Tony Neves, no Leste dos Camarões
‘Volta à África central em quatro subidas e aterragens’ podia ser um bom título de crónica, pois a Visita aos Camarões começou pela oportunidade de ver do céu, no mesmo dia, a beleza e a dimensão das capitais da RCA, Togo, Guiné Equatorial e Camarões. Foi um dia inteiro passado entre salas de embarque e assentos de aviões. Tudo isto porque se impunha ir de Bangui a Yaoundé e esta foi a melhor proposta de viagem em cima da mesa na hora de comprar bilhetes.As vistas aéreas têm para mim um fascínio especial. Mostram o panorama geral com rios a serpentear florestas, mares que invadem terra firme, verdes que mostram um futuro ecológico de esperança. 223 kms separam Yaoundé de Abong Mbang. O P. Daniel, espiritano em Lomié, levou-me por uma estrada cheia de bananeiras, mandiocais, milho e toda a espécie de frutas tropicais. Impressionou-me Awae, com toneladas de ananases à venda ao longo da estrada. Chegados a Abong, começou o calvário, com uma estrada de terra batida de 126kms de poeira laranja que pareciam ser eternos. Chegados a Lomié, aguardava-nos a grande celebração da passagem de ano, uma Missa com a Igreja à pinha que, ao bater as badaladas da meia noite, entrou em delírio de ação de graças, pois era esse o momento que se celebrava na Eucaristia. A festa continuou noite dentro e, de manhã, voltamos à Igreja para a Missa de Santa Maria Mãe de Deus e do Dia Mundial da Paz.Lomié é também terra de pigmeus que vivem em casas feitas em proporção com o seu reduzido tamanho. Trata-se de povos autóctones, sempre desprezados ao longo da história.A viagem de Lomié para Bertoua deveria ter demorado umas cinco horas e chegou ao destino ao fim de um dia e meio! Saímos às cinco da manhã e o carro da Missão parou às 6h! Conseguiu-se um mecânico que desmontou o eixo e partiu de mota à procura de uma peça, enquanto fiquei guardado pelo chefe da aldeia de Bapilé, a quem todos tratam por ‘sa magesté’. Seis horas depois, regressamos à picada para nova avaria kms à frente! Aí não havia aldeias nem rede de telemóvel. Aguardamos que alguém passasse. Conseguimos contactar um mecânico que exigiu peça que só se encontrava na cidade. Eu e o P. Daniel apanhamos boleia e ele, por caridade, foi-me confiar aos cuidados do pároco da catedral, onde fiquei.A noite passada no presbitério da catedral de Abong Mbang foi corrida, quente e com a constante picada de mosquitos. Cedo saí para reencontrar o P. Daniel que me levou ao terminal rodoviário, expressão técnica para falar de um terreiro onde param e de onde arrancam transportes públicos de todos os tamanhos. Ali se negociou um lugar numa Toyota Hiace que devia fazer os 108 km que conduzem à grande cidade de Bertoua. A carrinha deve ter atingido o fim da linha na Europa, chegou cá como nova e leva 15 ou mais pessoas, com carga em cima e dentro, produtos de toda a espécie. Chamou-me a atenção um autocolante diante de mim: ‘Allah is the first one’… uma boa notícia, o chauffeur é muçulmano, não bebe! Também havia autocolantes do Barcelona, o que foi bom pretexto para abrir conversa.
Lá fomos voando por cima de alguns buracos, passando por Doumé e Dimako. Entramos em Bertoua, uma cidade a borbulhar de gente, motas e carros, num caos que parece estar assim organizado. Tudo está em obras. O P. Innocent, pároco do Sagrado Coração de Maria, numa das periferias, foi buscar-me. Pelo caminho, partilhou os tempos angustiosos do pós-eleições, uma vez que a cidade teve batalhas campais durante 15 dias, pois a oposição considerou fraudulentos os resultados.
Bertoua – conta o P. Innocent – cresce muito e é um mosaico de etnias e religiões. Muita gente ali chegou vinda dos quatro cantos do país e mesmo do estrangeiro. A nível religioso é grande a diversidade com comunidades expressivas de católicos, muçulmanos e diversas confissões cristãs. O Arcebispo é jesuíta, depois de um espiritano. Os Espiritanos, pais da evangelização, foram-se deslocando para as periferias, deixando as paróquias de cidade.
Tive a alegria de celebrar com a comunidade católica da paróquia do Coração de Maria, profundamente multiétnica e, por isso, a Missa é cantada em diversas línguas. As leituras são sempre na língua local e em francês.
O regresso a Yaoundé foi uma nova epopeia, bom início para a próxima crónica.
Tony Neves, no Leste dos Camarões

