Modelo da presidência nas comunidades cristãs em discussão A Igreja Católica em Portugal encontra-se a viver de 9 a 16 de Novembro a “Semana dos Seminários”, ocasião escolhida por muitos dos Bispos locais para lançarem um apelo a todas as suas comunidades sobre a tão propalada “crise de vocações”. O modelo da presidência nas comunidades cristãs é uma das questões mais polémicas na vida da Igreja Católica. Enquanto a hierarquia não se cansa de repetir que o Seminário Diocesano é o viveiro onde se cultivam as vocações para o ministério sacerdotal, um serviço indispensável para as comunidades, questões como o celibato ou a não ordenação das mulheres, em conjunto com uma grande mudança do papel da Igreja na sociedade, levantam questionamentos e perplexidades junto de crentes e não-crentes. Para o Pe. Policarpo Lopes, professor de sociologia na UAL, a Igreja terá que inventar novos modos de serviço na comunidade, abandonando uma organização “piramidal e autocrata”. As presidências de modelo único, caso da católica, estão condenadas na opinião deste sociólogo, a evoluir noutras perspectivas, com lideranças “mais do tipo carismático do que do tipo funcional”. Do lado dos actuais responsáveis da Igreja Católica em Portugal o problema tem sido encarado com seriedade. A certeza vem do cessante secretário da Comissão Episcopal para o Clero, Seminários e Vocações, Pe. Álvaro Mancilha, para quem o acto de cativar vocações para o sacerdócio ministerial na Igreja Católica não invalida que surjam outros ministérios, “realidades possíveis porque nem sempre a vida das comunidades é a mesma”. Esses novos ministérios “irão nascer, conforme a necessidade concreta”, diz. Essa realida que, para o Pe. Policarpo Lopes, está em profunda transformação. O modelo que o sociólogo descreve à Agência ECCLESIA como de “civilização paroquial” – onde a paróquia era o centro e o campanário marcava a vida das gentes, implica a necessidade de evolução para novos modelos – foi substituído no seu entender por uma civilização urbana multipolar. “O modelo de Igreja do passado diluiu-se e isso que afecta o exercício dos ministérios, nomeadamente o da presidência”, explica. A Igreja Católica deveria, portanto, estar atenta ao que se passa na sociedade e inventar novas formas de serviço, “mais em consonância com o sentir das nossas gentes”. O modelo único de presidência nas comunidades católicas não é encarada como esgotado pelo Pe. Álvaro Mancilha, antes pelo contrário. Para ele, o interesse pelas vocações depende da capacidade de cada comunidade cristã em perceber a “importância crucial que o ministério ordenado desempenha no seio de cada comunidade”. “A oração tem de levar ao compromisso, na medida em que reconhecemos que é indispensável para a vida da comunidade a presidência do ministro ordenado e é com isso que as pessoas se devem sensibilizar”, refere. A origem da “crise” está assim localizada em dois pólos: a mudança societária e a falta de compromisso e de testemunho dos católicos. “A questão das vocações é muito mais profunda e não se resume aos sacerdotes. Sem vocação cristã não há nenhuma vocação sacerdotal; apenas quando cada pessoa assumir a sua condição de cristã poderemos evoluir neste campo, porque sem cristãos não vale a pena pensar em ministros ordenados”, explica o Pe Mancilha. “Hoje as pessoas vivem segundo uma lógica mais individualizante, mesmo na procura de bens simbólico-religiosos, dispensando canais intermédios; com a fast-religion, a maneira de organizar os seminários deve ser interpelada, bem como a formação daqueles que pretendem ser sacerdotes, ministros ou animadores de comunidade”, contrapõe o Pe. Policarpo Lopes. As mudanças na organização da vida dos seminários e do trabalho vocacional começam a ser visíveis, em função destas preocupações. O Pe. Álvaro Mancilha acompanhou nos últimos anos o crescimento e nascimento da ideia de um serviço nacional para a Pastoral das Vocações, “um “espaço de diálogo e de debate” entre as várias dioceses com propostas permanentes. Este “marketing” peca, segundo o Pe. Policarpo, por funcionar com objectivos e apelos a esquemas antigos, defendendo que a pastoral dos seminários tem também de inscrever-se numa “nova lógica social”. “As mudanças incluem um factor de risco que é o de ir contra os públicos das comunidades cristãs que vivem com modelos rurais, mesmo quando em contextos urbanos, ligadas a representações de presidência de modelo único; por outro lado há populações que estão noutra linha e se habituaram a ver nas celebrações tipos de intervenções diferentes e que dificilmente aceitam regredir nessa visão”, conclui o sociólogo.
