Na cidade do Presépio

Relato de uma viagem à Tenda do Presépio da Cidade de Lisboa Num local emblemático da cidade de Lisboa, Terreiro do Paço, está instalada uma tenda que convida as pessoas: “Vinde e Vede”. A “Porta da Esperança” – nome dado à entrada – chama-nos a ver o Presépio da cidade. Antes de entrar, parei e apreciei os miúdos vestidos de branco com asas amarelas. Simbolizam os anjos que esperam o nascimento do menino. Olho para o lado e reparo que uma consagrada espera a melhor oportunidade para me abordar. Passados alguns segundos abeirou-se de mim e diz-me: “as crianças são do Colégio das Doroteias. Vieram a pé, desde o estabelecimento de ensino, para “anunciar que o nascimento está próximo”. Disse-lhe: “obrigado pelo esclarecimento. E ela avançou: “não quer entrar e ver a nossa tenda. Ofereceu-me também um pagela que contém a «Oração do Presépio». Mais uns passos e encontro-me dentro do Presépio da cidade». Lá dentro Sofia Guedes, uma das organizadoras da iniciativa, fala com um grupo de idosos do Centro Social de S. Nicolau (Lisboa). Os anciãos, cerca de trinta, relatam as recordações natalícias de infância e dão lições históricas sobre o Natal. Antigamente – diz um idoso – “nós contentávamos com pouco. Como as coisas estão diferentes!”. Sofia Guedes continua a apelar aos testemunhos enquanto aprecio o que se passa à minha volta. De repente, oiço falar em mendigo… despertou-me a atenção e escuto atentamente as palavras do senhor Rocha, homem que “pede ou pedia junto a uma das igrejas da Baixa Lisboeta” – apresentação de Sofia Guedes. Apesar da sua situação precária apela a “um mundo mais justo e que acabe a guerra e as mortes na estrada”. De seguida, a promotora da iniciativa convida os presentes a rezarem uma Avé-Maria. Continuo a observar lentamente a tenda: um presépio construído com figuras pequenas, painéis que relatam o nascimento de Jesus e desenhos natalícios feitos por crianças. Um espaço único (Tenda) com áreas específicas onde cada geração dá o seu contributo. As crianças colocam o «seu natal» no papel e os idosos constróem estrelas e peças do presépio para oferecer “nos hospitais” – disse à Agência ECCLESIA Maria João Bettencourt, outra das organizadoras do «Presépio na Cidade». Para além destes sub-espaços, encontramos também um balcão com bolachas, bolos, chá e café. Estava a observar e uma das 120 voluntárias disse-me: “somos nós que trazemos e oferecemos às pessoas que nos visitam”. Esta iniciativa, teve o seu início no dia 2 de Dezembro, está na «fase» da Semana da Missão. De 16 a 23 de Dezembro, se passar na Rua Augusta, perpendiculares e paralelas, encontrará “voluntários que convidam as pessoas a rezar 15 minutos na Igreja mais próxima” – sublinhou Maria João Bettencourt. Vista a tenda fiz-me ao caminho pela calçada da Rua Augusta. Neste local histórico da capital do Reino encontrei vários tipos de «Natais». As montras apelavam ao consumo. Como estávamos em pleno dia, as iluminações ainda não piscavam. Os pregões da venda da castanha assada e os odores das floristas misturavam-se no ar. Os artistas amadores pincelavam os seus quadros ao som da música dos Andes e dos violinos. Os milhares de transeuntes que circulam eram indiferentes a tudo e a todos, mesmo aos «anjos» que encontrei na entrada da Tenda. Estes tocavam tambor e anunciavam “que o nascimento está próximo”. Perguntei-lhes: porque estão vestidos assim? Um, parecia que tinha a resposta na ponta da língua, disse-me: “estamos a dizer aos mais velhos que Jesus vai nascer”. Um pouco mais à frente e já numa perpendicular da Rua Augusta sou abordado, num tom sereno, por três jovens. “Boa tarde. Nós somos voluntários da iniciativa «Presépio na cidade» – disseram-me. Depois de uma breve explicação da iniciativa convidaram-me a entrar na Igreja de S. Nicolau. Como conhecia a iniciativa, a minha resposta foi positiva e entrei no templo. Lá dentro, encontrei algumas dezenas de pessoas, essencialmente idosas, que oravam. Ajoelhei-me e rezei um pouco… Passados alguns minutos saí e perguntei aos mesmos jovens que me abordaram no início: “A grande maioria das pessoas que aderem são da Terceira Idade?”. Do outro lado responderam: “São pessoas com mais disponibilidade e mais sofridas. Mas também temos jovens que nos escutam e aderem”. Por outro lado, as pessoas já “nem ligam às abordagens e aos pedidos de rua” – finalizaram. Na última etapa do percurso encontro uma menina que, de modo fulminante, me pergunta: “trabalha em Lisboa?”; “Qual a sua profissão?”; Portugal é rico ou pobre?”. Sempre a andar, respondi-lhe: “ao menos podia ter a amabilidade de se apresentar”. Continuei o meu trajecto e pensei na voz serena e calma dos voluntários do «Presépio da Cidade» em contraste com a linguagem ambulante da vendedora de algum produto de veraneio. Na redacção concluí que a cidade é um presépio mas “é preciso estar desperto para o nascimento do salvador” – como disse Sofia Guedes.

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