Padre Vítor Pereira, Diocese de Vila real

Transformámos o Natal numa azáfama, e o problema é que cada vez mais passamos ao lado do essencial! Como dizia há dias o Papa Leão XIV, vivemos preocupados pelos preparativos do Natal num “ativismo frenético” e o fundamental do Natal pode passar-nos ao lado. Fazemos inaugurações de luzes nas nossas casas, vilas e cidades, enfeites natalícios por todo o lado, montras cheias de luzes, almoços e jantares natalícios, preocupações com as compras para oferecer, buscas dos supermercados para todo o tipo de compras, e outros afins desta época. Toda esta barafunda acaba no próprio dia de Natal com sacos e mais sacos de restos alimentícios, papéis e mais papéis, agora amarrotados, friamente rasgados para revelarem o mistério dos presentes. Para muitos, este é o significado do Natal. E como tem sido repetitiva esta vivência da quadra natalícia!
Não quero alimentar nenhuma amarga maledicência contra a forma como hoje se vive o Natal, custa-me é vê-lo a ser transformado cada vez mais numa festa comercial, consumista, lúdica, cada vez mais destituída dos valores cristãos e espirituais. Não digo que algumas daquelas coisas não se façam, mas convém fazê-las com espírito cristão. Nós, cristãos, temos de ver um pouco mais longe e viver o Natal de outra forma. Vivermos o Natal mais por dentro. No presépio sobressai o silêncio profundo. As figuras principais não pronunciam uma palavra. Tudo nos é oferecido como um dom, uma surpresa que não estávamos à espera para nossa contemplação e espanto. O mundo é criação de Deus, é um puro e maravilhoso dom do amor de Deus, que devemos acolher, amar e administrar. Criação que levamos para dentro das nossas casas: fazemos os presépios onde replicamos a criação que tanto nos fascina, sabendo que só nos compreendemos como pertença da criação de Deus. Somos da natureza e só com a natureza nos realizamos plenamente. O vértice e o centro da natureza é o homem (e a mulher), a quem Deus incumbiu de a cuidar e administrar bem. O mundo foi feito para o homem, mas não para o homem ser um senhor absoluto, dono e patrão de uma natureza que vai utilizar, manipular e explorar até ao limite para ter sempre mais poder e rendimentos.
Para além da natureza e do homem, o presépio apresenta-nos o maior dom, o dom excelso, que Deus deu à humanidade: Jesus Cristo, que a todos pede acolhimento e abertura de coração.
Na contemplação do presépio não podemos deixar de sentir a força de alguns compromissos e exigências, e constatarmos que há muito a fazer no acolhimento da sua mensagem. Desde logo, é preciso valorizar mais Deus na vida pessoal, comunitária e familiar. Quantos sairão das festividades de Natal com mais abertura e vontade de busca de Deus, em Jesus Cristo? Na sociedade atual, instalou-se a indiferença religiosa e a aridez interior. E mesmo os crentes estão presos a rotinas, as comunidades, na sua esmagadora maioria, estão só atadas a hábitos, tradições e costumes, sem frescura espiritual e sede de Deus, há falta de vida de oração, pouco empenho na formação cristã, a todos os níveis, desinteresse pela Bíblia e pela leitura da Palavra de Deus, superficialidade na vivência espiritual da fé.
Depois, assistimos ainda hoje a uma desvalorização do ser humano e da sua dignidade. Já muito se vai fazendo, mas temos de continuar a promover mais respeito pela pessoa humana. Temos um número inaceitável de assassinatos no nosso país e no mundo, nas várias ramificações sociais. Está instalada uma cultura de violência verbal e física que urge combater. Na estrada vê-se muita incúria e falta de civismo, o que tem levado a um número de acidentes e de mortes intolerável. Muitas pessoas têm recorrido ao suicídio. O aborto tornou-se uma banalização, servindo para tapar a irresponsabilidade, a inconsciência e a intemperança como muitos vivem a vida. A muitos trabalhadores ainda se dão salários miseráveis. Os níveis de tráfico humano continuam em níveis inadmissíveis, sobretudo para mulheres e crianças. Tem de ser severamente combatido. A mulher continua a ser vista como mero objeto sexual e usada para prazer efémero do homem. Os migrantes nem sempre são bem recebidos e são facilmente e falsamente acusados de serem a causa dos problemas que nos afetam e continuam a ser usados como pau para toda a obra. Apesar de alguns pequenos progressos nos últimos anos, os níveis de pobreza no nosso país continuam elevados, temos quase dois milhões de pessoas a viver no limiar da pobreza. Todos os dias somos confrontados com idosos abandonados, temos um grande número de pessoas cuja grande companheira é a solidão e com ela vão morrer, possivelmente numa tristeza indescritível. Notam-se situações de desinteresse e indiferença das pessoas entre si, situações que não deveriam existir.
Por fim, nos últimos anos assistimos a uma desvalorização da natureza. O Natal chama-nos a atenção para o menosprezo e desrespeito para com a natureza. E é uma pena que esta época natalícia se tenha tornado um desbundar de prendas inúteis, supérfluas. Os papas bem têm recomendado sobriedade e singeleza, a não sermos devoradores interesseiros de bens e de coisas a que ao fim de alguns dias já arrumamos a um canto, mas…O maior presente é nos tornarmos mais presentes uns para os outros, como Deus fez em Jesus Cristo. Quando conseguiremos praticar um natal mais sóbrio e com mais respeito pela natureza, que não é ilimitada nos seus recursos? As alterações climáticas, que alguns soberbos ainda teimam em negar em nome de interesses, mostram-nos que temos de ter outro comportamento e atitude para com a natureza, e temos de mudar de rota para que esta casa comum tenha futuro e seja saudável para o ser humano.
Bom Natal e boas festas.
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