Dependências online: quando o silêncio do ecrã fala mais alto

Marina Morais, Diocese de Bragança-Miranda

Um olhar sistémico sobre a tecnologia, a família e a urgência de reconstruir ligações humanas.

“São 2h da manhã e o António de 15 anos de idade, continua a jogar Fortnite, o seu jogo online favorito. Em casa, os pais têm rotinas laborais diferentes e chegam a casa em horários diferentes. Antes, jantavam juntos, atualmente, o António faz as refeições em frente ao computador e os pais já desistiram de discutir sobre este assunto. Na cozinha, ambos os pais jantam com o smartphone à frente, a fazer scroll para descontrair do dia de trabalho que tiveram.” Onde antes havia espaço para partilha e conversa, reina agora um silêncio avassalador, preenchido por ecrãs e pela desculpa recorrente: “Preciso de descontrair, tive um dia difícil.”

Esta é uma realidade que se repete na vida de várias famílias do mundo contemporâneo. A Literatura recente aponta que 67% da população mundial atual está online, um aumento de 4,7% em relação a 2024. Estudos realizados em Portugal com jovens (idades entre 12 e 25 anos) revelam um nível de dependências online entre os 15% e os 20% (Patrão et al., 2015). Esta problemática ultrapassa a dimensão do indivíduo, envolvendo também a família e os vários contextos, pelo que deve ser considerada uma abordagem que integre todo o contexto onde este se insere.

O mundo online tornou-se simultaneamente um espaço de relação e de fuga: aproxima quem está à distância, contudo, isola-nos de quem está ano nosso lado. O António não joga apenas por prazer; joga porque talvez ali encontra um sentimento de pertença e muitas vezes, reconhecimento que sente que falta noutros contextos. A abordagem sistémica convida-nos precisamente a olhar para além do comportamento visível. Em vez de focar na dependência do individuo, questiona o sistema relacional em que ele emerge. O que está a acontecer naquela família, naquela escola, na rede de relações, que torna o mundo virtual mais atrativo do que o real? Na cozinha, os pais do António também estão “ligados”, não a um jogo, mas a um padrão semelhante: a procura de distração, de alívio, de pausa. Talvez haja aspetos do funcionamento desta família que precisam ser trazidos à discussão, e para isso é necessário promover um espaço de partilha e de relação, espaço este que foi substituído pelos ecrãs. O desafio não está apenas em “desligar o ecrã”, mas em reconstruir as relações humanas que se foram tornando frágeis. Quando o jantar volta a ser um espaço de conversa e não de scroll; quando a escola se torna um lugar de curiosidade; quando os adultos dão o exemplo de equilíbrio digital, os mais novos aprendem a fazer o mesmo.

Perante este cenário, torna-se urgente criar respostas que devolvam espaço à relação humana e promovam equilíbrio digital. É neste enquadramento que nasce o projeto XPTO – do online ao offline, um projeto da Fundação Casa de Trabalho, desenvolvido no âmbito do programa Portugal Inovação Social, através do Programa Regional Norte 2030, e cofinanciado pelo Fundo Social Europeu. O objetivo deste projeto é promover o equilíbrio entre o mundo virtual e o mundo real em adolescentes dos 12 aos 16 anos, através de uma metodologia participativa, grupal, sistémica, artística e comunitária.

São 2h da manhã e o António ainda joga. Mas talvez, um dia, o som do teclado seja interrompido por uma voz familiar que lhe diz: “Vamos dormir, filho. Amanhã jantamos juntos, sem telemóveis à mesa.” Neste pequeno gesto pode começar a mudança, não apenas na vida do António, mas em muitas outras cozinhas onde o silêncio do ecrã fala mais alto do que as palavras. Para onde será que nos está a levar esta revolução tecnológica? O ser humano não vive só de relações virtuais, tem necessidade de presença física (toque, olhar, comunicar). Desligar, não é perder o mundo digital, é recuperar a relação humana.

O caminho não passa por apontar o dedo aos jovens/adolescentes, mas sim compreender o sintoma (dependências online) e reeducar o sistema inteiro. Com isto, não se trata de demonizar a tecnologia, ela é parte integrante da atualidade, mas trata-se de aprender a usá-la de forma consciente e equilibrada. E para tal, é necessário assumir uma responsabilidade conjunta envolvendo as escolas, as famílias, e políticas públicas.

Convido o leitor a refletir: que lugar ocupam as tecnologias na sua família?

 

Referências

– Patrão, I., Machado, M., Aires, P., & Leal, I. (2015). Geração cordão: Protocolo de avaliação na consulta de dependências online. In Atas do 12.º Congresso Nacional de Psicologia da Saúde. ISPA – Instituto Universitário.
Patrão, I., & Sampaio, D. (2016). Dependências online: O poder das tecnologias. Pactor.

 

Marina Morais é psicóloga no Projeto “XPTO” da Fundação Casa de Trabalho – Patronato de Santo António, em Bragança.

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