D. Augusto César, Bispo de Portalegre – Castelo Branco, está a comemorar as bodas prata como pastor desta diocese beirã, alentejana e ribatejana. Depois de uma experiência em solo africano
Agência ECCLESIA – Em 2003 celebra 25 anos de pastor na diocese de Portalegre – Castelo Branco. Será possível fazer uma avaliação deste quarto de século naquele território eclesial? D. Augusto César – Uma avaliação é difícil mas posso dizer que me doei totalmente à Igreja Diocesana que me foi entregue por João Paulo II. Vi o zelo dos sacerdotes mas procurei que eles vissem também em mim um pastor dedicado e laborioso. Na doação não me poupei… AE – 25 anos com altos e baixos? AC – Não sou muito de fazer a separação entre o que correu melhor e o que correu pior. Ao nível do melhor aponto a linha de fidelidade, levando os sacerdotes a uma comunhão e a uma unidade. O que correu pior foi, certamente, numa linha vocacional ver o envelhecimento dos meus padres. AE – Como combater este envelhecimento? AC – Com o rejuvenescimento. Mas, muitas vezes, descansamos à sombra da bananeira e achamos que a Pastoral Vocacional é muito com o bispo. A Pastoral Vocacional é, essencialmente, comunitária. É preciso que os sacerdotes animem a comunidade e que esta se dê conta que só cresce se for vocacional. Não há uma comunidade em Igreja que não seja vocacional. Os nossos seminaristas estão a fazer uma caminhada muito bonita porque converteram-se a esta ideia, sentem responsabilidade e escreveram uma carta aos jovens. Uma carta a dizer que o chamamento é concreto e real e o sacerdócio é uma aventura que vale a pena. Irão também fazer uma peregrinação, a pé, com os jovens a Santiago de Compostela. AE – Aos párocos pede-lhes também que sejam «embaixadores do seminário». AC – É fundamental. É preciso trazer as paróquias ao Seminário e o Seminário ir às paróquias. Se os sacerdotes não tiverem essa consciência, dificilmente tornam a sua comunidade vocacional. AE – Uma diocese Beirã, Alentejana e Ribatejana. Vários tipos de pastoral? AC –Três expressões de viver a fé: o Alentejo e os seus costumes, maneira e sensibilidade de viver a fé; as Beiras, ou Beira Baixa, com uma resposta mais pronta e uma sensibilidade diferente do Alentejo e depois o Ribatejo, que também tem a sua peculiaridade. Diferenças de sensibilidade que não me metem medo. O que pode meter-me medo é se nós, a nível de sacerdotes, não sabemos valorizar aquilo que há de peculiar em cada uma das zonas. AE – Os dados do Recenseamento à Prática Dominical exprimiram essas diferenças? AC – Em toda a parte tivemos um abaixamento porque a urbanização existente tem tornado as aldeias vazias. Existe uma atracção para as cidades ou vilas. O Alentejo é a parte mais envelhecida e muita gente das Beiras tem acorrido para o lado do Ribatejo. Dados que salientam um decréscimo da população e o consequente decréscimo na prática dominical. AE – O que a diocese está a fazer para combater esta desertificação humana? AC – Estamos a tentar duas coisas: evangelizar pelos meios ao nosso alcance e procurar que não haja desalento, nem desorientação, diante de muita Comunicação Social. Muitas vezes, a informação desorienta os cristãos das nossas aldeias. AE – Perante estes dados é necessário uma aposta reforçada na Pastoral Juvenil? AC – Actualmente estamos a fazer uma coisa muito interessante porque tivemos um percalço na caminhada que estávamos a fazer e, ultimamente, entreguei o Secretariado da Pastoral Juvenil a três jovens que, em comunicação com os delegados arciprestais, estão a fazer um belíssimo trabalho. AE – E ao nível da Pastoral Familiar… AC – O nosso Plano Pastoral é sobre a Família. Gostaria que, ao longo deste ano, as famílias entendessem que sozinhas não conseguem vencer a jornada. As famílias precisam de reflectir sobre os seus problemas e devem continuar a dar o testemunho da sua fé. AE – Mas vivemos numa sociedade tradicionalmente cristã. AC – Os nossos cristãos, devido à vida social muito exigente e ás vezes muito desorganizada, acomodam-se. Moralmente vão mais pela autoridade da televisão do que aquilo que dizem os pastores ou João Paulo II. Nesse aspecto é preciso acordar e sacudir porque a fé está lá mas está latente. Há uma paralisação apostólica. AE – Na celebração deste Jubileu, esperava receber uma «prenda diferente» daquela que teve no Verão passado: os fogos que flagelaram a sua diocese? AC – Ninguém esperava uma prenda destas. Portugal não esperava isto e a minha diocese não o merecia. Logo que me dei conta da magnitude dos incêndios dispus as minhas férias para acompanhar os sacerdotes e as comunidades. Mas os bombeiros e os soldados foram magníficos. Vi-os, praticamente, neutralizados diante das chamas pavorosas que avassalaram tudo. O apoio das populações foi também excelente. Para além deste facto, notei também que o coração humano é extremamente sensível a estes flagelos e quando inspirado pela fé é capaz de gestos nobres, como aconteceu na solidariedade que tiveram connosco. Souberam abrir as casas e repartir o que tinham. Foi admirável. AE – Faz lembrar um pouco a sociedade africana onde, aliás, esteve como missionário. Podemos dizer que é um homem das missões? AC – Estive 16 anos em África e 4 no meio da guerra como bispo. Adquiri uma experiência que se enquadra com a minha maneira de ser e com a minha formação. Quando fui senti-me enviado por Deus. Quando vim senti-me enviado, igualmente, por Deus. Sou missionário nas duas direcções. AE – Na diocese de Portalegre – Castelo Branco não tem o perigo da guerra? AC – A sensação que temos, quando vimos das missões, é que a Igreja em Portugal está muito enferrujada e acomodada. Quando nos entregamos ao trabalho verificamos que os desafios são enormes: família, jovens, escolas… Há uma série de propostas feitas que não nos dão lugar a descanso. Os acontecimentos sociais contrariam muitas vezes o nosso esforço por isso é precisa muita imaginação para cumprir estes desafios. AE – Derivada à extensão da sua diocese e com os desafios presentes não seria benéfica a divisão deste território eclesial em duas dioceses? AC – Em termos de extensão, a diocese de Portalegre – Castelo Branco é a terceira do país. Sempre estive aberto a qualquer solução que a Igreja pense como sendo melhor para as populações, sobretudo para a evangelização. AE – Não faria sentido a diocese de Castelo Branco? AC – É uma questão antiga. O problema foi posto com D. António Ferreira Gomes, com D. Agostinho e também comigo. Mas o problema não passa por dizer que esta área tem condições por isso faça-se… E as outras áreas ficam com condições? Não se pode, simplesmente, utilizar argumentos nem de bairrismo nem de dizer que temos condições. Temos de ver o todo… O equilíbrio pastoral, vocacional e só mediante isso é que podemos partir para qualquer solução. Não tenho nada a opor desde que sejam preservados os princípios fundamentais. AE – E em relação aos órgãos de Comunicação Social de Inspiração Cristã: tem projectos específicos para o futuro? AC – Actualmente não estamos a fazer o que devemos… Nós sentimos que a nossa imprensa católica não está saudável. Estamos sempre com receio do porte não ser pago… Depois não há um discernimento suficiente entre os Boletins Paroquiais, alguns transformados em espécie de jornais, e aqueles que são semanários ou quinzenários. É necessário fazer uma distinção e descobrimos caminhos novos, empenhando cada vez mais os leigos. AE – É necessário passar dos carreiros para as auto-estradas… AC –Sim. Mas a Igreja não trabalha para o lucro e tem dados que o Estado não pressente nem consente muitas vezes. A Igreja tem um sentido do voluntariado e do gratuito que a sociedade não reconhece. Eu nasci da gratuidade do amor dos meus pais e, no colo deles, nunca me pediram nem reclamaram as horas perdidas. AE – Nem lhe pediram dinheiro? AC – Hoje reclama-se por tudo… A gratuidade é mais fundamental ao homem do que o lucro. Está na hora da Igreja se esforçar para mudar o que é mutável e sentir que há novos caminhos a seguir sem perder as estribeiras.
