Venezuela entre a crise de legitimidade e a incerteza do futuro

Luísa Gonçalves, Diocese do Funchal

A situação recente na Venezuela representa um dos momentos mais delicados da sua história política contemporânea e levanta debates profundos sobre legitimidade, soberania e o futuro do povo venezuelano.

A captura de Nicolás Maduro por forças estrangeiras surge como o culminar de anos de crise institucional, económica e social, marcados por eleições amplamente contestadas, repressão política e deterioração das condições de vida da população. Desde o último processo eleitoral, muitos setores da comunidade internacional vinham questionando a legitimidade democrática do governo, apontando falhas graves na transparência, na liberdade de participação e no respeito às regras básicas de um Estado de Direito.

No entanto, a perda de legitimidade interna de um governante não resolve automaticamente o dilema político do país. A intervenção externa, apesar de ser defendida por alguns como uma forma de pôr fim a um regime autoritário, levanta sérias questões sobre a violação da soberania nacional e o respeito ao direito internacional. A substituição forçada de um líder, sem um processo conduzido pelos próprios venezuelanos, corre o risco de criar um vazio de poder, aumentar a instabilidade e alimentar conflitos internos, em vez de promover uma verdadeira reconstrução democrática.

Para o povo venezuelano, que há anos enfrenta uma crise humanitária profunda, o impacto imediato desta nova fase é incerto. A esperança de mudança convive com o medo de que a instabilidade política agrave ainda mais a repressão, a escassez e a insegurança. O futuro pode tornar-se melhor se este momento servir de ponto de partida para uma transição democrática genuína, baseada em eleições livres, no fortalecimento das instituições e no respeito aos direitos fundamentais. Contudo, também pode tornar-se pior caso o país entre num ciclo prolongado de disputas pelo poder, dependência externa e sofrimento social.

Assim, a legitimidade de qualquer solução para a Venezuela não dependerá apenas da saída de uma figura política, mas da capacidade de devolver ao povo venezuelano o direito de decidir o seu próprio destino. Somente um processo inclusivo, soberano e democrático poderá transformar esta crise numa real oportunidade de reconstrução e oferecer um futuro mais justo e estável para a população.

Num contexto marcado por tanta dor, divisão e incerteza, há também quem recorra à dimensão espiritual como fonte de esperança. Que Deus ilumine os responsáveis políticos, nacionais e estrangeiros, para que ajam com prudência, justiça e respeito pela dignidade humana, conduzindo os homens pelos caminhos mais sensatos para o bem comum. Que prevaleça a sabedoria sobre a força, o diálogo sobre o confronto e a compaixão sobre os interesses particulares, para que o povo venezuelano possa finalmente encontrar paz, estabilidade e um futuro digno.

 

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