O Século do Martírio

O séc. XX fica na história como o século dos totalitarismos e também dos Direitos Humanos. Um equilíbrio difícil de encontrar que deixa na memória relatos de sofrimento que fazem dele “O Século do Martírio”. É este o título do livro escrito pelo fundador da Comunidade de Santo Egídio e aqueles relatos preenchem todas as suas páginas. Andrea Riccardi esteve em Portugal para a apresentação da edição portuguesa, que conta com o Prefácio de D. José Policarpo, para quem esta obra presta um serviço à cultura contemporânea e à Cultura Católica. Pelo rigor histórico e pelo contexto daquilo que foi o séc. XX, o Cardeal Patriarca de Lisboa fala dele como um marco no exercício da memória: “Este livro tem a vantagem de não fazer esquecer e de o ler com sentido, de o ler com uma interpretação que por ser crente não deixa de ter o rigor da história, porque essa é a marca do cristianismo. A religião foi durante dois mil anos sujeita à crítica da racionalidade, ela sabe que a profundidade da verdade exprime-se no rigor da história”. Para Mário Soares, que apresentou a obra, retiram-se da sua leitura várias “palavras-ideias”: “a necessidade da coragem, a dádiva, a generosidade, abertura ao outro, responsabilidade, justiça, ajuda, sofrimento, oração, amor pelo próximo”. E acrescentou: “são palavras que ecoam no coração de milhares de pessoas e que é daí que se parte e é isso que se encontra em todo este acervo”. Apresentada num contexto histórico e político específico, “este livro e a reflexão que se tira pode-nos incutir a lutar pela paz e a pensar que a paz se faz no entendimento e no diálogo com o outro”, referiu Mário Soares “O Século do Martírio” “é o resultado da análise de 9 600 relatórios que, de todo o mundo, chegaram aos arquivos do Vaticano em resposta ao repto de João Paulo II lançado durante o Jubileu para não deixar morrer a memória. Para o autor, este livro dá ao martírio um significado ecuménico, porque “os cristãos estão unidos no martírio”, e afirma-se o carácter gratuito do martírio. Os testemunhos aqui apresentados pelo historiador Andrea Riccardi revelam a existência de um cristianismo que chama de “cristianismo musculado”: “eu penso que este livro sobre o martírio me revelou que existe um cristianismo ao mesmo tempo forte e doce, forte e dialogante. Isto quer dizer, utilizando uma passagem das escrituras, “o amor é forte como a morte”, ou seja, o testemunho do martírio é o testemunho de uma característica peculiar do cristianismo que é essa força que brota da fraqueza”.

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