olhar, pouco a pouco poderemos perder a nossa capacidade de escutar e contemplar. Escutar é mais do que ouvir porque o que escutamos leva-nos a pensar e reflectir, ao passo que ouvir leva-nos a consumir ideias, acreditando nelas sem reflectir. Contemplar é mais do que olhar por ser uma experiência silenciosa de transformação da consciência que leva o nosso coração a tocar nos pontos nevrálgicos da nossa existência, ao passo que olhar leva-nos a consumir imagens realistas, que podem não ser reais, e que afectam acriticamente a percepção da realidade.
Nada há de artificial que substitua o acto de segurar e abrir a sagrada escritura, escolher uma passagem, e ler com os nossos próprios olhos. A alternativa seria utilizar uma App com IA que interage connosco para conhecer a nossa disposição e oferecer uma passagem a ler no ecrã cujo algoritmo julga ajudar-nos a ultrapassar alguma dificuldade e a encontrar consolo. No primeiro caso damos espaço à acção de Deus em nós e por nós, enquanto que no segundo damos antes espaço ao algoritmo treinado a fazê-lo.
Nada há de artificial que substitua a experiência comunitária de nos juntarmos para rezar, como num grupo de oração, encontro de comunidade, ou mais commumente na Eucaristia. A alternativa seria usar uma rede social ou reunião virtual para nos juntarmos e, por exemplo, rezarmos juntos o terço, cada um no seu quadradinho, a ter de lidar com os problemas técnicos, com os dessincronismos das vozes porque a ligação não permite simultaneidade, além ainda das notificações que chegam entretanto no canto do ecrã. No primeiro caso fazemos uma experiência de presença sensível com a possibilidade de realizar gestos de amor concretos a quem estiver ao nosso lado, enquanto que no segundo caso estamos aprisionados àquilo que o ecrã e software permitem.
A negação do recurso à tecnologia e Inteligência Artificial para nos ajudar a pensar ou comunicar não é ser contra-a-corrente, mas negar o inevitável. Se a melhor forma no passado de não sermos negativamente influenciados pelas mensagens televisivas era desligar o botão, hoje, num tempo em que até nos esquecemos de que esse botão existe, a solução talvez passe por nos ligarmos mais à vida física e respeitarmos quem escolhe estar ausente do ambiente digital.
Os tempos actuais exigem mais criatividade do que nunca à nossa forma de pensar, ser e estar, para nos mantermos em devir humano. Isto é, para nos mantermos abertos ao que Deus quiser criar e recriar em nós e por nós. E não me refiro a qualquer produto que saia das nossas mãos, como é o caso da inteligência artificial, mas à experiência evolutiva de uma existência centrada no amor.
Não somos ainda aquilo que Deus nos chama, desde sempre, a ser — ser-como-amor; porque ser é tornar-se. O Amor transforma-nos em amor através da vivência experiencial das realidades encarnadas. Se não fosse assim tão importante, Deus teria esperado pela tecnologia virtual para se revelar, totalmente, em vez de o ter feito encarnando-se em Jesus.
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