Natal: Madeira vive «Festa» que arranca multidões da cama e coloca o Menino Jesus no trono

Reportagem da Agência ECCLESIA viajou ao arquipélago para acompanhar as ‘Missas do Parto’ e descobrir presépios únicos

Foto: Agência ECCLESIA/OC

Funchal, Madeira, 24 dez 2025 (Ecclesia) – A celebração do Natal, na Madeira, é vivida comunitariamente como a “Festa”, num ciclo de várias semanas em que a fé se mistura com a identidade insular, desde as madrugadas das ‘Missas do Parto’ até aos presépios que recriam a geografia local.

As celebrações, com características únicas no país, distinguem-se pela forma como mobilizam a população para as igrejas antes do nascer do sol e pela arquitetura própria dos presépios, conhecidos localmente como “Lapinhas” ou “Rochinhas”.

A investigadora Rita Rodrigues explica à Agência ECCLESIA que estas estruturas vão muito além da representação bíblica tradicional, integrando a própria ilha no cenário do nascimento de Jesus.

“Transporta-se para esse presépio o quotidiano madeirense, quer do ponto de vista da paisagem, quer do ponto de vista da sua prática”, afirma a especialista.

Segundo Rita Rodrigues, a decoração reflete a vivência e a geografia do arquipélago, incorporando elementos da natureza e da vida social.

“Toda essa lapinha é ornamentada com flores típicas da Madeira, mas também com as vivências religiosas que decorrem ao longo do ano”, descreve, referindo como exemplos a inclusão de procissões e bandas filarmónicas nas montagens.

Outra particularidade central no Natal madeirense é a veneração de uma imagem distinta do Menino Jesus, entronizado como rei, uma representação que acompanhou os primeiros colonos, sobretudo os chegados do Algarve, e que persiste até hoje.

“Esta colocação do Menino no trono como o rei é também de uma grande devoção franciscana, que nós mantivemos muito forte. Como também o cuidado de vestir o Menino”, refere Rita Rodrigues.

É muito importante sublinhar que não houve uma extinção, por exemplo, das Missas do parto, da matança do porco, de fazer o bolo de mel e as broas, os licores. Portanto, todo um conjunto ritualístico que tem a ver com a vivência familiar e religiosa e também com os cheiros, com os paladares, com as cores, tudo isto acaba por ser uma vivência muito emocional e que ficou muito enraizada na casa madeirense, na casa das famílias madeirenses, evidentemente.”

Gilda Nóbrega, da organização da ‘Aldeia Etnográfica’, visitada por milhares de locais e turistas que acorrem ao Funchal, por estes dias, sublinha a relação direta entre a dureza da vida de outrora e a força da celebração atual.

“A vida era muito dura. Era. E fez de nós aquilo que somos hoje em dia. Pessoas que, apesar de qualquer imprevisto, temos a capacidade de ultrapassar e de ir para a frente”, salienta a responsável.

Para a entrevistada, o Natal sempre funcionou como o momento aglutinador do calendário, superando todas as outras datas.

“Havia momentos das outras festas, durante o ano, festas religiosas e também outras que não eram religiosas, mas que também tinham muito peso. Mas, sem dúvida alguma, a Festa era a festa”, indica.

Este ciclo festivo prolonga-se no arquipélago até meados de janeiro, encerrando com as celebrações de Santo Amaro (15 de janeiro) e o tradicional “varrer dos armários”.

OC

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