Dia Mundial da Paz: «Se a guerra continua, é porque os senhores da guerra a desejam», afirma patriarca de Lisboa

D. Rui Valério presidiu à Eucaristia na igreja dos Pastorinhos, em Alverca, onde lembrou geografias do mundo em conflito e enfatizou que a «paz não pode esperar mais»

Foto: Diogo Paiva Brandão/Patriarcado de Lisboa

Alverca, 01 jan 2026 (Ecclesia) – O patriarca de Lisboa presidiu hoje à Missa no primeiro dia do ano, na igreja dos Pastorinhos, em Alverca, sublinhando a necessidade de alcançar a paz e criticando os interessados em manter a guerra.

“Ao olharmos para as geografias onde a guerra hoje progride, temos de ter a coragem da verdade. Se a guerra continua, é porque os senhores da guerra a desejam. Há homens que não têm apenas as mãos manchadas; têm a alma manchada pelo sangue dos inocentes”, afirmou D. Rui Valério, esta manhã, na homilia enviada à Agência ECCLESIA.

Assinalando o Dia Mundial da Paz, o patriarca de Lisboa apelidou os responsáveis por preservar o conflito de “servidores do mal, mergulhados numa cegueira que atinge, tristemente, muitos que são eleitos no Ocidente, dito civilizado”.

D. Rui Valério observa que hoje se vive “um tempo em que se planeia conscientemente derrubar a própria civilização, que nasceu sob o estandarte de Cristo, essa bandeira do amor supremo”.

“Hesitar perante o mal, por conveniência ou medo, é ficar — mesmo sem o saber — escravo das trevas”, declarou.

Segundo o patriarca de Lisboa, “se os poderosos vissem em cada face o rosto de Deus, as espadas transformar-se-iam em relhas de arado e os corações em fontes de compreensão”.

“Matar um homem é, em verdade, tentar matar o Cristo que nele habita”, destacou, acrescentando que a “paz não é apenas evitar conflitos”, mas reconhecer o outro como um irmão, “reconhecer-lhe direito a existir, a ser escutado, a ser protegido, a ser amado”.

“Onde isto acontece, as armas perdem sentido e os corações endurecidos começam a ceder lugar à compaixão, referiu D. Rui Valério.

Instituído, em 1968, pelo Papa São Paulo VI (1897-1978), o Dia Mundial da Paz celebra-se no primeiro dia do ano novo em conjunto com a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, que, frisa o patriarca de Lisboa, “não é uma coincidência litúrgica”, mas “uma revelação”.

“A paz não nasce da força, nem do cálculo, nem da supremacia. A paz nasce quando Deus entra verdadeiramente na história humana — e isso aconteceu no seio de uma mulher”, sustentou.

D. Rui Valério constata que, “durante décadas”, humanidade olhou a paz com “as lentes da política, os cálculos da economia e a organização da sociologia” e que esta foi falada como se fosse apenas “uma ausência de conflito ou um intervalo entre guerras”.

“Hoje, essa abordagem esgotou-se. As estratégias de poder, a sede de influência e a vontade de subjugar o outro — seja no campo de batalha, seja no domínio dos mercados — levaram a humanidade a um beco sem saída e sem rumo. A linguagem dos homens fracassou”, destacou.

De acordo com D. Rui Valério, “chegou a hora da perspetiva teológica, a partir do ponto de vista de Deus”, “chegou a hora de olhar para o drama da guerra sob a luz da escatologia, sob o prisma do definitivo”.

A Paz não é uma opção diplomática; é a urgência de Deus. A Paz não pode esperar mais, pois o grito e o sangue dos inocentes clamam da terra até ao céu. Alguém tem de os escutar!”, defendeu.

Foto: Diogo Paiva Brandão/Patriarcado de Lisboa

Refletindo sobre a figura de Maria, a Mãe de Deus, o patriarca de Lisboa apresentou-a como “Aquela que ‘fez acontecer’ Cristo”, indicando que “construir a Paz é, no fundo, ‘gerar Cristo’ no mundo, é deixar que Cristo nasça de novo na história, nas relações, nas decisões pessoais e coletivas das sociedades atuais”.

“Maria ensina-nos como percorrer o caminho da paz: acolhendo, guardando no coração, meditando, doando-se. Sem violência. Sem imposição. Sem medo. A sua maternidade é o espaço onde o humano e o divino se tocaram sem se destruírem, mas para darem frutos novos”, salientou.

Para D. Rui Valério, “é este o contributo decisivo da fé cristã para a paz do mundo: não dominar, mas libertar; não matar, mas dar vida; não excluir, mas reconciliar”.

No final da homilia, o patriarca confiou à intercessão de Maria “os povos feridos pela guerra, as vítimas inocentes, os corações endurecidos pelo ódio, mas também cada um” dos presentes, uma vez que “a paz começa sempre no interior de cada um”.

Onde faltar a verdade no acolhimento do outro, na real intenção de com ele celebrar uma paz autêntica, então a guerra continuará; porque nenhuma paz pode nascer da mentira, da desconfiança ou de pretensões de superioridade bélica, étnica ou de outro tipo. Onde Cristo não é gerado pela caridade e pela justiça, a paz será sempre uma ausência dolorosa”, disse.

D. Rui Valério desejou que “onde hoje há ruído de armas, amanhã possa ouvir-se o cântico dos anjos”.

LJ/OC

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